                 CARTAS  GUIN-BISSAU




Coleo O MUNDO, HOJE
Vol. 22
                              Ficha catalogrfica
               (Preparado pelo Centro de catalogao-na-fonte do
          SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ)




                    Freire, Paulo
      F934c            Cartas  guin-Bissau: registros de uma experincia em
                    Processo. 2 ed., Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1978.
                    173p. ilust. (O Mundo, hoje, v. 22)

                       1.Alfabetizao 2.Alfabetizao  Guin-Bissau
                    3.educao de Adultos 4.Educao de adultos 
                    teoria, mtodos, etc. I.ttulo II.Srie

                                  CDD  374-02
                                        379.24096657
                                  CDU  371.3:374.7+376.76(665.7)
      77-0349




EDITORA PAZ E TERRA
Conselho editorial
Antonio Candido
Celso Furtado
Fernando Gasparian
Fernando Henrique Cardoso




                               PAULO FREIRE
                 CARTAS  GUIN-BISSAU
                          REGISTROS DE UMA
                       EXPERINCIA EM PROCESSO


                                     2. Edio




                                    Paz e Terra




 World Council of Churches, 1977
Capa: Jayme Leo
Diagramao: Mario Roberto da Silva
Foto da Capa: R.Ribeiro




Direitos desta edio reservados 
EDITORA PAZ E TERRA S.A.
Rua Andr Cavalcanti, 86
Ftima, Rio de Janeiro




1978
_____________
Impresso no Brasil
Printed in Brazil
    A Amlcar Cabral, educador-educando de seu povo




" Posso ter minha opinio sobre muitos temas, sobre a maneira
de organizar a luta; de organizar um partido; uma opinio que se
formou em mim, por exemplo, na Europa, na sia, ou ainda em
outros pases da frica, a partir de livros, de documentos, de
encontros que me influenciaram. No posso porm pretender
organizar um partido, organizar a luta, a partir de minhas idias.
Devo faz-lo a partir da realidade concreta do pas."

                                                  Amlcar Cabral
                                               SUMRIO

INTRODUO.............................................................................................................. 9
  Primeira parte............................................................................................................ 9
    PRIMEIRO MOMENTO.......................................................................................... 15
    SEGUNDO MOMENTO.......................................................................................... 30
    TERCEIRO MOMENTO ......................................................................................... 34
  Segunda Parte ......................................................................................................... 37
  Post scriptum ........................................................................................................... 63
CARTAS  GUINE-BISSAU ................................................................................. 82
  Carta a Mrio Cabral (26.1.1975) ................................................................... 84
  Carta a Mrio Cabral (abril, 1975) .................................................................. 86
  Carta a Mrio Cabral (28.7.1975) ................................................................... 87
  Carta a Mrio Cabral (agosto, 1975).............................................................. 95
  Carta a Mrio Cabral (outubro, 1975) ........................................................... 96
  Carta a Mrio Cabral (26.11.1975)................................................................. 97
  Carta n1 a equipe (26.11.1975) .................................................................... 99
  Carta a Mrio Cabral (6.12.1975) ................................................................. 107
  Carta n2 a equipe (6.12.1975)..................................................................... 108
  Carta a Mrio Cabral (5.1.1976) .................................................................... 110
  Carta n3 a equipe (5.1.1976) ....................................................................... 111
  Carta a Mrio Cabral (3.2.1976) .................................................................... 131
  Carta n4 a equipe (3.2.1976) ....................................................................... 132
  Carta a Mrio Cabral (abril, 1976) ................................................................ 137
  Carta n5 a equipe (abril, 1976).................................................................... 138
  Carta a Mrio Cabral (7.5.1976) .................................................................... 152
  Carta n6 a equipe (primavera, 1976)........................................................ 154
  ltima pgina......................................................................................................... 161
A. Escola em uma zona libertada. Perodo da luta de libertao.
   (Publicao autorizada pelo Comissariado de Informao e
   Turismo da Repblica da Guine-Bissau)
                          INTRODUO

                          Primeira parte


(A) Esta introduo pretende ser, sobretudo, uma carta-relatrio
que fao aos provveis leitoras e leitores deste livro, to informal
quanto as que o compem. Nela, como se estivesse conversando,
tentarei, tanto quanto possvel, ir fixando este ou aquele aspecto
que me tem marcado em minhas visitas de trabalho  Guin-Bissau,
at bem pouco aviltantemente chamada pelos colonialistas
portugueses de "provncia de ultramar". Nome pomposo com que
procuravam mascarar sua presena invasora naquelas terras e a
explorao desenfreada de seu povo.
       Meu primeiro encontro com a frica no se deu, porm, com a
Guin-Bissau, mas com a Tanznia, com a qual me sinto, por vrios
motivos, estreitamente ligado.
Fao esta referncia para sublinhar quo importante foi, para mim,
pisar pela primeira vez o cho africano e sentir-me nele como quem
voltava e no como quem chegava. Na verdade, na medida em que,
deixando o aeroporto de Dar es Salaam, h cinco anos passados,
em direo ao "campus" da universidade, atravessava a cidade, ela
ia se desdobrando ante mim como algo que eu revia e em que me
reencontrava. Daquele momento em diante, as mais mnimas coisas
 velhas conhecidas  comearam a falar a mim, de mim. A cor do
cu, o verde-azul do mar, os coqueiros, as mangueiras, os
cajueiros, o perfume de suas flores, o cheiro da terra; as bananas,
entre elas a minha bem amada banana-ma; o peixe ao leite de
coco; os gafanhotos pulando na grama rasteira; o gingar do corpo
das gentes andando nas ruas, seu sorriso disponvel  vida; os
tambores soando no fundo das noites; os corpos bailando e, ao
faz-la, "desenhando o mundo", a presena, entre as massas
populares, da expresso de sua cultura que os colonizadores no
conseguiram matar, por mais que se esforassem para faz-lo, tudo
isso me tomou todo e me fez perceber que eu era mais africano do
que pensava.
       Naturalmente, no foram apenas estes aspectos, para alguns
puramente sentimentalistas, na verdade, contudo, muito mais do
que isto, que me afetaram naquele encontro que era um reencontro
comigo mesmo.
       Teria muito o que dizer das impresses que venho tendo e do
aprendizado que venho fazendo nas sucessivas visitas que tenho
feito  Tanznia. No  este, contudo, o meu objetivo, ao referir-me
agora a este pais a que me sinto to ligado. Falei da Tanznia para
salientar, como disse antes, o quanto me foi importante pisar o
cho africano e sentir-me nele como quem voltava e no como
quem chegava.
       Este sentir-me em casa, no cho africano, se repetiu, em
certos aspectos, de maneira ainda mais acentuada, quando, em
setembro do ano passado, visitei, com a equipe do Instituto de Ao
Cultural  IDAC  pela primeira vez, a Guin-Bissau. Poderia dizer:
quando "voltei"  Guin-Bissau.
       Nesta introduo, falarei do que vem representando, no s
para mim, mas para os que, em equipe, participamos da rica e
desafiante experincia em que, no campo da educao em geral e,
particularmente, no da educao de adultos, trabalhamos com
educadores e educandos guineenses e no sobre ou simplesmente
para eles.
       Creio, porm, que antes de faz-lo devo dizer duas palavras,
tentando explicar a razo que me leva a publicar agora, e no mais
tarde, as poucas cartas que at este momento escrevi ao
Comissrio de Educao e  Comisso Coordenadora dos trabalhos
de alfabetizao em Bissau. A inteno fundamental  a de oferecer
aos leitores e s leitoras, atravs delas, precedidas desta
introduo, uma viso mais ou menos dinmica das atividades que
se esto desenvolvendo naquele pas e alguns dos problemas
tericos que elas suscitam. Da o ttulo do livro: Cartas  Guin-
Bissau  registros de uma experincia em processo.
       Entre publicar um livro, em dois ou trs anos mais, uma
espcie de relatrio final dos trabalhos hoje em curso, e revelar a
experincia em pleno andamento, preferi a segunda hiptese.
Gostaria de afirmar, porm, que se outra publicao vier a fazer,
como espero, sobre a mesma experincia, j no ser constituda
pelas cartas que continuarei a escrever. E que prefiro sentir-me, ao
redigir as futuras cartas, to espontneas  e no neutro  quanto
me senti ao redatar as que ora publico. E esta espontaneidade  e
no neutralidade  poderia ser prejudicada se, ao escrever as
futuras cartas, eu me soubesse trabalhando num segundo volume
de cartas  Guin-Bissau.
       Dada esta explicao, comecemos a falar, sem muita
preocupao didtica, em torno das atividades na Guin. Ao faz-lo,
gostaria de sublinhar a satisfao com que recebemos, os que
fazemos o Departamento de Educao do Conselho Mundial de
Igrejas e a equipe do IDAC, na primavera do ano passado, o convite
oficial do governo daquele pas atravs do Comissariado de
Educao para, em uma primeira visita, discutir as bases de nossa
colaborao, no campo da alfabetizao de adultos.
       No nos era estranha, de modo algum, a luta em que o povo
da Guin-bissau e Cabo Verde, sob a liderana extraordinria de
Amlcar Cabral e de seus camaradas do PAIGC*, se tinha
empenhado para a expulso do colonizador portugus.
Sabamos o que havia significado essa luta, enquanto forjadora da
conscincia poltica de grande parte do povo, bem como da de sua
liderana, e enquanto tambm um dos fundamentais fatores que
explicam o 25 de Abril em Portugal.
       Sabamos que iramos trabalhar no com intelectuais "frios" e
"objetivos" ou com especialistas "neutros", mas com militantes
engajados no esforo srio de reconstruo. de seu pas. De
reconstruo, digo bem, porque a Guin-Bissau no parte de zero,
mas de suas fontes culturais e histricas, de algo de bem seu, da
alma mesma de seu povo, que a violncia colonialista no pde
matar. De zero ela parte, com relao s condies materiais em
que a deixaram os invasores quando, j derrotados poltica e
*
    Partido Africano para a independncia aa Guin e Cabo Verde
militarmente, numa guerra impossvel, tiveram de abandon-la
definitivamente aps o 25 de Abril, com um legado de problemas e
de descaso que diz bem do "esforo civilizatrio" do colonialismo.
       Dai a satisfao com que recebemos o convite: o de poder
participar, mesmo com um mnimo, da resposta ao desafio que tal
reconstruo coloca.
       Sabamos que tnhamos algo com que contribuir para a
resposta quele desafio. Se no o tivssemos, no se explicaria a
aceitao do convite. Mas, fundamentalmente, sabamos que a
ajuda que nos pediam s seria verdadeira na medida em que, em
seu processo, jamais pretendssemos ser os exclusivos sujeitos
dela, reduzindo, assim, os nacionais que a solicitavam, a puros
objetos da mesma. A ajuda autntica, no  demais insistir, 
aquela em cuja prtica os que nela se envolvem se ajudam
mutuamente, crescendo juntos no esforo comum de conhecer a
realidade que buscam transformar. Somente numa tal prtica, em
que os que ajudam e os que so ajudados se ajudam
simultaneamente,  que o ato de ajudar no se distorce em
dominao do que ajuda sobre quem  ajudado. Por isso  que no
h real ajuda entre classes dominantes e classes dominadas nem
entre as "sociedades imperiais" e as chamadas sociedades
dependentes, de fato, dominadas, na compreenso de cujas
relaes no se pode prescindir da anlise de classe.
       Por isso  que, s enquanto militantes, jamais como
especialistas "neutros", membros de uma misso estrangeira de
assistncia tcnica, poderamos, na verdade, prestar nossa
colaborao, por mnima que fosse. A nossa opo poltica e a nossa
prtica em coerncia com ela nos proibiam de pensar, sequer, que
poderamos elaborar, em Genebra, um projeto de alfabetizao de
adultos, elegantemente redigido, com seus 1,1,2,2 a ser levado
por ns  Guin-Bissau, como uma ddiva generosa. Este projeto,
pelo contrrio  como as prprias bases de nossa colaborao ,
teria de nascer l, pensado pelos educadores nacionais em funo
da prtica social que se d no pas. Nossa colaborao ao desenho
do projeto e  posta em prtica do mesmo dependeria de nossa
capacidade de conhecer melhor a realidade nacional, aprofundando
o que j sabamos em torno da luta pela libertao, das
experincias realizadas pelo PAIGC nas antigas zonas libertadas,
atravs da leitura de todo o material que pudssemos recolher,
privilegiando a obra de Amlcar Cabral. Estudos que, realizados em
Genebra, seriam completados no terreno, quando de nossa primeira
visita ao pas, e continuados nas subseqentes visitas, no caso em
que se definisse a nossa colaborao em termos mais ou menos
prolongados. subseqentes visitas em que, sobretudo, pensaramos,
com os educadores nacionais, a sua prpria prtica, em seminrios
de verdadeira avaliao. Partamos, pois, de uma posio radical: a
da recusa a qualquer tipo de soluo "empacotada" ou pr-
fabricada; a qualquer tipo de invaso cultural, clara ou
manhosamente escondida.
       A nossa opo poltica e a nossa prtica em coerncia com ela
nos proibiam, tambm, de pensar sequer que nos seria possvel
ensinar aos educadores e aos educandos da Guin-Bissau sem com
eles aprender. Se toda dicotomia entre ensinar e aprender, de que
resulta que quem ensina se recusa a aprender com aquele ou
aquela a quem ensina, envolve uma ideologia dominadora, em
certos casos, quem  chamado a ensinar algo deve a render
primeiro ara, em seguida, comeando a ensinar, continuar a
aprender.
     Uma experincia como esta  a de aprender primeiro para,
ensinando depois, continuar a aprender  tnhamos tido,
particularmente Elza e eu, no Chile, quando e onde, ao travar os
primeiros encontros com educadores chilenos, escutvamos mais do
que falvamos e, quando falvamos, era para descrever a prtica
que tivramos no Brasil, com suas negatividades e suas
positividades e no para prescrev-la aos educadores chilenos. Foi
aprendendo com eles, com os trabalhadores dos campos e das
fbricas, que nos foi possvel ensinar tambm. Se algo que
fizramos no Brasil repetimos tal qual no Chile, foi exatamente no
separar, de um lado, o ato de ensinar do de aprender; de outro,
no tentar superpor ao contexto chileno o que havamos feito de
maneira distinta nos diferentes contextos brasileiros. Na verdade,
as experincias no se transplantam, se reinventam. Porque, disto
convencidos, uma de nossas preocupaes bsicas, permanentes,
durante todo o tempo em que nos preparvamos, em equipe, para
a primeira visita  Guin-Bissau, foi a de nos vigiar quanto 
tentao de superestimando este ou aquele aspecto desta ou
daquela experincia de que antes participramos, pretender
emprestar-lhes validade universal. Da que a anlise, de resto
indispensvel, das experincias anteriores, como a de experincias
realizadas por outros em contextos distintos, fosse feita com vistas
a uma compreenso cada vez mais critica do carter poltico e
ideolgico da alfabetizao de adultos, em particular, da educao
em geral; das relaes entre a alfabetizao e a ps-alfabetizao
de adultos (da educao em geral) com a produo, com os
objetivos contidos no projeto global da sociedade; das relaes
entre a alfabetizao e o sistema de educao do pas.
Compreenso crtica do papel que poderia ter a alfabetizao de
adultos numa sociedade como a guineense, cujo povo direta e
indiretamente tinha sido tocado pela guerra de libertao, "um fato
cultural e um fator de cultura", na expresso de Amlcar Cabral, e
cuja conscincia poltica tinha sido partejada pela luta mesma. Um
povo que, apresentando um alto ndice de analfabetismo, 90%, do
ponto de vista lingstico,  altamente "letrado" do ponto de vista
poltico, ao contrrio de certas "comunidades" sofisticadamente
letradas, mas grosseiramente "analfabetas" do ponto de vista
poltico.
     Esta sim, durante todo o tempo em que nos preparamos para a
 primeira visita ao pas, foi uma temtica sempre presente em
 nossos seminrios, em que jamais tivemos um coordenador oficial.
 Temtica igualmente presente nas preocupaes de cada um de
 ns, individualmente, nas horas dedicadas  reflexo em torno de
 nossa contribuio  Guin-Bissau. Dai que jamais nos tenhamos
 detido no estudo de mtodos e de tcnicas de alfabetizao de
 adultos em si mesmos, mas no estudo deles e delas enquanto a
 servio de e em coerncia com uma certa teoria do conhecimento
 posta em prtica, a qual, por sua vez, deve ser fiel a uma certa
 opo poltica. Neste sentido, se a opo do educador 
 revolucionria e se sua prtica  coerente com sua opo, 
 alfabetizao de adultos, como ato de conhecimento, tem, no
 alfabetizando, um dos sujeitos deste ato. Desta forma, o que se
 coloca a tal educador  a procura dos melhores caminhos, das
 melhores ajudas que possibilitem ao alfabetizando exercer o papel
 de sujeito de conhecimento no processo de sua alfabetizao. O
 educador deve ser um inventor e um reinventor constante desses
 meios e desses caminhos com os quais facilite mais e mais a
 problematizao do objeto a ser desvelado e finalmente apreendido
 pelos educandos. Sua tarefa no  a de servir-se desses meios e
 desses caminhos para desnudar, ele mesmo, o objeto e depois
 entreg-lo, paternalisticamente, aos educandos, a quem negasse o
 esforo da busca, indispensvel ao ato de conhecer. Na verdade,
 nas relaes entre o educador e os educandos, mediatizados pelo
 objeto a ser desvelado, o importante  o exerccio da atitude crtica
 em face do objeto e no o discurso do educador em torno do
 objeto. E mesmo quando, nestas relaes, em que educador e
 educandos, curiosos, se acercam ao objeto de sua anlise, os
 segundos necessitam de alguma informao, indispensvel ao
 prosseguimento da anlise, pois que conhecer no  adivinhar, a
 informao deve ser precedida de certa problematizao. Sem
 esta, a informao deixa de ser um momento fundamental do ato
 de conhecimento para ser a transferncia que dele faz o educador
 aos educandos.
      Esta  uma das razes por que, desde os comeos de minha
 busca, no campo da alfabetizao de adultos, procurei superar as
 cartilhas*. As cartilhas enfatizem-se, e no outros materiais que
 pudessem ajudar os alfabetizandos no exerccio de fixao e de
 aprofundamento de seus achados. Achados que fossem fazendo no
 domnio da lngua, quando, a serem postas as palavras geradoras,
 comeassem a criar outras tantas, atravs das combinaes
 silbicas. Em defesa desses materiais, sim, sempre estive.
 Materiais que reforassem seu aprendizado, enquanto ato criador.
     Isto no , infelizmente, o que ocorre com as cartilhas, mesmo
com aquelas cujos autores, esforando-se ao mximo em ir mais
alm do carter doador que tm as mesmas, oferecem aos
alfabetizandos algumas oportunidades para que eles tambm criem
palavras e pequenos textos.
     Na verdade, grande parte do esforo a ser realizado pelos
alfabetizandos, sobretudo no momento de criao de suas palavras,
se encontra feito, nas cartilhas, pelo seu autor ou por sua autora.
Neste sentido, em lugar de estimular, nos alfabetizandos, a
curiosidade, as cartilhas reforam neles a atitude passiva, receptiva,
o que contradiz o carter criador do ato de conhecer.
     Parece-me que este  um dos problemas que uma sociedade
revolucionria deve se pr no campo da educao enquanto ato de

    *
      A este propsito, ver Paulo Freire  Educao como Prtica da Liberdade e
Ao
Cultural para a Liberdade e outros escritos, Paz e Terra, Rio.
conhecimento. O do papel criador e recriador, o da re-inveno que
o ato de conhecer demanda de seus sujeitos O da curiosidade
diante do objeto, qualquer que seja o momento do ciclo
gnosiolgico em que estejam, o em que se busca conhecer o
conhecimento existente ou o em que se procura criar o novo
conhecimento. Momentos, de resto, indicotomizveis. A separao
entre esses momentos reduz, de modo geral, o ato de conhecer o
conhecimento existente  sua pura transferncia "burocrtica". A
escola, no importa o seu nvel, se transforma em "mercado de
saber"; o professor, num especialista sofisticado, que vende e
distribui um "conhecimento empacotado"; o aluno, no cliente que
compra e "come" este conhecimento.
    Se o educador, pelo contrrio, no  levado a "burocratizar-se"
neste processo, mas a manter viva a sua curiosidade, re-desvela o
objeto no desvelamento que dele vo fazendo os educandos e,
assim, no raro, percebe nele dimenses at ento despercebidas.
     de fato indispensvel que educadores-educandos e
educandos-educadores se exercitem constantemente na recusa 
"burocratizao" que, aniquilando a criatividade, os transforma em
repetidores de clichs. Quanto mais "burocratizados" tanto mais
tendem a ficar alienadamente "aderidos"  quotidianeidade, de que
j no "tomam distancia" para compreender a sua razo de ser.
    A coerncia entre a opo poltico-revolucionria do educador e
sua prtica lhe  indispensvel para que evite sua "burocratizao".
Quanto mais vigilante na sua vivncia desta coerncia tanto mais
autenticamente militante se faz, recusando assim, tambm, o papel
tcnico ou de especialista neutro, neste ou naquele campo.
    Como militantes e no como especialistas neutros ou tcnicos
frios  que aceitamos, como disse antes, o convite do governo da
Guin-Bissau e nesta condio  que, em setembro do ano passado,
fizemos a nossa primeira visita ao pas. Dai que tenhamos deixado
Genebra dispostos a ver e a ouvir; a indagar e a discutir e no
carregando conosco, em nossas valises de mo, planos salvadores
ou relatrios semi-elaborais.
    Em equipe, debatramos, em Genebra, a melhor maneira de, na
Guin-Bissau, ver e ouvir, indagar e discutir, de que resultaria o
programa de nossa contribuio. Programa, portanto, a nascer l,
em dilogo com os nacionais, em torno de sua realidade, de suas
necessidades e de nossas possibilidades e no em Genebra, feito
por ns para eles.
    Na medida em que jamais tomamos a alfabetizao de adultos
em si mesma, reduzindo-a a um puro aprendizado mecnico da
leitura e da escrita, mas como um ato poltico, diretamente
associado  produo,  sade, ao sistema regular de ensino, ao
projeto global de sociedade a ser concretizado, ver e ouvir, indagar
e discutir, partindo embora do Comissariado de Educao, teriam de
prolongar-se a outros comissariados, ao Partido, incluindo as suas
organizaes de massas. Da que o nosso plano de trabalho para a
primeira visita, em Genebra simplesmente esboado em suas linhas
gerais e, na verdade, elaborado com os nacionais em Bissau, tenha
dividido o nosso tempo no pas em trs momentos bsicos, jamais
rigidamente separados entre si.
                             PRIMEIRO MOMENTO

(B) No primeiro momento, em que buscvamos ver e ouvir, indagar
e discutir entramos em contacto, em Bissau, inicialmente, com as
diferentes equipes do Comissariado de Educao e no apenas com
o recm-criado Departamento de Educao de Adultos.
Precisvamos conhecer os problemas centrais e a maneira como
vinham sendo confrontados, no campo do ensino primrio e no do
secundrio. Que modificaes j haviam sido introduzidas no
sistema geral de ensino, herdado do colonizador, e que fossem
capazes de estimular, a pouco e pouco, a sua radical
transformao, com a criao de uma nova prtica educativa, que
expressasse uma outra concepo da educao, em consonncia
com o projeto da nova sociedade que o Partido e o Governo se
propem criar com o povo.
    Na verdade, a educao colonial herdada, de que um dos
principais objetivos era a "desafricanizao" dos nacionais,
discriminadora, mediocremente verbalista, em nada poderia
concorrer no sentido da reconstruo nacional, pois para isto no
fora constituda. A escola colonial, a primria, a liceal, a tcnica,
esta separada da anterior, antidemocrtica nos seus objetivos, no
seu contedo, nos seus mtodos, divorciada da realidade do pas,
era, por isso mesmo, uma escola de poucos, para poucos e contra
as grandes maiorias. Selecionava at mesmo a pequena minoria
dos que a ela tinham acesso, expulsando grande parte deles aps
os primeiros encontros com ela e, continuando a sua filtragem
seletiva, ia aumentando o nmero dos renegados. Renegados em
quem enfatizava o sentimento de inferioridade, de incapacidade, em
face de seu "fracasso"*.
    Reproduzindo, como no podia deixar de ser, a ideologia
colonialista, procurava incutir nas crianas e nos jovens o perfil que
deles fazia aquela ideologias**. O de seres inferiores, incapazes,
cuja nica salvao estaria em tornar-se "brancos" ou "pretos de
alma branca". Da o descaso que essa escola necessariamente teria
de ter por tudo o que dissesse de perto aos nacionais, chamados de
"nativos". Mais do que descaso, a negao de tudo o que fosse
representao mais autntica da forma de ser dos nacionais: sua
histria, sua cultura, sua lngua. A histria dos colonizados
"comeava" com a chegada dos colonizadores, com sua presena
"civilizatoria"; a cultura dos colonizados, expresso de sua forma
brbara de compreender o mundo. Cultura, s a dos colonizadores.
A msica dos colonizados, seu ritmo, sua dana, seus bailes, a
ligeireza de movimentos de seu corpo, sua criatividade em geral,
nada disto tinha valor. Tudo isto, quase sempre, tinha de ser

     *
      A esse propsito, ver a crtica de Julius Nyerere  educao colonial na
 Tanznia,
 em seu excelente Education for Self-reliance.
**
  Ver Franz Fanon  Os Condenados da Terra; e Albert Memmi  Retrato do
Colonizado Precedido pelo Retrato do Colonizador, Editora Paz e Terra, Rio, 1977.
2' edio.
reprimido e, em seu lugar, imposto o gosto da Metrpole, no fundo,
o gosto das classes dominantes metropolitanas.
    Por tudo isto  que, para os colonizados que passaram pela
alienante experincia da educao colonial, a "positividade" desta
educao ou de alguns de seus aspectos s existe quando,
independentizando-se, a rejeitam e a superam. Quando, assumindo
com seu povo, a sua histria, se inserem no processo de
"descolonizao das mentes", a que faz referncia Aristides Pereira;
processo que se alonga no que Amlcar Cabral chamava de
"reafricanizao das mentalidades". E isto implica na transformao
radical do sistema educacional herdado do colonizador, o que no
pode ser feito, porm, de maneira mecnica. Envolvendo
fundamentalmente uma deciso poltica, em coerncia com o
projeto de sociedade que se procura criar, esta transformao
radical requer certas condies materiais em que se funde, ao
mesmo tempo em que as incentive. Requer no apenas o aumento
indispensvel da produo mas a sua reorientao, ao lado de uma
diferente concepo da distribuio. A clareza poltica na
determinao do que produzir, do como, do para que, do para quem
produzir. Transformao radical que, ao ser iniciada, mesmo
timidamente, e em funo das novas condies materiais, em um
de seus principais aspectos, o da superao, por exemplo, da
dicotomia     trabalho   manual-trabalho     intelectual,   provoca,
necessariamente, resistncias da velha ideologia que sobrevive,
como um dado concreto, aos esforos de criao da nova sociedade.
     Aqui, obviamente, as resistncias ideolgicas so as mesmas
 que se opem  sobrepassagem do modo incorreto de conceber o
 conhecimento como algo concludo, terminado, a que corresponde
 o papel do educador, enquanto "possuidor" de tal "conhecimento
 acabado", de transferi-lo ao educando que dele carece.
 Resistncias, s vezes, o que  pior, no propriamente a uma
 compreenso, a nvel intelectual, correta, ao conhecimento, mas a
 uma prtica em coerncia com essa compreenso. Dai que a
 transformao radical do sistema educacional herdado do
 colonizador exija um esforo interestrutural, quer dizer, um
 trabalho de transformao ao nvel da infraestrutura e uma ao
 simultnea ao nvel da ideologia. A reorganizao do modo de
 produo e o envolvimento crtico dos trabalhadores numa forma
 distinta de educao, em que mais que "adestrados" para produzir,
 sejam chamados a entender o prprio processo de trabalho.
     Neste campo ainda, o da transformao do sistema educacional
 herdado do colonizador, uma das tarefas a ser levada a cabo ser a
 da capacitao dos novos quadros do ensino e a da re-capacitao
 dos velhos. Entre eles, sobretudo entre os segundos, haver
 aqueles e aquelas que, percebendo-se "possudos" pela velha
 ideologia, a assumem conscientemente, passando a solapar,
 manhosa ou ostensivamente, a nova prtica a esses e dessas nada
 se pode esperar de positivo para o esforo de reconstruo
 nacional. Mas haver tambm aqueles e aquelas que, percebendo-
 se "assumidos" pela velha ideologia, vo dela desfazendo-se na
 nova prtica  qual aderem. Com esses se pode trabalhar. Os
 segundos so os que aceitam e cometem o "suicdio de classe"; os
 primeiros, os que o recusam.
     Referindo-se ao papel da pequena burguesia no quadro geral da
 luta de libertao nacional, afirmou Amlcar Cabral: "Para no trair
 estes objetivos (os da libertao nacional) a pequena burguesia
 no tem mais que um caminho: reforar sua conscincia
 revolucionria, repudiar as tentativas de aburguesamento e as
 solicitaes naturais de sua mentalidade de classe, identificar-se
 com as classes trabalhadoras, no se opor ao desenvolvimento
 normal do processo da revoluo.
    Isto significa que, para cumprir perfeitamente o papel que lhe
cabe na luta de libertao nacional, a pequena burguesia
revolucionria deve ser capaz de se suicidar como classe para
ressuscitar    como    trabalhadora    revolucionria,  inteiramente
identificada com as aspiraes mais profundas do povo a que
pertence.
    Esta alternativa, prossegue Cabral,  trair a Revoluo ou se
suicidar como classe  constitui a opo da pequena burguesia no
quadre geral da luta de libertao nacional"*.
    Esta alternativa continua de p, em todos os campos de
atividade, hoje, na luta pela reconstruo nacional, que  o
prolongamento daquela.
    As discusses em torno da alfabetizao de adultos no
poderiam prescindir de outras tantas a propsito destes problemas,
aqui, apenas, sumariamente referidos. Isto no significa,
obviamente, que as atividades no setor da alfabetizao de adultos
s6 devessem comear aps a transformao radical do sistema
educacional herdado do coloniza-dor. Significa, porm, que a
transformao radical de tal sistema  e no sua pura reforma 
deve ser um objetivo que se persiga de maneira cada vez mais
clara e mais rpidas.
    O debate em torno deste problema fundamental  o do sistema
educacional enquanto herana colonial  nos teria necessariamente
de levar, em nossa conversa com as equipes do Comissariado de
Educao,  anlise de uma outra herana  a da guerra de
libertao. Herana representada no acervo de excelentes
experincias lideradas pelo PAIGC nas ento chamadas zonas
libertadas do pais, no setor da produo, da distribuio, com os
"armazns do povo", no da justia, no da sade, no da educao.
    Era preciso saber, sobretudo, como as equipes nacionais, ao
preocupar-se com a transformao do sistema herdado do
colonizador, viam a herana da guerra.  que, na verdade, o novo
sistema a surgir no poder ser uma sntese feliz das duas
heranas, mas o aprofunda-mento em todos os aspectos melhorado
do que se fez nas zonas libertadas, em que uma educao
eminentemente popular e no elitista se desenvolveu. ** Em que,

     *
    Amlcar Cabral  Unit et Lutte I, L'arme de la thorie, Cahiers Libres 
Maspro  Paris. 1975, pgs. 302-303.
**
 "Este trabalho educativo no interior do pas obteve resultados importantes,
escolarizando grande nmero de crianas a partir dos 10 anos. (Dadas as
condies de guerra era esta a idade mnima para a admisso na instruo
tomada nas mos da populao, tanto quanto esta se deu s tarefas
de apoio aos guerrilheiros, uma escola de trabalho, ligada 
produo e preocupada com a formao poltica dos educandos,
nasceu cm resposta s exigncias mesmas da luta de libertao e
em que as crianas tinham de aprender, inclusive, como sobreviver
aos ataques devastadores dos avies inimigos.
    Uma educao que, expressando, de um lado, o clima de
solidariedade que a luta provocava, de outro, o estimulava e que,
encarnando o presente dramtico da guerra, buscava o reencontro
com o autntico passado do povo e se dava a seu futuro.
    Aqui, como em todas as dimenses do processo de libertao,
na Guin-Bissau, se percebe a viso proftica de Amlcar Cabral, a
sua capacidade de analisar a realidade do pas, de jamais neg-la,
de partir sempre dela como estava sendo e no como ele gostaria
que ela
fosse, de denunciar, de anunciar.Denncia e anncio, porm,
jamais estiveram, em Amlcar Cabral, dissociados, como tambm
jamais fora da prxis revolucionria. A denncia da realidade
opressora, da espoliao, da farsa colonialista, que procurava
mascarar aquela a espoliao, bem como o anuncio a nova
sociedade, constituindo-se no seio mesma da velha, atravs da
transformao revolucionria, ele sempre fez,com seus camaradas,
na prtica da luta. Enquanto um homem que viveu plenamente a
coerncia entre sua opo poltica e sua prtica, a palavra, em
Cabral, era sempre a unidade dialtica entre ao e reflexo,
prtica e teoria. Da que nunca se tenha deixado tentar, de um
lado, pelo blblbl; de outro, pelo ativismo.
    A sua clareza poltica, a coerncia entre sua opo e sua prtica,
esto na raiz tanto de sua recusa ao espontaneismo como de sua
rejeio  manipulao. Nem as massas populares, atomizadas,
entregues a si mesmas, marchando ao gosto dos acontecimentos,
sem um partido revolucionrio e uma vanguarda que esclaream,
que mobilizem, que organizem, que orientem, nem tampouco uma
vanguarda "proprietria" das massas populares. Nem licenciosidade
nem autoritarismo burocrtico. Nem a vanguarda atrs das massas
populares, perdendo-se na "poeira" que estas fazem; nem

primria. No ano letivo de 1971 - 1972 o PA IGC tinha nas zonas libertadas um
total de 164 escolas, onde 258 professores ensinavam a 14.531 alunos).
Posteriormente, os melhores alunos eram selecionados para freqentarem os
internatos do Partido, instalados nos pases limtrofes, no mbito do Instituto da
Amizade. Alm disso, o PAIGC, tendo em conta as exigncias da reconstruo
nacional e no obstante as condies da luta armada que obrigava a dedicar
muitos jovens  preparao militar, cuidou, particularmente, da formao de
quadros a nvel mdio e superior Para isso, contou com apoio de pases amigos,
de tal maneira que durante os anos de luta um nmero muito maior de
guineenses atingiu os cursos superiores em comparao com o perodo de
ocupao portuguesa. Em 10 anos o PAIGC formou muito mais quadros que o
colonialismo em 5 sculos". ("Em 10 anos, de 1963 a 1973, foram formados os
seguintes quadros do PAIGC: 36 com o curso superior, 46 com o curso tcnico
mdio, 241 com cursos profissionais e de especializao e 174 quadros polticos e
sindicais. Em contrapartida, desde 1471 at 1961, apenas se formaram 14
guineenses com curso superior e 11 ao nvel do ensino tcnico"). Luiza Teotnio
Pereira e Lus Motta  Guin Bissau  3 anos de Independncia, Edio CIDAC-C,
Coleo frica em Luta, Lisboa, 1976, pgs. 106-107.
demasiado  frente, fazendo-as perder-se na "poeira" da
vanguarda, mas esta com aquelas, ensinando e aprendendo
mutuamente, na luta de libertao. Tal qual Guevara, tal qual Fidel,
Amlcar esteve constantemente em comunho com seu povo, cujo
passado conhecia to bem e em cujo presente se encontrava to
radicalmente inserido  o presente da luta a que se deu sem
restries. Cabral podia, assim, prever e antever. Por isso  que,
em todo hoje que ele intensamente vivia, havia sempre um sonho
possvel, um vivel histrico, a comear a ser forjado no hoje
mesmo.
    "Ns no morremos, disse ele certa vez a militantes com quem
discutia sobre a fora mgica dos amuletos, se no fazemos a
guerra ou se no atacamos o inimigo em posio de fraqueza. Se
cometemos erros, se nos encontramos em posio dbil, morremos,
no h outra sada. Vocs me diro: "Cabral no o sabe, mas temos
visto vrios casos em que o amuleto  que salvou os camaradas da
morte; as balas vinham e ricocheteavam." Vocs podero diz-lo;
espero, porm, que os filhos de nossos filhos, ao ouvirem tais
histrias e ao ficarem contentes por saber que o PAIGC foi capaz de
dirigir a luta de acordo com a realidade de seu pas, digam
tambm: "nossos pais lutaram bastante, mas acreditavam em
coisas estranhas". O que lhes digo talvez no tenha sentido agora;
falo para o amanh..."*
    Amlcar Cabral sabia que os canhes sozinhos no faziam a
guerra e que esta se resolve quando, em seu processo, a debilidade
dos oprimidos se faz fora, capaz de transformar a fora dos
opressores em fraqueza. Dai a preocupao constante, a paciente
impacincia com que invariavelmente se deu  formao poltica e
ideolgica dos militantes, qualquer que fosse o nvel e o setor de
sua ao. Dai a ateno especial que dedicou aos trabalhos de
educao nas zonas libertadas e tambm o carinho com que, antes
de ir  frente de combate, visitava as crianas das escolinhas e
compartia com elas de seus jogos e de seus brinquedos e a quem
tinha sempre uma palavra correta a dizer. Crianas a quem
costumava chamar de "flores de nossa revoluo".
    No nos surpreendeu a maneira clara como, de modo geral,
todos esses pontos foram analisados pelas equipes nacionais, com a
presena do Comissrio de Educao que se sente a elas
incorporado, conscientes todos do que significa o empenho de
recriar uma sociedade. Dos obstculos dirios a enfrentar, desde a
falta dos mais mnimos materiais  uma simples mquina de
escrever   necessidade imperiosa de formao de quadros nos
mais diferentes campos, para a posta em prtica de seus projetos.
    Percebemos a lcida compreenso que o Comissrio Mrio
Cabral tinha da rica experincia educativa desenvolvida durante a
guerra, bem como a maneira carreta como encarava a
transformao radical do sistema educativo herdado do colonizador
que ele, contudo, sabia no poder ser superado magicamente.
Cabral sabia e o sabe cada vez melhor, em funo de sua prtica

    *Amlcar Cabral  Obra citada, pgs. 200-201.
militante  frente do Comissariado de Educao, que as relaes
entre o sistema educacional e a sociedade global so dialticas e
no mecnicas. Reconhecendo os limites da educao formal,
enquanto subsistema de um sistema maior, reconhecia tambm o
seu papel fundamental na formao de uma nova mentalidade em
coerncia com os objetivos da nova sociedade a ser criada. Papel
fundamental, contudo, que no poderia ser cumprido se, em vez de
se tomar a prtica social vigente no pas, se tentasse uma educao
que correspondesse  futura sociedade, em processo de gestao.
Uma tal tentativa, rigorosamente idealista, no poderia, por isso
mesmo, ser concretizada. Da que, por exemplo, entre fechar
bruscamente as escolas herdadas do colonizador, ao nvel primrio
e liceal, enquanto se reorientava o sistema educacional, ou anunciar
medidas impossveis e introduzir, no velho sistema, reformas
fundamentais, capazes de acelerar a sua futura transformao
radical, em funo das modificaes que se fossem operando nas
bases materiais da sociedade, preferiu a segunda hiptese.
     Neste sentido, a reformulao dos programas de Geografia, de
Histria e de lngua portuguesa, ao lado da substituio dos textos
de leitura, carregados de ideologia colonialista, era um imperativo.
Fazia-se necessrio que os estudantes guineenses estudassem,
prioritariamente, sua geografia e no a de Portugal, que
estudassem seus braos de mar, seu clima e no o Rio Tejo. Era
preciso     que     os    estudantes      guineenses      estudassem,
prioritariamente, sua histria, a histria da resistncia de seu povo
ao invasor, a da luta por sua libertao que lhe devolveu o direito
de fazer sua histria, e no a histria dos reis de Portugal e das
intrigas da Corte. Era preciso que os estudantes guineenses fossem
chamados no a "exerccios de moldagem em barro, do poeta cego
de um olho e coroado de louros"*, mas a participar do esforo de
reconstruo nacional. Era preciso, por isso mesmo, comear a
pensar em caminhos atravs dos quais fosse possvel provocar,
mesmo timidamente, no incio, as primeiras intimidades entre os
estudantes liceanos de Bissau e a atividade produtiva.
      A "Escola ao campo", projeto que consistia em deslocar,
temporariamente, as escolas urbanas, com seus professores e seus
estudantes, a reas rurais, em que, vivendo em acampamentos,
participariam da atividade produtiva, aprendendo com os
camponeses e a eles algo ensinando, sem que se suprimissem as
demais atividades escolares, era um desses caminhos de que nos
Talava o Comissrio Mrio Cabral.
     Assim  que, j no ano letivo de 1975 tinham sido iniciadas
experincias a prolongar-se, como de fato se deu, no de 1976, de
integrao do trabalho produtivo s atividades escolares normais,
no intuito de combinar trabalho e estudo, de tal maneira que aquele
fosse, tanto quanto possvel, constituindo-se como fonte do ltimo,
em unidade com ele. Na medida em que essas experincias se

  *
    I V Centenrio da Publicao d'Os Lusadas  Comisso das Comemoraes
  na
Guin. Os Lusadas e a Guin, Bissau, 1972.
forem sistematizando e aprofundando  possvel fazer derivar da
atividade produtiva, cada vez mais, os contedos programticos de
"n" disciplinas que, no sistema tradicional, so "transferidos",
quando so, verbalistamente.
     Em certo momento j no se estuda para trabalhar nem se
trabalha para estudar; estuda-se ao trabalhar. Instala-se ai,
verdadeiramente, a unidade entre a prtica e teoria. Mas, insista-
se, o que a unidade entre prtica e teoria elimina no  o estudo
enquanto reflexo critica (terica) sobre a prtica realizada ou
realizando-se, mas a separao entre ambas. A unidade entre a
prtica e a teoria coloca, assim, a unidade entre a escola, qualquer
que seja o seu nvel, enquanto contexto terico, e a atividade
produtiva, enquanto dimenso do contexto concreto.
     Entre as experincias, j quela poca bastante positivas,
apesar das dificuldades com que se defrontava o Comissariado de
Educao para implement-las mas de ordem ideolgica 
resistncias de estudantes que no aceitavam a idia de usar suas
mos; outras, de carter material  falta de transporte, por
exemplo  podiam destacar-se as seguintes:
     Trabalho aos domingos, pela manh, com 120 alunos
concluintes do liceu de Bissau, nas granjas do Estado. Participao
de alunos do 2 e 3 anos do liceu de Bissau em atividades
produtivas, em hortas do Instituto da Amizade.
     Dois meses de trabalho no setor da pecuria pelos alunos do 2
ano da Escola Salvador Allende. Jardins feitos pelos alunos de um
grande nmero de escolas primrias da capital.
      interessante salientar que, antes e depois das idas ao campo
para a participao na atividade produtiva, os alunos do liceu
discutiam com os tcnicos agrcolas, que os acompanham sempre
nas visitas, uma srie de aspectos ligados quela prtica.
     Os seminrios de avaliao, realizados na volta de cada ida ao
campo, confirmam, aprofundam ou corrigem a viso de alguns dos
pontos discutidos na reunio preparatria.
      interessante, tambm, salientar a maneira aberta com que os
camponeses recebiam a visita de estudantes urbanos, dispondo-se
a com eles algo aprender e a eles algo ensinar. No fundo, porm,
deve-riam ser os estudantes os que mais aprendiam, ao fazer a sua
intimidade, pela primeira, vez, com o trabalho duro de lavrar a
terra, de colher, de produzir.
      Estas experincias eram feitas, no s em Bissau, onde as
dificuldades so maiores, mas noutras reas do pas, em que as
condies so mais favorveis. No momento, elas se estendem 
quase totalidade das escolas, havendo algumas, como o liceu de
Bafat, que tm dois campos agrcolas, sem falar-se das escolas
das antigas zonas libertadas, que continuam a ser auto-suficientes,
atravs da atividade produtora de seus alunos e de seus
professores. Na regio de Bafat, acrescente-se, em 106 escolas,
96 tm campo agrcola.
     Medidas como estas, a que se juntavam a organizao do
Comissariado de Educao, evitando-se, porm, a sua rgida
centralizao, e para o que se contava, na poca de nossa visita,
com a colaborao militante de dois educadores cubanos e o esforo
j iniciado no sentido da capacitao e recapacitao dos
professores, anunciavam transformaes mais profundas que viriam
a seu tempo. Transformaes j agora em curso e de que falarei
mais adiante.

(C) Quanto  alfabetizao de adultos, duas iniciativas bsicas
haviam sido comeadas  uma, ligada s Foras Armadas do
Povo,FARP, e a outra ao Comissariado de Educao que j criara o
seu Departamento de Educao de Adultos.
    A tendncia, porm, respeitadas embora certas especificidades
de cada uma dessas iniciativas, era para a unificao dos esforos,
indispensvel  eficincia do Programa Nacional.
     interessante salientar que, quer do ponto de vista das FARP,
quer do Comissariado de Educao, a alfabetizao era tomada
como um ato poltico, em cujo processo os alfabetizandos se
engajam com a ajuda dos animadores  alfabetizadores  enquanto
militantes uns e outros, no aprendizado crtico da leitura e da
escrita e no na memorizao mecnica e alienante de slabas,
palavras e frases que lhes fossem doadas. Posio, de resto, em
total coincidncia com a nossa. Os seus problemas, pois, no se
punham ao nvel da viso correta do processo, mas ao nvel de sua
concretizao.
    O importante, de fato, na alfabetizao de adultos no  o
aprendizado da leitura e da escrita de que resulte a leitura de textos
sem a compreenso critica do contexto social a que os textos se
referem Esta e a alfabetizao que interessa s classes dominantes
quando por diferentes razes, necessitam estimular, entre as
classes dominadas, a sua "introduo ao mundo das letras". E
quanto mais "neutras" fizera estas classes sua "entrada" neste
mundo, melhor para aquelas.
     Numa perspectiva revolucionria, pelo contrrio, impe-se que
os alfabetizandos percebam ou aprofundem a percepo de que o
fundamental mesmo  fazer histria e por ela serem feitos e
refeitos e no ler estrias alienantes. Correndo o risco de parecer
esquematicamente simtrico, diria que, no primeiro caso, os
educandos jamais so chamados a pensar, criticamente, os
condicionamentos de seu prprio pensamento; a refletir sobre a
razo de ser de sua prpria situao, a fazer uma nova "leitura" da
realidade que lhes  apresentada como algo que  e a que devem
simplesmente      melhor      adaptar-se     pensamento-linguagem,
absurdamente desligado da objetividade os mecanismos de
introjeo da ideologia dominante, jamais discutidos. O
conhecimento  algo que deve ser "comido" e no feito e re-feito. O
analfabetismo  visto ora como uma erva daninha, ora como uma
enfermidade, dai que se fale tanto de sua "erradicao" ou dele
como uma "chaga".
    Objetos no contexto geral da sociedade de classes, enquanto
oprimidos e proibidos de ser, os analfabetos continuam objetos no
processo da aprendizagem da leitura e da escrita.  que
comparecem a este processo no como quem  convidado a
conhecer o conhecimento anterior que sua prtica lhes deu para,
reconhecendo as limitaes deste conhecimento, conhecer mais.
Pelo contrrio, o que a eles se lhes prope  a recepo passiva de
um "conhecimento empacotado".
     No segundo caso, na perspectiva revolucionria, os educandos
so convidados a pensar. Ser consciente no , nesta hiptese, uma
simples frmula ou um mero "slogan".  a forma radical de ser dos
seres humanos, enquanto seres que no apenas conhecem, mas
sabem que conhecem. O aprendizado da escrita e da leitura, como
um ato criador, envolve, aqui, necessariamente, a compreenso
critica da realidade. O conhecimento do conhecimento anterior, a
que os alfabetizandos chegam ao analisar a sua prtica no contexto
social, lhes abre a possibilidade a um novo conhecimento:
conhecimento novo, que indo mais alm dos limites do anterior,
desvela a razo de ser dos fatos, desmistificando assim, as falsas
interpretaes dos mesmos. Agora, nenhuma separao entre
pensamento-linguagem e realidade objetiva, da que a leitura de um
texto demande a "leitura" do contexto social a que se refere. Neste
sentido, a alfabetizao de adultos se inscreve como uma
introduo ao esforo de sistematizao do conhecimento que
trabalhadores rurais e urbanos alcanam em decorrncia de sua
atividade prtica, que jamais se explica por si mesma, mas pelas
finalidades que a motivam. Sistematizao que se vai aprofundando
nas etapas que se seguem  alfabetizao. Ao lado da
reorganizao do modo de produo, este , enfatize-se, um dos
aspectos centrais a ser criticamente compreendido e trabalhado por
uma sociedade revolucionria: o da valorao, e no idealizao, da
sabedoria popular que envolve a atividade criadora do povo e revela
os nveis de seu conhecimento em torno da realidade. O que se
impe, de
B. Escola numa zona libertada. Perodo da luta de libertao.
   (Publicao autorizada pelo Comissariado de Informao e
   Turismo da Repblica da Guin-Bissau)
fato, no  a transmisso ao povo de um conhecimento
previamente       elaborado,     cujo    processo    implicasse    no
desconhecimento do que o povo j sabe e, sobretudo, de que o
povo sabe, mas a ele devolver, em forma organizada, o que ele nos
oferece em forma desorganizada*. O que vale dizer, conhecer com o
povo a maneira como o povo conhece e os nveis de seu
conhecimento. Isto significa desafi-lo, atravs da reflexo critica
sobre sua prpria atividade prtica, portanto sobre as finalidades
que a motivam, a organizar os seus achados, superando, assim, a
mera opinio sobre os fatos por uma cada vez mais rigorosa
apreenso e explicao dos mesmos. Desafio a que Amlcar Cabral
dava sria ateno quando, analisando a luta de libertao como
"um fato cultural e um fator de cultura" sublinhava a necessidade
de que essa cultura se fosse tornando cada vez mais cientifica e no
cientificista  sobrepassando, ento, o que ele costumava chamar
de "fraquezas da cultura".
    Um trabalho como este, fundado sempre na prtica de pensar a
prtica, com que a prtica se aperfeioa, proporcionaria o
surgimento de verdadeiros centros de estudos que, girando embora
em torno de um tema central  agricultura, sade, por exemplo 
desenvolveriam anlises globais dos mesmos. Centros que se iriam
convertendo a pouco e pouco, em funo mesma de trabalho
sistematizador do conhecimento, em permanente processo de
aprofundamento, em futuras unidades universitrias mas de uma
universidade que nasceria das classes trabalhadoras e com elas no
sobre elas, o que significaria contra elas.
    O importante, na verdade, num tal trabalho com o povo,  o
exerccio daquela postura crtica diante da realidade, em que esta
comea a ser tomada, cada vez mais rigorosamente, como objeto
de conhecimento, na anlise da prpria ao transformadora sobre
ela.  ter na atividade prtica um objeto permanente de estudo de
que resulte uma compreenso da mesma que ultrapasse o seu
carter imediatamente utilitrio.  ter nela no apenas a fonte do
conhecimento de si mesma, da sua razo de ser, mas de outros
conhecimentos a ela referidos.
    A questo que se coloca, pois, a uma sociedade revolucionria,
no  a de apenas "treinar" a classe trabalhadora no uso de
destrezas consideradas como necessrias ao aumento da produo,
destrezas que, na sociedade capitalista, so cada vez mais
limitadas, mas aprofundar e ampliar o horizonte da compreenso
dos trabalhadores (trabalhadoras) com relao ao processo
produtivo.
    Mas digamos algo de que se fazia, no momento de nossa visita,
no setor da alfabetizao de adultos.
    Como era de se esperar, os trabalhos nos seios das FARP, pelo
alto ndice de clareza poltica de seus militantes, em decorrncia da
luta de libertao, j apresentavam resultados verdadeiramente
positivos, apesar das inmeras dificuldades a serem transpostas e
de que se achavam conscientes os responsveis. Dificuldades ora
   *
    "Ns devemos ensinar s massas com preciso o que delas recebemos
confusamente", disse Mao em entrevista a Malraux. Andr Malraux  Antimmoires,
Gallimard, Paris, 1967, pg. 531.
quanto  falta de material, ora no que respeita  pouca eficincia de
certos animadores (alfabetizados), a demandar um permanente
aperfeioamento.
    Em junho de 1975, dois meses antes de nossa primeira visita e
aps um curso de capacitao inicialmente sob a responsabilidade
de uma nica militante*, 82 animadores e 7 coordenadores
(supervisores) pertencentes s FARP se encontravam em atividade,
em quartis de Bissau, enquanto 150 outros militantes terminavam
sua formao.
    O projeto das FARP, pensando pelo Comissrio poltico das
mesmas, Jlio de Carvalho, e seus assessores, previa trs
momentos ligados entre si. O primeiro, o de um intenso esforo de
alfabetizao atravs do qual, to rapidamente quanto possvel, se
buscaria superar o problema do analfabetismo entre seus
militantes, na zona de Bissau. No segundo, no mesmo tempo em
que, em Bissau, se comeasse a ps-alfabetizao, aprofundamento
diversificado do que se faria no primeiro, se estenderia a
alfabetizao s unidades militares por todo o pas. No terceiro,
finalmente, "as FARP, transbordando-se a si mesmas, para repetir
as palavras de Julio de Carvalho, alcanariam a populao civil".
Este "transbordamento" se daria ora atravs de militares da FARP
que, embora desmobilizados e incorporados  atividade produtiva,
continuariam a elas ligados, ora por meio daqueles que, na ativa,
dariam sua contribuio s tarefas de mobilizao e de
alfabetizao de adultos e civis.
     Ao escrever esta introduo, posso afirmar que os dois
primeiros momentos se acham em pleno desenvolvimento. A ps-
alfabetizao se inicia nos quartis de Bissau, onde j no h,
praticamente, analfabetos, enquanto a alfabetizao atinge a 80%
dos militantes das Foras Armadas Revolucionrias do Povo nas
demais zonas do pas. O terceiro momento est em seus comeos.
Cinge-se, at agora,  colaborao que representantes da Equipe
Central das FARP vm dando  Comisso Coordenadora de
Alfabetizao, enquanto membros da mesma. Comisso que,
acrescente-se, de acordo com as linhas gerais da poltica do Partido
e do Governo, planeja e supervisiona os trabalhos de alfabetizao
de adultos nas reas civis.
     Obviamente, era necessrio que os cinco componentes da
equipe* nos dividssemos e, assim, visitssemos alguns, pelo
menos, dos Crculos de Cultura em funcionamento. Era
indispensvel, no instante em que nos achvamos, o de ver e ouvir,
indagar e discutir, que observssemos como se "moviam", nos
Crculos, os seus participantes, de um lado, os alfabetizandos, de
outro, os animadores. At que ponto sua prtica estaria sendo
preponderantemente criadora ou, pelo contrrio, enfadonhamente
*
  Esta militante participara, em Lisboa, de um seminrio de formao, coordenado
pelo professor Cintra, em que s e analisariam os aspectos fundamentais da
experincia do autor, sobretudo no Brasil.
*
  No momento da visita, compunham a equipe Miguel D'Arcy de Oliveira, Claudius
Ceccon, Marcos Arruda, Elza Freire e Paulo Freire. Posteriormente, se
incorporaram, vivendo em Guin-Bissau, Jos Barbosa e Gisle Ouvray e, ao nvel
de Genebra, Rosisca D'Arcy de Oliveira.
repetidora e alienadamente memorizadora. At que ponto estariam
os alfabetizandos apropriando-se de sua palavra, exercitando a sua
expressividade, conscientemente envolvidos num ato poltico ou se,
pelo contrrio, estariam simplesmente "aprendendo a ler e a
escrever".
      interessante sublinhar que a nossa atitude, ao visitar os
Crculos de Cultura, no era, de um lado, a de quem se inclinasse a
superestimao do que fosse observado nem, de outro, a de quem,
fixado em modelos ideais, no fosse capaz de perceber a distncia
entre eles e a realidade concreta. Nem euforias incontidas diante
dos acertos, nem negativismos em face dos equvocos que
fissemos encontrar. O importante era ver o que se fazia, nas
condies materiais limitadas que sabamos existir, para, em
seguida, ver o que se poderia fazer de melhor, nas mesmas
condies, caso no fosse possvel, de imediato, torn-las mais
favorveis.
     O que a observao da prtica nos Crculos de Cultura revelou 
que, apesar dos desacertos, os seus participantes, alfabetizandos e
animadores,      se     achavam      engajados       num     trabalho
preponderantemente criador. Em algo mais que simplesmente
aprender e ensinar a ler e a escrever. E isto  que era fundamental.
     Entre os desacertos mais flagrantes poderia citar, por exemplo,
a impacincia ou a pressa com que certos animadores, s vezes,
criavam, eles mesmos, as palavras em lugar de desafiarem os
alfabetizandos a faz-lo, ou a nfase que davam  repetio em
coro, demasiado demorada, de um conjunto silbico, certamente
convencidos de que tal repetio cadenciada seria o melhor meio
pelo qual os alfabetizandos conheceriam as slabas, ou ainda a falta
de vivacidade com que alguns animadores participavam dos
debates em torno da temtica referida  palavra geradora.
     Tais desacertos, cuja inexistncia, esta sim, nos teria
surpreendido, considerando-se, sobretudo, o pouco tempo de
prtica e de formao terica dos animadores, deveriam ir sendo
superados atravs de seminrios de avaliao permanente,
coordenados pelos supervisores. Seminrios em que estes,
fundados na observao constante da prtica dos animadores,
fariam a avaliao, com eles, dessa prtica, reforando os acertos e
procurando sobrepassar os erros.
     E interessante salientar, tambm, a imaginao criadora que
nos foi possvel observar entre alguns animadores. Um deles, por
exemplo, chega ao local do Circulo de Cultura, cumprimenta os
camaradas alfabetizandos e comea, em seguida, a varrer, com
uma vassoura rstica, a sala toda. Pacientemente, fazia que sua
vassoura passeasse de um canto a outro. s vezes, detinha-se,
curvava-se para olhar sob os bancos em que, sentados, os
alfabetizandos comeavam j a revelar sinais de inquietao. No
podiam compreender a razo de ser do comportamento do
animador, a insistncia com que ia e vinha com sua vassoura,
limpando o que lhes parecia j limpo. Em certo momento, um deles,
expressando o estado de esprito dos demais, disse: "Camarada,
quando comeamos a nossa `aula'?"
     "A `aula' comeou desde que cheguei", respondeu o animador,
perguntando em seguida: "que fiz eu at agora?"
     "A limpeza da sala", disseram.
     Dirigindo-se, ento, ao quadro negro improvisado, escreveu,
lentamente, o animador, a palavra Limpeza e disse: "exatamente,
limpeza  a palavra geradora que estudaremos hoje".
     Na verdade, o educador  um poltico e um artista, que se serve
da cincia e das tcnicas, jamais um tcnico friamente neutro.
     Se a nossa atitude, ao visitar os Crculos de Cultura, tivesse
sido uma das duas anteriormente referidas  a das euforias fceis
diante dos acertos ou a dos negativismos em face dos erros e dos
equvocos, teramos, na primeira hiptese, idealizado o que vimos,
na segunda, decretado a invalidade da experincia. Em ambas,
seramos ns os redondamente em erro.
     No que diz respeito s poucas experincias na rea civil, isto ,
nos bairros populares de Bissau, a situao era completamente
diferente, mas, ao mesmo tempo, compreensvel. Uma coisa 
trabalhar no seio das FARP, com militantes forjados na luta de
libertao, claros com relao ao que significa o empenho de
reconstruo nacional, como continuao daquela luta, e outra 
trabalhar em bairros populares de Bissau, intocados, de maneira
direta, pela guerra, e fortemente marcados pela ideologia
colonialista, como tentei esclarecer em uma das cartas que
compem este livro.
     Assim, enquanto que, no momento da primeira visita, havia 82
Crculos de Cultura funcionando nos quartis de Bissau, nos bairros
populares da cidade tudo estava por fazer ou refazer.
     O que ambas as experincias  a que se dava no seio das FARP
e a que se buscava desenvolver nos bairros populares 
sublinhavam era a necessidade do estabelecimento de uma poltica
de prioridades para o Programa de alfabetizao de adultos.
Programa que, embora nacional em seus objetivos, partisse de
certas reas e setores determinados, cujos critrios de escolha
deveriam ser bem definidos. Para que a alfabetizao pudesse
cumprir o seu principal objetivo  o de inserida no esforo de
reconstruo nacional, contribuir, efetivamente, para este esforo 
era necessrio que se encontrasse em dinmica relao com outras
formas bsicas de interveno social, capazes de inscrev-la como
uma necessidade. A alfabetizao de adultos, como a educao em
geral, no pode superpor-se  prtica social que se d numa certa
sociedade, mas, ao contrrio, deve emergir desta prtica, enquanto
uma de suas dimenses.
     No teria sentido  e disto estava bastante consciente o
Comissrio de Educao, Mrio Cabral  transformar-se o nascente
Programa Nacional de Alfabetizao de Adultos, na Guin-Bissau,
em mais uma campanha, nos moldes tradicionais que todos
conhecemos, em que,  alfabetizao, idealizada, por ingenuidade
ou astcia, se empresta uma fora que ela no tem. A questo
fundamental que se colocava, pois, no era a de se fazer a
alfabetizao de adultos por ela mesma ou a de faz-la como se
fosse ela, em si, um instrumento de transformao da realidade,
mas a de p-la a servio, reinsista-se, da reconstruo nacional.
     Desta forma, os projetos de alfabetizao de adultos, no campo
civil, deveriam concretizar-se, de um lado, naquelas reas em que,
de acordo com a poltica do Partido, realizada pelo Governo, certas
alteraes nas relaes sociais de produo estivessem verificando-
se ou por verificar-se, a curto prazo; de outro, no interior de rgos
da administrao do Estado  hospitais, correios e telgrafos,
oficinas de obras pblicas etc.  cujos servidores tivessem, na
alfabetizao, a introduo a outros conhecimentos, necessrios ao
cumprimento das novas tarefas impostas pela reconstruo
nacional*. Da a necessidade, sublinhada pelo Comissrio Mrio
Cabral, de uma estreita relao entre seu comissariado e o de
Planejamento, o de Agricultura, o de Sade. Necessidade de
estreita relao, igualmente, entre o Comissariado de Educao e as
organizaes de massa do Partido, como a Juventude Africana
Amlcar Cabral  JAAC  cujos militantes poderiam dar, como o
fazem agora, uma importante contribuio aos projetos de
alfabetizao.

(D) Ainda no primeiro momento de nossa visita entramos em
contacto, em Bissau, com o Comissariado Poltico das FARP, a que
j fiz referncia, com o Comissariado de Informao, com o de
Agricultura, com o de Sade, com a JAAC, quela poca em fase de
reestruturao, e fomos recebidos, em visita mais de trabalho do
que protocolar, pelo Camarada Francisco Mendes, Comissrio
Principal, e pelo Presidente do Conselho de Estado, Camarada Luiz
Cabral.
     Quanto ao Comissariado de Informao, cujo papel no processo
de reconstruo nacional  indiscutvel, sobretudo na medida em
que a informao, no se reduzindo a uma pura transmisso ou
transferncia de mensagens se v tornando, como  o caso da
Guin-Bissau, formao e comunicao, interessava-nos ver s
tipos de ajuda que poderia oferecer ao futuro programa de
alfabetizao.     Programa      cuja      eficincia    demandaria,
constantemente, esforos de mobilizao e de participao popular
que poderiam ter, na rdio e no jornal, eficientes meios de ajuda.
     Das conversaes mantidas, por outro lado, com os
responsveis pela Sade e pela Agricultura, menos prolongadas,
como era natural, do que as que tivemos com as equipes do
Comissariado de Educao, dois aspectos fundamentais se
ressaltaram, em vista das relaes necessrias entre alfabetizao,
produo e sade. De um lado, a poltica de sade, privilegiando a
medicina preventiva, em cuja prtica a educao sanitria ocupa
papel destacado; de outro, a preocupao do Comissariado de
Agricultura com o estimulo  formao de cooperativas e de
fazendas do Estado, em que o trabalho baseado na ajuda mtua
seria importante e com a diversificao da cultura. Medidas, em
ltima anlise, indispensveis ao desenvolvimento do pas.


    *
      Se este problema comeou a ser discutido na etapa a que me refiro, a de
nossa primeira estada na Guin-Bissau, foi, porm, na segunda visita, em
fevereiro deste ano, que veio a definir-se claramente.
     A questo, portanto, que se colocava ao Comissariado de
Educao, como lucidamente anotava Mrio Cabral, seria a de estar
presente, atravs de projetos de alfabetizao de adultos, a toda
iniciativa do Comissariado de Agricultura, no domnio das
cooperativas de produo e no das fazendas do Estado e a de
incluir, nos programas de alfabetizao, aspectos ligados  medicina
preventiva, de acordo com o Comissariado de Sade.
     Servindo-se desta ou daquela experincia no campo de uma
cooperativa de produo, os militantes, envolvidos nos projetos de
alfabetizao, como animadores, deveriam estar atentos a como
relacionar tais experincias com a alfabetizao. Simultaneamente
com o aprendizado da escrita e da leitura, os alfabetizandos
deveriam ser convidados a pensar sua prtica e as finalidades que a
motivam no combate, por exemplo, aos mosquitos, na luta contra a
malria, ou chamados ao debate em torno das vantagens do
trabalho baseado na ajuda mutua sobre o trabalho de carter
individualista, na criao da cooperativa.
     Seria do mais alto proveito, por outro lado, se pudesse preparar
material visual, inicialmente sobre experincias realizadas em
outros pases da frica, com a anlise das quais se sobrepassariam
os limites geogrficos da rea e do prprio pas e se iria ganhando
uma viso mais ampla da realidade.
     Debater a prtica do combate ao mosquito numa rea rural da
Guin-Bissau e depois discutir a mesma prtica numa comunidade
camponesa de Moambique, da Tanznia ou de So Tom e Prncipe
significa possibilitar a anlise de um sem-nmero de problemas
ligados a esses pases.

                           SEGUNDO MOMENTO

(E) O segundo momento de nossa primeira estada na Guin-Bissau
foi dedicado a rpidas visitas a algumas das antigas zonas
libertadas. Zonas em que o PAIGC realizara, como salientei
anteriormente, experincias de alta importncia, no domnio da
educao, da sade, da justia, da produo, da distribuio, com
os "armazns do povo" que, depois da independncia total do pais,
"no espao de um ano chegaram a controlar todo o seu comrcio"*.
     Embora, em parte, sacrificadas pelo mau tempo, as visitas nos
facilitaram importantes contactos com comissrios polticos locais,
que nos falavam de sua militncia junto ao povo e com ele; alguns,
de suas experincias durante a luta, do aprendizado em que ela
implica, no apenas para sobreviver durante ela e vencer o inimigo,
mas tambm para a outra luta, a da reconstruo nacional.
Contactos com tcnicos nacionais e estrangeiros, com professores
primrios que participavam, num dos centros em que estivemos, do
primeiro seminrio de formao em torno da Pedagogia de Freinet.
     S, porm, a partir da segunda visita ao pas, em fevereiro
deste ano,  que nos seria possvel comear a ir aprofundando a
viso das zonas interioranas, no apenas percorrendo reas

*
  Discurso pronunciado pelo Presidente do Conselho de Estado, Luiz Cabral, na
abertura da segunda sesso da primeira legislatura da Assemblia Nacional
Popular, em 22 ce abril de 1976  Bissau.
cultivadas, mas tambm conversando com alunos e populaes
camponesas.
     De qualquer modo, contudo, gostaria de fixar, aqui, pelo menos
um aspecto que a mim me tocou naquelas visitas: a conversa que
tivemos Elza e eu com um jovem diretor de um Internato. Falava
manso, calmo, objetivamente. Contava pedaos da histria de que
participara como fazedor e revelava como vinha igualmente por ela
sendo feito. Sem retrica, sem adjetivos veementes, mas sem
frieza e profundamente humano, ia nos dizendo do trabalho
educativo do Internato, na zona libertada. Ia nos falando de como a
escola e a comunidade se integravam no esforo comum de
sustentar a luta e, sentindo-se e sabendo-se igualmente pela luta
sustentadas, se davam  tarefa apontada pelo PAIGC, a de vencer,
a de expulsar o invasor, a de libertar o pas. Referia-se a Amlcar
Cabral no com uma saudade sentimental, nem, por outro lado,
tambm, como se ele fosse um mito a ser cultuado, mas como um
smbolo, uma "presena" marcante na histria de seu povo.
     No foi preciso que nos falasse de smbolo ou de presena
marcante para que eu soubesse que era assim que ele entendia
Cabral. E esta compreenso, que  geral na Guin-Bissau e Cabo
Verde,  o resultado da autenticidade do testemunho do grande
lder, da maneira como intensamente se experimentou na
comunho com seu povo, sem a qual no poderia ter feito o que fez
nem ter sido o que foi e continua a estar sendo. Ningum  ou
continua a estar sendo sozinho. Muito antes de ter sido considerado
como "Pai da Nacionalidade", Cabral se fez "Filho do Povo", com ele
aprendendo e a ele ensinando, na prtica revolucionria*.
     Enquanto o jovem militante nos ia falando, a Elza e a mim, da
experincia do Internato, dos alunos e professores trabalhando
juntos, aprendendo juntos, inclusive a como defender-se dos
bombardeios cruis dos inimigos, ia ficando cada vez mais claro o
papel que aquela experincia toda teria a jogar, como de fato est
jogando, hoje, na luta pela reconstruo nacional. O seu papel na
superao do sistema educacional herdado dos colonizadores.
     Durante todo o tempo em que estivemos juntos, amparados
contra a chuva forte que caa, no terrao estreito de uma pequena
casa, ouvamos mais do que falvamos. De vez em quando, uma
pergunta, apenas, com que possibilitvamos o jovem educador a
esclarecer melhor um ponto, a recordar um outro.
     "Tnhamos sempre, disse ele, em dado momento, no muito
longe do local dos Internatos, stios seguros, dentro do mato, onde,
no caso de bombardeios, pudssemos abrigar as crianas e os
adultos que viviam em torno. Ainda bem no se comeava a
perceber o barulho dos avies, j todos, rapidamente, quase
instintivamente, se organizavam para abandonar a rea. Cada um

*
   significativo, a esse respeito, o que disse outro militante, num momento
dramtico, o do assassinato de Amlcar Cabral pelos colonialistas, e que nos foi
referido pelo Presidente Luiz Cabral: "Eu no choro o camarada Cabral", disse o
militante diante de seu corpo tombado. "O camarada Cabral no morreu. Quem
fala agora no sou eu, mas ele, atravs de mim. O camarada Cabral vai continuar
a falar atravs do povo, chamando-nos para a luta, para a vitria contra o
opressor."
sabia o que devia fazer e fazia, naquelas ocasies. Certa vez,
continuou, ao regressarmos do esconderijo, aps um bombardeio,
encontramos, no ptio do Internato, trs camaradas nossas, duas j
mortas, a terceira morrendo, as barrigas abertas. Junto a elas, trs
fetos varados por baioneta."
      No lhe perguntei como tinham chegado  zona libertada os
 autores daquele crime. No quis saber se haviam vindo no avio,
 que depois do bombardeio tivesse descido em um campo qualquer
 ou se teriam sido soldados de uma patrulha avanada do exrcito
 colonialista. Nada disto me interessou naquele instante. Perguntei
 apenas, mos crispadas, o que faziam quando conseguiam
 aprisionar assassinos to perversos.
      Tenho a impresso de que o jovem militante percebeu, na
 tonalidade de minha voz, nas minhas mos crispadas, na minha
 face, em mim todo; no olhar de Elza, no seu silncio que gritava, a
 revolta imensa que nos assaltava.
      Com voz sempre mansa e calma, sua resposta foi um
 ensinamento. "Gente ruim como essa, disse ele, quando pegada,
 era punida, de acordo com o tribunal popular. A revoluo pune
 mas no tortura. O camarada Cabral falava sempre do respeito
 que se devia ter ao inimigo. Era uma palavra de ordem do nosso
 Partido, do PAIGC."
      Ai est uma diferena radical entre a violncia dos opressores
 e a violncia dos oprimidos. A daqueles  exercida para preservar
 a violncia, implcita na explorao, na dominao. A dos ltimos,
 para suprimir a violncia, atravs da transformao revolucionria
 da realidade que a possibilita.
      A maturidade poltica revelada por aquele militante e que a
 luta pela libertao, como "fato cultural e fator de cultura"
 provoca,  uma constante na Guin-Bissau, com exceo de
 alguns setores da populao de certas reas menos tocadas pela
 luta mesma. Na Guin-Bissau se fala da luta sem tiradas oratrias,
 sem exuberncias. Fala-se do que ela ensinou, do que ela exigiu;
 do que continua a ensinar, a exigir, enquanto processo
 permanente. Do engajamento em que ela implica; da vigilncia
 que ela demanda.
      Na verdade, essa simplicidade e essa ausncia de triunfalismo
 revelam, de um lado, um bem enraizado sentimento de segurana;
 de outro, uma verdadeira humildade que, por isso mesmo, jamais
 se alonga em falsa modstia. Segurana e humildade que foram
 aprendidas na luta difcil, na superao dos obstculos, na vitria
 sobre o inimigo. Por isso  que, envolta nelas, o que se percebe 
 a firme deciso do povo e de sua vanguarda, o PAIGC, no sentido
 de concretizarem o sonho possvel que perseguem desde o comeo
 da luta  o de re-inventarem saia sociedade, banindo a explorao
 de uns por outros e superando as injustias.
      Discretamente, com pudor revolucionrio e, em coerncia com
 este pudor, absolutamente consciente do papel histrico de seu
 povo,  que aquele jovem militante falou a Elza e a mim da prtica
 em que se re-fez e da em que continuava a re-fazer-se, junto com
 seus camaradas; da alegria de haver participado da dureza da
 luta, da alegria de estar participando da reconstruo de seu pas.
     Na volta a Bissau, olhando pela janela do helicptero dirigido
por pilotos soviticos, junto aos quais dois jovens nacionais
continuavam sua aprendizagem, via, l embaixo, as frondes das
rvores queimadas de napalm.
     Olhava atentamente, curiosamente. Nenhum animal. Uma ou
outra ave maior voava calmamente. Lembrava-me do que nos
dissera o Presidente Luiz Cabral, em nosso primeiro encontro,
quando nos falava de diferentes instantes e aspectos da luta, com a
mesma sobriedade com que o jovem diretor do Internato
conversava com Elza e comigo. "Houve um momento, disse o
Presidente, em que os animais da Guin "pediram asilo" aos pases
vizinhos. Somente os sagis permaneceram, refugiando-se nas
zonas libertadas. Tinham horror aos "tugas". Depois, coitados,
passaram a temer-nos. E que nos vimos forados a comear a
com-los. Espero que, em breve, os nossos animais retornem 
concluiu o Presidente  convencidos de que j no h guerra".
     Da janela do helicptero olhava atentamente, curiosamente.
No havia ainda, pelo menos naquelas bandas do pas, indcios
daquele retorno...

(F) J em Bissau, enquanto nos preparvamos, em equipe, para a
ltima fase de nossa visita, houve um fato que nos marcou
profundamente e que tem que ver com muitas das consideraes
feitas nesta introduo. Sobre ele, desde ento, tenho falado
sempre em seminrios e no gostaria, agora, de silenci-lo.
     Manh quente de setembro. Asfixiante, quase. Comemorava-se
a independncia do pas.
     Uma grande praa. No fundo, o palanque em que se achavam
as autoridades nacionais, o corpo diplomtico, convidados e
delegaes de pases amigos.
     Grupos variados desfilam. Representam organizaes populares
de Tabancas e bairros de Bissau. Crianas, jovens, mulheres,
homens coloridamente vestidos. Cantam e bailam. Movem-se. Vo
e vm, curvando-se e recurvando-se, numa riqueza extraordinria
de ritmos. A multido toda, ao longo da avenida que desembocava
na praa, participava, ativamente, do desfile. No estava ali apenas
para olhar e escutar, mas para expressar, conscientemente, a
alegria de poder estar ali, como um povo que conquistara o direito
de ser.
     A multido cantava tambm, movia-se tambm. No se tratava
de um "espetculo folclrico" a que uns poucos,  distncia,
assistissem. Era uma festa do povo, que vivia o seu dia maior.
     Aps o desfile, encerrado com a apresentao de unidades das
FARP, o Presidente Luiz Cabral comeou ento o seu discurso.
     Exatamente em frente ao local do palanque em que se achava o
Presidente, um grupo da banda militar, perfilado. Em certo
momento, um dos soldados da banda, como se estivesse caindo
sobre si mesmo, desfalece. O Presidente pra o seu discurso. Olha
fixo o militante que est sendo amparado por seus camaradas. A
multido percebe. Abre caminho a um carro que se aproxima e em
que o soldado  conduzido ao hospital. O Presidente acompanha
com o olhar o carro que parte e logo desaparece. S ento volta a
falar.
     A meu lado, em voa baixa, disse Elza: "Este foi o momento
mais bonito de nossa visita a este pas. Temos realmente muito que
aprender de um povo que vive to intensamente a unidade entre a
palavra e o gesto. O indivduo aqui vale enquanto gente. A pessoa
humana  algo concreto e no uma abstrao."
     O Presidente prosseguia no seu discurso. Tudo nele era
autntico. Sua palavra ao povo, como seu gesto coerente com sua
palavra, diante do fato que ocorrera. Alguns segundos, apenas,
envolveram aquele fato. Muitos anos de luta o explicam. No era
aquela por certo, a primeira vez em que o militante Luiz Cabral
expressava, no importa de que forma, a sua solidariedade a um
companheiro em dificuldade. Muito antes que o Presidente Luiz
Cabral parasse o seu discurso e, preocupadamente, acompanhasse
com os olhos o camarada desfalecido naquela manh quente de
setembro, o militante Luiz Cabral se teria detido, vezes inmeras,
para atender a um companheiro tombado na luta comum de
libertao de seu povo.
     Fatos como este cuja significao mais profunda  indiscutvel,
no    so,   na    Guin-Bissau,     acontecimentos    isolados     ou
extraordinrios. Constituem a maneira de estar sendo de seu povo.
De estranhar seria que o Presidente, "distante e frio", tivesse
continuado o seu discurso enquanto seu camarada das FARP se
sentia mal.
     O que me parece fundamental  e sem pretender idealizar a
revoluo guineense, pois que ela vem sendo feita por homens e
mulheres e no por anjos   que valores que se vieram
encarnando na dureza da luta, em que o PAIGC se forjou como
vanguarda revolucionria do povo, continuam de p. E quanto mais
consciente esteja esta vanguarda em torno da necessidade de
preservar sua comunho com o povo, em cujo seio selou a sua
prpria condio de vanguarda, tanto mais a revoluo ser
defendida das ameaas de distoro. Assim, um dos grandes
desafios que esta vanguarda vem se fazendo a si mesma, em
coerncia com o pensamento de Amlcar Cabral* na medida era que
mais e mais busca preservar e desenrolar aquela comunho com as
classes trabalhadoras,  o de aprofundar o "suicdio de classe",
iniciado h muito, na luta de libertao. , que, se este "suicdio" se
"perde", assiste-se ao surgimento de uma "burguesia burocrtica"
no poder, distanciada das classes trabalhadoras mesmo que at em
seu nome falando.

                           TERCEIRO MOMENTO

(G) Afirmei, no comeo desta introduo, que o nosso             plano de
trabalho para a primeira visita  Guin-Bissau, em                Genebra
simplesmente esboado em suas linhas gerais, na                   verdade
elaborado em Bissau com os nacionais, tinha dividido              o nosso

   *
      Amlcar Cabral  "Sur la Petite Bourgeoisie" em L'arme de la thorie,
Franois Maspro, Paris, 1975, pgs. 301-3.
tempo no pas em trs momentos bsicos, jamais separados entre
si. Os dois primeiros, que procurei caracterizar como sendo os em
que buscvamos ver e ouvir, indagar e discutir, foram momentos de
anlise, em que, necessariamente, o ltimo se gerava  o da
sntese. Na verdade, esta vinha se fazendo a cada passo, no
momento mesmo da anlise, de que no pode dicotomizar-se.  por
esta razo que muito do terceiro momento de nossa visita j foi dito
na descrio, de resto precria, que tentei das etapas anteriores, as
de anlise. Durante estas, tomando tanto quanto possvel, a
realidade do pas, enquanto totalidade, como objeto de nossa
curiosidade, procuramos cindi-la em suas partes para melhor
conhec-la.
     No momento da sntese, gerando-se, como disse antes, na
prpria anlise, o esforo seria o da retotalizao da totalidade
cindida. No fundo, os dois momentos se integram num dinmico
movimento que vai da ciso do objeto  suas retotalizao.
     Em ltima instncia, nos dois primeiros momentos, tornvamos
a realidade como uma "codificao" que procurvamos descodificar,
ora com os diferentes grupos nacionais, ora entre ns, enquanto
equipe visitante, em nossas reunies de avaliao do trabalho em
andamento. Nesta ltima hiptese, realizvamos, s vezes, uma
dupla tarefa. Em certas ocasies, tornvamos a realidade mesma
como objeto de nossa anlise tentando "l-la" criticamente; em
outras, era o prprio esforo anterior de anlise da realidade feito
com as equipes nacionais o que nos propnhamos como objeto de
nossa reflexo. Desta forma, analisvamos a anlise anterior,
reconhecendo, assim, em termos crticos, a maneira como
havamos percebido a mesma realidade, objeto de nossa
curiosidade.
     Naturalmente, enquanto participantes do mesmo processo de
descodificao da realidade, em dilogo com as equipes nacionais,
no poderamos, de um lado, ser meros espectadores silenciosos;
de outro, ser sujeitos exclusivos do ato de descodificar. Teria sido
to contraditrio com os princpios que motivaram a nossa ida 
Guin-Bissau pretendermos ser os exclusivos sujeitos da
descodificao da realidade quanto encarnar o papel de recipientes
da descodificao, feita, no caso, pelas equipes nacionais, para, no
ltimo momento, o da sntese, quase misteriosamente, fazer o
nosso discurso. Uma espcie de discurso zelosamente guardado. De
discurso surpresa.
     Na verdade, nos achvamos envolvidos, com as equipes
nacionais, num ato de conhecimento, no qual, tanto quanto elas,
devamos assumir o papel de sujeitos cognoscentes. O dilogo entre
ns e as equipes nacionais, mediados pela realidade que
buscvamos conhecer, era o selo daquele ato de conhecimento.
Seria conhecendo e reconhecendo juntos que poderamos comear
a aprender e a ensinar juntos tambm.
     Sublinho este ponto, no apenas como algo que deveria ser
referido na seqncia desta introduo, mas tambm para, uma vez
mais, aclarar a minha posio, nem sempre bem compreendida, em
face dele, isto , do dilogo como selo do ato de conhecimento,
bem como do papel dos sujeitos cognoscentes neste ato.
     Foi, porm, no primeiro momento de nossa visita,
principalmente nos encontros de estudo com Mrio Cabral e suas
equipes do Comissariado de Educao, que fomos debatendo e
aprofundando uma rica temtica a que sempre temos voltado em
nossas sucessivas idas ao pas. Temtica referida, s vezes, de
maneira mais ou menos ampla na primeira parte deste trabalho e
que, por isso mesmo, prescinde de ser agora mencionada.
     Dividindo o terceiro momento de nossa presena na Guin-
Bissau em duas partes, reservamos a primeira para, com Mrio
Cabral e seus auxiliares, realizarmos a recapitulao do esforo
anterior, feito em comum, de anlise da realidade  o da
descodificao que dela fizramos.
     A recapitulao que nos coube a ns iniciar implicava em que
tornssemos clara a "leitura" que fazamos da realidade nacional.
Nossa "leitura", por sua vez, se punha s equipes do Comissariado
de Educao como um novo desafio a que deveriam responder,
aceitando-a ou recusando-a, totalmente ou em parte; melhorando-
a, aprofundando-a. Na sntese se voltava, assim,  anlise, para
alcanar uma nova sntese.
     Finalmente, na segunda parte do ltimo momento de nossa
estada na Guin-Bissau, baseados no que viramos e no que
ouvramos; nas respostas ao que indagramos e nos achados feitos
em torno do que discutramos; no aprendizado direto que fizramos
do pas, na compreenso comum sobre o papel da educao em
geral e da alfabetizao em particular no empenho de reconstruo
nacional, nos dedicamos, mais uma vez em dilogo com os
nacionais, a estabelecer os princpios de nossa contribuio, cuja
continuidade nos foi solicitada pelo Comissrio Mrio Cabral, em
nome do governo e com a concordncia do Partido.
     Em sntese, o projeto elaborado em comum previa, como era
natural, atividades a serem realizadas por ns em Genebra e outras
na Guin-Bissau.
     Assim, trs visitas foram acertadas para o ano em curso 
todas cumpridas  e aceita igualmente a proposta para a fixao em
Bissau, sem nus para o Governo, de um membro da equipe do
IDAC, que trabalharia, como de fato o vem fazendo desde fevereiro
deste ano, a tempo integral, junto  Comisso Coordenadora dos
Trabalhos de Alfabetizao de Adultos. Comisso criada, na mesma
reunio de sntese, pelo Comissrio Cabral.
     Em nossas futuras visitas, deveramos, fundamentalmente, em
dilogo com a Comisso Coordenadora e servindo-nos dos relatrios
a serem recebidos nos intervalos das idas ao pas, fazer a avaliao
da prtica realizando-se no campo da alfabetizao de adultos, em
cujo processo continuaramos aprofundando alguns dos aspectos
centrais que haviam sido discutidos na primeira visita.
     O mtodo de trabalho para as subseqentes idas ao pas
deveria ser substancialmente o mesmo adotado na primeira. Um
momento de anlise, no sentido dinmico a que antes me referi, e
um momento de sntese, de que resultaria a necessidade de nova
anlise.
     Em Genebra, continuaramos, em equipe, aprofundando a
compreenso da problemtica educativa do pais, particularmente no
campo da alfabetizao de adultos, na perspectiva global sobre que
venho insistindo neste texto. Por outro lado, ainda em Genebra, ora
elaboraramos materiais didticos que nos fossem solicitados e que,
remetidos a Bissau, seriam provados pela Comisso Coordenadora,
antes de generalizado seu uso, ora daramos a nossa opinio em
torno de outros materiais que, realizados em Bissau, fossem
submetidos  nossa apreciao.
    Desta forma, nasceu o projeto que pe juntos, hoje, de um
lado, o Comissariado de Educao da Guin-Bissau, de outro, a
Commission on Churches' Participation in Development, que o
financia, o Instituto de Ao Cultural e o Departamento de Educao
do Conselho Mundial de Igrejas.
    H um ano que, sempre em dilogo com os nacionais,
prestamos a mnima contribuio que podemos, e de que vem
resultando um aprendizado comum que nos enriquece a todos.


Segunda Parte

(A) Esta introduo ficaria demasiado incompleta, mais do que vem
sendo, se, agora, no me alongasse um pouco mais em
comentrios em torno, pelo menos, de algumas das principais
atividades que se desenvolveram de setembro do ano passado para
c.
       O primeiro destes comentrios incide sobre as modificaes
que o e que sero introduzidas no sistema educacional do pas,
modificaes que se acrescentam s que fiz referencia na primeira
parte desta introduo e com as quais o Comissrio de Educao,
fiel aos objetivos do Partido e  orientao do Governo, prepara a
radical transformao do sistema herdado dos colonizadores.
     Comeo por comentar estas modificaes pela repercusso que
necessariamente tm sobre os trabalhos de educao de adultos
que no podem, como sublinhei no incio deste texto, estar sequer
indiferentes  proposta educativa, contida no sistema regular de
ensino do Pas.
     A oposio entre um esforo no setor da educao informal de
adultos e o sistema educacional de uma dada sociedade se d
quando aquele esforo, em antagonismo com o sistema global da
sociedade,  um instrumento de que um movimento ou um partido
revolucionrio se serve para, taticamente, organizar as classes
dominadas no sentido da chegada ao poder. No caso da Guin-
Bissau, que no  este, o importante  a harmonia entre o que se
pretende com a educao de adultos e o que se busca realizar com
o sistema regular de ensino do pas.
     Ao tocar neste ponto, isto , nas modificaes que esto sendo
e que sero introduzidas no sistema de educao da Guin-Bissau,
estarei baseando-me no apenas no que tenho ouvido diretamente
do Comissrio Mrio Cabral, em nossas reunies de trabalho em
Bissau, quando nos tem falado, cada vez mais lucidamente, de
como vem, com seus auxiliares, enfrentando a transformao da
educao no pas, mas tambm em recente entrevista que deu ao
N Pintcha, jornal de Bissau. Entrevista de que citarei um ou outro
trecho.
     Tomando a educao no como algo em si, mas como
expresso supra-estrutural, em suas relaes dialticas e no
mecnicas com a infra-estrutura da sociedade,  que o
Comissariado de Educao vem introduzindo tais modificaes no
sistema educacional herdado e de que vai resultando a constituio
do novo.
     Por outro lado e coerentemente com esta viso, percebe-se a
preocupao com superar a concepo e a prtica da educao
segundo as quais cada "provncia" do sistema educacional,
descurando a real formao dos educandos, nela experimentando-
se, se faz um simples momento, alienado e alienante, de preparado
para o seguinte.
     O projeto em que o Comissrio de Educao da Guin-Bissau se
engaja, projeto realista, em consonncia com a realidade do pas,
re-conhecendo embora as relaes entre seus diferentes nveis,
prev, pelo contrrio, que, em cada um, a tarefa formadora se
realiza ao mximo. Assim, as relaes que possam existir entre o
Ensino Bsico e o Ensino Geral Polivalente ou o Mdio Politcnico
no so relaes que reduzam o primeiro a um "corredor" por onde
uns poucos passem com o objetivo, apenas, de alcanar os
seguintes que, por sua vez, os conduzissem  "paisagem" seleta da
universidade.
     "O nosso ensino, diz Mrio Cabral, ser dividido em trs nveis.
Ensino Bsico, de seis anos, com dois ciclos: um de quatro, o outro
de dois anos. Ensino Polivalente, de trs anos. Ensino Mdio
Politcnico, que, variando de acordo com as prprias exigncias da
formao mdia, ter uma durao nunca inferior a dois ou trs
anos".
     O Ensino Bsico, de seis anos, com dois ciclos, e que se
pretende universalizar em funo das possibilidades do Partido e do
Estado, se prope uma formao fundamental, indispensvel 
participao consciente de qualquer cidado ou cidad na criao e
no desenvolvimento da nova sociedade.
     No se trata, pois, de um ensino que se d numa escola que
simplesmente prepara os educandos para outra escola, mas de uma
educao real, cujo contedo se acha em dialtica relao com as
C. Escola numa zona libertada. Perodo de luta de Libertao.
   (Publicao autorizada pelo Comissariado de Informao e
   Turismo da Repblica da Guin-Bissau)
necessidades do pas. O ato de conhecimento posto em prtica por
uma tal educao se d na unidade da prtica e da teoria, por isso
mesmo no pode prescindir, cada vez mais, de ter no trabalho dos
educandos e dos educadores sua fonte.
     Os valores que esta educao persegue se esvaziam se no se
encarnam e s se encarnam se so postos em prtica. Dai que,
desde o primeiro ciclo deste nvel de ensino, o de quatro anos,
participando de experincias em comum, em que se estimula a
solidariedade social e no o individualismo, o trabalho baseado na
ajuda mtua, a criatividade, a unidade entre o trabalho manual e o
trabalho intelectual, a expressividade, os educandos iro criando
novas formas de comporta mento de acordo com a responsabilidade
que devem ter diante da comunidade.
     No segundo ciclo do Ensino Bsico, o de dois anos, envolvidos
no mesmo ato de conhecimento em que se experimentaram no
primeiro, trabalhando sempre em comum e em comum buscando,
os educandos no apenas alargam as reas de seus conhecimentos
mas aprofundam aqueles em cujo processo, tanto quanto os
educadores, assumem o papel dos sujeitos.
   Na verdade, no seria realizvel uma educao voltada para a
concretizao de valores como a solidariedade, a responsabilidade
social, a criatividade, a disciplina a servio do interesse comum, a
vigilncia, o esprito crtico, valores em que forjou o PAIGC, em todo
o processo da luta de libertao, se nesta educao os educandos
continuassem a ser, como na educao colonial, meros recipientes
de "conhecimentos empacotados", a eles transferidos pelos
educadores. Puros objetos, incidncias da ao "educativa" dos
educadores.
   Identificada, reinsista-se, com a realidade do pas, esta , por
outro lado, uma educao que no poderia deixar de centrar-se no
rural.
   "Sabemos, diz Mrio Cabral, que 90% de nossa populao, ou
um pouco mais, so camponeses. O ensino que vamos organizar vai
levar este fato em considerao e ser, portanto, dirigido para o
campo. O aluno, atravs dele, dever poder participar, como
sujeito, enfatiza Cabral, das transformaes necessrias de sua
comunidade".
     Mais adiante, referindo-se, sem dvida,  necessidade de
ampliao das reas de conhecimento no segundo ciclo do Ensino
Bsico, em relao ao primeiro, continua Mrio Cabral: "Desde logo,
podemos dizer que vamos introduzir neste ciclo noes bsicas de
Fsica e de Qumica para a compreenso dos processos da natureza
e a Biologia no lugar das chamadas cincias naturais". Refere-se
ainda ao estudo da Histria, indispensvel  formao militante e
que ser "englobado no que chamamos de cincias sociais", diz ele.
     "Com as cadeiras que vamos introduzir neste nvel, includa a
Geografia  e com a orientao a ser dada no estudo das mesmas,
acrescentaria eu  qualquer aluno que saia do curso poder ter os
conhecimentos que lhe serviro para ser um agricultor, um
mecnico ou um enfermeiro progressista".
     Com o segundo nvel, o do Ensino Geral Polivalente, ao mesmo
tempo em que se busca responder, pela capacitao de quadros, a
diferentes necessidades do pas, se oferece tambm aos jovens a
possibilidade de opes neste ou naquele setor. Sua formao
cientifica se intensifica, lado a lado com sua formao geral,
integral, de que o engajamento militante e a responsabilidade
social, vividos num quefazer permanentemente dando-se  reflexo
critica, so indispensveis. "Mas, sobretudo, declara o Comissrio,
sero desenvolvidas atividades prticas que variaro de acordo com
as caractersticas da regio onde se situe a escola. No poderemos
prescindir de noes de carpintaria, de eletricidade, de agricultura,
incorporadas pelos educandos atravs da prtica".
      O projeto prev, ainda, a criao de escolas profissionais, em
 que a especialidade, porm, jamais se distorce em especialismo.
 "Escolas de formao de professores para o primeiro ciclo do
 Ensino Bsico, de auxiliares de enfermagem, de prticos agrcolas,
 de carpinteiros, de serralheiros, tudo de acordo com as
 necessidades do pas". Escolas que devero estar ligadas tambm
 aos Comissariados diretamente interessados pela formao que
 nelas se realizar e no apenas ao de Educao.
      Com o Ensino Mdio Politcnico, atravs de uma srie de
 Institutos, em consonncia com as necessidades do momento, se
 pretende continuar, aprofundar e diversificar, mais ainda, a
 formao realizada nos anteriores.
      O objetivo principal  o da formao de tcnicos mdios, em
 diferentes campos, indispensveis  transformao do pas.
 Tcnicos em cuja formao, porm, se evite sua desfigurao em
 tecnicista, perdidamente alienados numa viso estreita e focalista
 de sua especialidade.
      Entre os Institutos previstos neste nvel, se encontram o
 Instituto Tcnico de Formao profissional, o de Pedagogia, que
 ser a escola de formao de professores primrios e secundrios,
 o de Enfermagem e o de Cincias Sociais.
      Pensa-se, igualmente, na criao de um Instituto de
 Administrao e Secretariado, bem como num outro de Cincias
 Agrrias, para a capacitao, este ltimo, de tcnicos a nvel de
 regente agrcola.
      Em todos esses Institutos se iro formando jovens tcnicos
 que, de acordo com as necessidades reais do pas, podero seguir
 cursos universitrios no exterior. Muitos, porm, tero de continuar
 engajados diretamente no esforo de reconstruo nacional.

     De qualquer maneira, a passagem de um desses Institutos
para uma universidade estrangeira demanda o cumprimento de
certas exigncias. "Apenas os que se revelarem mais competentes
no trabalho, os mais comprometidos, os mais capazes, os mais
devotados sero os indicados para tais cursos no exterior", afirma
o Comissrio Mrio Cabral.
     Por outro lado, h critrios tambm, como no poderia deixar
de haver, que regulam a passagem de um nvel de ensino a outro.
Do Ensino Bsico ao Geral Polivalente, como deste ao Mdio
Politcnico. Os candidatos passaro de um a outro, "de acordo com
as qualidades re-veladas no nvel anterior". Impe-se a
comprovao de sua seriedade nos estudos, a sua qualificao
 cientifica e tcnica, em funo do nvel de onde vm, bem como a
 comprovao de "suas qualidades morais e de militantes".
     Um dos aspectos importantes deste projeto, a que j fiz
referncia,  o fato de que as relaes entre os diferentes nveis de
ensino no reduzem o sistema de educao que os contm a um
"funil". No so relaes em que um nvel "forma" ou prepara para
o outro. Assim, o estudante que no ultrapasse o nvel do Ensino
Bsico, mesmo que no tenha a oportunidade de ampliar seus
conhecimentos de forma sistematizada, nem por isso ter deixado
de tomar parte de uma experincia formadora fundamental, que lhe
possibilita participar da reconstruo de seu pas como um militante
consciente.
     A posta em prtica de um tal projeto, que j comeou em
alguns de seus aspectos, exige um esforo indiscutvel na formao
de professores, capazes de multiplicar-se pela capacitao de
outros. Eis o que diz Mrio Cabral a esse respeito: "A formao de
professores  uma das tarefas principais do Comissariado de
Educao. No faremos nada na formao de quadros para os
diversos setores da reconstruo nacional, se no tivermos
professores suficientes, do ponto de vista da quantidade e da
qualidade. J conseguimos fundos para a criao de um Instituto
com este objetivo. Pensamos em situ-lo no centro do pas, talvez
em Mansab".
     A inteno do Comissariado  formar inicialmente 250
monitores que, aps um ano de experincia no campo,
participariam de seminrios de reciclagem, fundados na avaliao
de sua prpria prtica.
     O Instituto se preocupar com a formao de professores para
os diferentes nveis de Ensino, para a admisso de cujos candidatos
h exigncias diferentes em funo do nvel para o qual sero
capacitados.
     Assim, queles e quelas que se formaro para o primeiro ciclo
do Bsico se exige a sexta classe, como condio de ingresso. O
tempo de durao de seu curso ser de trs anos. Aos que atuaro
no segundo ciclo do Bsico se exigir a nona classe e seu curso,
como o anterior, ser igualmente de trs anos.
     Para o Geral Polivalente ser requerida aos candidatos, como
condio de ingresso, a dcima primeira classe e seu curso ser
tambm de trs anos.
     "Podemos dizer, afirma Cabral, que este Instituto ser um dos
embries da primeira universidade do pas. Vamos ter ainda
professores para a escola de formao de professores. Estes tero
onze anos de escolaridade a que se juntaro mais quatro de
formao num Instituto de Pedagogia."
     Creio, direi agora num quase parntese, que no trairei o
esprito do Comissariado de Educao da Guin-Bissau, afirmando
que a importncia, vrias vezes ressaltada nestas pginas, que ele
vem dando e pretende dar  gradual formao cientfica dos
educandos, de que resulte cada vez mais uma compreenso critica
de sua realidade, ao atuar sobre ela, no tem nada que ver com
uma posio cientificista. Posio que implicaria na mitificao da
cincia e na distoro da razo. Da mesma forma, o seu
reconhecimento das relaes necessrias entre educao e
produo, em que fundamenta aquela, no o faz resvalar para a
mitificao da produo e, com a desta, a do consumo.
     Tanto quanto venho aprendendo da experincia guineense, me
parece que um dos aspectos bsicos do sistema de educao
constituindo-se  o chamamento que vem fazendo aos educandos
para, ao lado de sua indispensvel formao cientifica e
concomitantemente       com    ela,   numa     prtica    adequada,
desenvolverem a solidariedade, a responsabilidade social, o gosto
do trabalho livre, como fonte de conhecimento, na produo do
socialmente necessrio, a camaradagem autntica e no a
competio que o individualismo gera. E  entregando-se a esta
tarefa que o Comissariado de Educao vem contribuindo para a
formao do homem novo e da mulher nova.
     "O objetivo real do novo sistema, afirma enfaticamente Mrio
Cabral,  eliminar o que resta do sistema colonial para que
possamos realizar os objetivos traados pelo PAIGC: criar um
homem novo, um trabalhador consciente de suas responsabilidades
histricas e da sua participao efetiva e criadora nas
transformaes sociais. Esperamos concretizar este desejo atravs
do conhecimento cada vez mais real das necessidades concretas do
pas, da definio de nosso projeto de desenvolvimento e do prprio
trabalho realizado a nvel das instituies escolares, atravs de
discusses nos rgos coletivos. Discusses no s quanto a
aspectos tcnicos, mas tambm no que se refere s prprias
necessidades da vida."
     Mais adiante, porm, adverte, "todo o projeto de transformao
do sistema nacional de Ensino no nos conduzir a nada, se
realmente no houver transformaes tambm nos outros setores
de atividade".
     " possvel, disse Mrio Cabral na ultima reunio que tivemos
em Bissau, em setembro deste ano, que, em certos casos, a
educao lance o desafio. E preciso, porm, que as transformaes
estruturais se faam, dando suporte ao desafio, para que a prtica
nele anunciada se concretize."

(B) Seguindo a prtica normal na Guin-Bissau  a das discusses
abertas, estimuladas sempre pelo PAIGC e pelo Governo  o
Comissrio Mrio Cabral, num grande comcio recentemente
realizado em Bissau e que reuniu estudantes e suas famlias,
professores, funcionrios da Educao e interessados em geral, fez
o balano das atividades do ano letivo que findou. Balano no qual
falou das tarefas principais do Comissariado para o prximo ano
letivo, considerado o "Ano II de Organizao".*
     Toda a primeira parte de seu discurso, claro e direto, se centra
na anlise das dificuldades e problemas que tiveram de enfrentar, a
partir de outubro de 1974, quando o PAIGC, entrando em Bissau,
assume o governo de todo o pas. A retirada, em massa, dos
professores secundrios, cuja maioria era composta de "militares
que estavam aqui para oprimir o nosso povo, para obstaculizar o
nosso avano no sentido do progresso". A falta de experincia no
*
    N Pintcha, novembro, 1976.
comando de um Comissariado de Educao, na sua organizao;
nas tarefas de planejamento, de organizao e reorganizao
curricular. O que fazer diante da herana do ensino colonial, que
sabiam porm no poder transformar da noite para o dia. Dai a
recusa, sublinha o Comissrio,  idia de alguns de fechar,
sistematicamente, todas as escolas. "Queriam que fechssemos as
nossas escolas para reorganizar o Comissariado. Para podermos de
fato fazer um ensino como deve ser, com qualidade e meios
necessrios. Isso era um sonho. Ainda hoje no estaramos em
condies de comear as nossas aulas porque no conseguimos ter,
at agora, os meios de que um tal ensino precisa".
     Refere-se aos acertos e aos erros cometidos,  dedicao de
muitos, s falhas de alguns. Salientando o que representou o
perodo de outubro de 1974 a setembro de 1975, como aprendizado
para todos os que se deram s tarefas da educao, chama esse
perodo de "Ano de Experincia" em que se constatou a necessidade
de o que a este se seguiu ter sido o "Ano I de Organizao".
     Ao analisar as realizaes do ano que findava, o "I de
Organizao", criticando, mais uma vez, falhas que mereciam ser
criticadas e no escondidas, mas ressaltando tambm os acertos e
o esprito de militncia da maioria de seus camaradas da Educao,
disse no apenas das dificuldades, mas do esforo desenvolvido na
estruturao do Comissariado. Dos resultados obtidos atravs dessa
estruturao, com a criao, por exemplo, "de rgos coletivos,
como o Conselho Diretivo, o Conselho Tcnico Docente e o Conselho
Administrativo". rgos que funcionaram dinamicamente e que
possibilitaram discusses constantes em torno da realidade
educativa do pas.
     O importante desses Conselhos no est, obviamente, na sua
existncia em si mesma, na estrutura do Comissariado, pois que
tambm existem em outros Ministrios de Educao. O importante
 a prtica neles desenvolvida, em coerncia com os objetivos a que
servem; o clima de busca, de dilogo, que os caracteriza.
     A sua atividade "vem permitindo, de fato, diz Cabral, avanar
com o nosso trabalho".
     Pginas atrs, falando do sistema educacional que se vem
constituindo na Guin-Bissau, a partir da prtica sobre a qual se
vem constantemente pensando, inclusive nos Conselhos acima
referidos, dizia, mais ou menos, que uma de suas preocupaes
centrais era a das relaes entre a escola, qualquer que fosse o seu
nvel, e a realidade local, regional e nacional.
     Creio que ser interessante, mais uma vez, voltar a Mrio
Cabral, no seu discurso-relatrio, que vem sendo citado e
comentado nestas pginas. "Um dos objetivos principais da
transformao de nosso ensino, diz ele,  fazer a ligao da escola 
vida  lig-la  comunidade onde se encontra,  tabanca, ao bairro.
Ligar a escola ao trabalho produtivo, em especial ao trabalho
agrcola; aproxim-la das organizaes de massas  JAAC,
Pioneiros, Sindicatos, Organizao Feminina. Podemos dizer que
esse trabalho foi realizado e, em vrias regies, de maneira
bastante eficiente. Na regio de Bafat, por exemplo, em 106
escolas, 96 produziram nos seus campos agrcolas. Em Bissau,
mesmo que no tenhamos conseguido os mesmos resultados, muito
se fez, tambm."
     "Foi, porm, continua Mrio Cabral, na escola de C, onde se
alcanou o mximo de ligao entre escola e trabalho produtivo,
entre escola e populao local, com a integrao desta a atividades
culturais promovidas por aquela. Podemos considerar a escola de
C, realmente, como a primeira escola do pais, durante este ano
que termina".
     Dedicarei, mais adiante, algumas pginas a esta escola ou,
mais precisamente, ao Centro de Formao de Professores Mximo
Gorki, pela importncia que vem tendo, estou certo, na educao
do pais a que se junta, de modo especial, o suporte que vem dando
ao esforo de alfabetizao de adultos.
     Sentimo-nos, particularmente Elza e eu, fortemente presos a
este Centro, o qual jamais deixamos de visitar em nossas idas 
Guin-Bissau. Visitas em que sempre nos impressionam a dedicao
de seus professores e o otimismo critico de que se acham
infundidos no desempenho de suas tarefas.
     Continuando a anlise do depoimento do Comissrio com
relao ainda s realizaes no ano letivo 75-76, gostaria de fixar
os seguintes pontos por ele referidos: participao dos estudantes
liceais de Bissau nas atividades produtivas; criao, na rea do
ensino primrio, de um comit do Partido, ao qual se vm
associando os professores, conseguindo realizar um interessante
trabalho cultural, ao lado do desenvolvimento de uma necessria e
correta militncia, contribuio excepcional das crianas das
escolas, ajudadas por seus professores, s comemoraes do XX
aniversrio do PAIGC, atravs de nmeros de "ginstica massiva".
Seminrios em que os responsveis das vrias regies educacionais
do pas, de um lado, debateram, em conjunto, suas dificuldades,
trocando experincias em torno de como vm procurando super-
las; de outro, aprofundaram sua capacitao, para, assim, capacitar
e recapacitar seus camaradas. "Devemos dizer, afirma Cabral, que
foi ainda neste ano que conseguimos terminar a formao de 30
professores primrios, que constituem maior nmero de quadros do
que os colonialistas portugueses capacitaram em todos os 500 anos
de dominao".
     Este ltimo dado fala, por si, das excelncias do colonialismo...
     A parte final de seu balano Mrio Cabral dedica s tarefas
principais do Comissariado de Educao para o ano letivo 76-77,
que considera o Ano II de Organizao. Trs so estas tarefas. A
primeira delas, a participao de todas as escolas no Terceiro
Congresso do Partido. "Mas, camaradas, como vamos dar a nossa
contribuio a este Congresso?", pergunta ele.
      interessante meditar sobre a resposta que o Comissrio d 
pergunta que faz. No sugere nem muito menos determina, por
exemplo, que se submetam os educandos do pas a um exerccio
mecnico de memorizao de alguns dos princpios que norteiam o
PAIGC, de que resultassem "composies" mais ou menos
padronizadas, em torno do Partido e de seu Congresso. Com um
bom militante do Partido, que conhece os seus princpios porque na
prtica dos mesmos se vem formando de h muito, o Comissrio
sabe muito bem que no seria este o caminho atravs do qual
poderia o Comissariado de Educao motivar educandos e
educadores a que dessem uma real contribuio ao Congresso do
PAIGC. No faz sugestes manhosas no sentido de uma filiao em
massa ao Partido porque sabe, igualmente, que o PAIGC precisa de
militantes conscientes e dedicados  causa do povo trabalhador e
no de "scios" que a ele cheguem oportunistamente.
      Faz um apelo, ao contrrio, a educadores e educandos para
que, juntos, trabalhem, tanto quanto possam, no sentido de que se
obtenham resultados ainda mais positivos do que os conseguidos no
ano que terminava. A participao consciente em tal esforo seria
uma das formas possveis de, marcando o ano do Terceiro
Congresso, contribuir para ele.
      "A segunda tarefa a que nos daremos  a de organizar a
campanha nacional de alfabetizao", diz o Comissrio, comentando
o que j fora feito e que precisava de ser estendido e aprofundado
no prximo ano letivo. Neste sentido, refere-se aos trabalhos
realizados em vrias regies do pas atravs das "Brigadas"
capacitadas e supervisionadas pela Comisso Coordenadora de
Alfabetizao.
      "Fomos este ano s regies. No prximo, necessitamos de uma
participao ainda maior dos nossos estudantes, no s de Bissau,
mas de outras reas do Pas."
      Na esfera da segunda tarefa apontada se encontra um projeto
do Governo atravs do Comissariado de Educao para o prximo
ano  o de um primeiro seminrio a ser realizado em Bissau, de que
participariam delegaes coordenadas pelos Ministros de Educao
de Cabo Verde, So Tom e Prncipe, Angola e Moambique.
Seminrio em que se avaliaria a prtica realizando-se em todos
esses paises, incluindo, obviamente, a Guin-Bissau, no campo da
educao em geral e no da alfabetizao de adultos, em particular.
      De uma tal reunio poderia resultar no apenas um rico
aprendizado de todos nela envolvidos mas tambm a intensificao
da colaborao entre esses paises que, no obstante as
peculiaridades que tm, se encontram engajados numa mesma luta
 a da reconstruo nacional.
      A terceira tarefa diz respeito  nfase a ser dada nas relaes
entre escola e trabalho produtivo, procurando-se, de um lado,
melhorar essas relaes, de outro, estend-las ao mximo ao nvel
do pas.
      "O camarada Amlcar Cabral costumava dizer: "sou um simples
africano que quis pagar a sua dvida para com seu povo e viver sua
poca". Que paguemos todas as nossas dividas e vivamos a nossa
poca.
      poca de libertao total, de independncia; que requer o
nosso engajamento, tambm total, na superao do analfabetismo,
no combate ao subdesenvolvimento  na reconstruo nacional",
conclui o Comissrio.
      No sei se estarei sendo capaz, na redao desta introduo,
com a qual espero no estar molestando demasiado os leitores e
leitoras, realizar o que me propuz com ela, desde o seu inicio 
oferecer-lhe um quadro, que sempre soube jamais seria completo,
do que vem se fazendo na Guin-Bissau. Realizaes, em sua
totalidade, que nos interessam de perto, e de que muitos temos
aprendido, e para o desenvolvimento de algumas das quais temos
dado um mnimo de nossa contribuio de maneira militante e no
estritamente profissional.
     A riqueza da experincia guineense, em seu conjunto,  tal
que, falar dela, numas poucas palavras,  tarefa quase invivel. Da
que me venha prolongando, apesar das omisses que me tenho
imposto a certos aspectos ou pormenores que sei, porm,
importantes.

      (C)  tentando continuar a cumprir aquele objetivo que me
dedicarei, agora, a comentar o Centro de Capacitao Mximo
Gorki.
      Visitamo-la, Elza e eu, juntamente com a equipe do IDAC, em
fevereiro deste ano, pela primeira vez.
      Enquanto nos dirigamos, manh cedo, para C, a pequena
aldeia rural; na zona de Cacheu, a 50 quilmetros ao norte de
Bissau, onde fica o Centro, Mrio Cabral dele nos falava,
entusiasmado, e nos contava sua histria recente.
      Em novembro do ano passado, um grupo de educadores o
havia procurado para expor, sem rodeios, o seu projeto. Criar um
Centro de Capacitao e superao de professores num velho
quartel do exrcito colonial, que se esvaziara depois da
independncia do pais. Um desses muitos quartis que os
colonialistas portugueses foram prdigos em espalhar pelo pais,
geralmente cercados de arame farpado, com minas em torno, e
dentro dos quais se foram tornando, cada vez mais, prisioneiros de
si mesmos.
      Havia muito o que fazer para higienizar e melhorar, em todos
os sentidos, as instalaes do que antes tinham sido um ponto
fortificado do invasor e um centro tambm, mas em que os
colonialistas torturavam, at a morte, os nacionais, diante de cuja
determinao terminavam, no raro, por se assustar.
      Neste sentido, em certa medida, o quartel gerava, sem o
querer, o futuro Centro de Formao poltico-pedaggica, de que os
primeiros educadores, atravs de seu exemplo, foram os heris do
povo, nele torturados e mortos, pela violncia colonialista. De um
deles, visitei a sepultura, em setembro deste ano, identificada,
recentemente, por pessoas da populao local, que sabiam o preo
que muitos dos seus tiveram de pagar pela rebeldia e pela coragem
de querer ser, com seu povo.
      No momento de nossa visita, havia, ento, quatro meses,
desde quando aquele grupo de educadores, todos eles da fase da
luta, experimentados no que significara a educao nas zonas
libertadas, comeara a dar-se, totalmente, aos primeiros trabalhos
para a instalao do Centro.
     Refletindo as experincias vividas por aqueles educadores nas
zonas libertadas, o Centro nascia na unidade entre o trabalho
manual e o trabalho intelectual. Entregavam-se tanto s tarefas de
limpeza do imundo quartel, de caiao de suas dependncias, de
melhoria de suas condies sanitrias, de capinagem do campo em
volta, de plantio de rvores, de higienizao do poo que fornece
excelente gua, quanto, em certas horas do dia, pensavam na
organizao administrativa do Centro, nos meios de eficientemente
integr-lo  vida da comunidade e nas suas atividades poltico-
pedaggicas, preparando-se, assim, para receber o primeiro grupo
de estagirios.
     A impresso que este Centro me vem dando, atravs da prtica
nele realizando-se, que implica no numa capacitao e
recapacitao de professores em termos verbalistas, na intimidade
de suas salas, mas, pelo contrrio, na unidade da prtica e da teoria
e na comunho sempre maior com a populao em torno,  a de
que se vem constituindo, cada dia que passa, num centro
universitrio do povo. Daquele tipo de universidade a que me
referia num certo momento da primeira parte desta introduo  a
que nasce no seio do povo trabalhador e que, fundando-se no
trabalho produtivo, se d ao esforo sistematizador do
conhecimento que resulta da prpria prtica. Dai que o Centro de
C, fiel ao esprito que marcou a educao nas zonas libertadas,
venha procurando superar certas dicotomias, sem o que no lhe
seria possvel marchar naquela direo. A dicotomia j anotada
entre trabalho manual e trabalho intelectual e a dicotomia entre
ensinar e aprender.
     A superao da primeira dicotomia, ligada necessariamente 
superao tambm da separao entre prtica e teoria, vem sendo
intensamente vivida. No ser demasiado repetir que o Centro
nasceu no exerccio desta superao. Por outro lado, toda a sua
atividade formadora, desde quando recebeu a primeira turma de
estagirios, vem fazendo-se de acordo com este princpio. Todos os
que nele participam se do ao trabalho produtivo, associado ao
intelectual.
     Em setembro passado, vi suas reas cultivadas. Milho,
mandioca, batata, frutas, hortalias, a que se junta hoje, com a
colaborao do Comissariado de Agricultura, a criao de galinhas,
patos, porcos e carneiros, com que o Centro vai se tornando auto-
suficiente.
     Mesmo que j fosse em si altamente positiva a participao de
todos no trabalho produtivo, seria de lamentar, porm, que, de um
lado, no se tivesse no prprio trabalho produtivo uma fonte de
conhecimento diversificado e no apenas agrcola, que ele propicia;
de outro, que a capacitao e a recapacitao dos professores
estagirios, no campo, por exemplo, do ensino bsico, no se
encontrasse fundada na prtica deste. Em outras palavras, se os
estagirios, aps o tempo dedicado ao cultivo e  colheita, s
atividades de limpeza das dependncias do Centro, fossem para
suas salas envolver-se num que fazer tradicional, ouvindo discursos
sobre como ensinar. Dai que, enquanto no tenha sua escola
primria experimental, quando aumentar indiscutivelmente a
rentabilidade de sua tarefa formadora, o Centro venha, para tal, se
servindo da colaborao de uma escola primria da mesma
comunidade, no muito longe dele, para a observao dos
estagirios.
      Tendo embora de confrontar ainda enormes obstculos
materiais,
que no precisam sequer ser enumerados, a formao que vem
tentando fazer se baseia na anlise da prtica. Por outro lado, na
prtica de se analisar a prtica, se vem experimentando, tambm, a
unidade entre o ato de ensinar e o ato de aprender. Unidade que se
vem vivendo no s nas atividades docentes do Centro, entre sua
equipe de professores e os estagirios, mas entre aquela e estes,
como uma equipe maior, em suas relaes crescentes com as
populaes das tabancas em torno do Centro.
      Na verdade, s na unidade dialtica entre ensinar e aprender 
que a afirmao "quem sabe ensina a quem no sabe" ganha
sentido revolucionrio. Quer dizer, quando quem sabe, sabe,
primeiro, que o processo em que algo aprendeu  social; segundo,
quando sabe que, ao ensinar o que sabe a quem no sabe, sabe
tambm que dele ou dela pode aprender algo que no sabia. Este 
o esprito que se percebe em C. Esprito que move o PAIGC e que
caracterizou sua atividade politico-pedaggica desde os comeos de
sua constituio em Bissau e o acompanhou no Instituto de
formao de quadros em Conakry, atravs, sobretudo, do exemplo
vivo de Amlcar Cabral. Esprito que prossegue na luta e que anima
a educao nas zonas libertadas de que a Escola de C  uma
continuidade.
      No momento, com o apoio do Comissrio Mrio Cabral, os
professores efetivos do Centro pensam na realizao de alguns
seminrios em que se aprofundem diferentes aspectos no campo
geral da educao e das cincias sociais, de que resulte o aumento
de sua eficincia no desenvolvimento de sua tarefa formadora.
      Apesar de se poder facilmente depreender das consideraes
at
agora feitas em torno da Escola de C a nfase no poltico, sempre
presente em todas as atividades, creio interessante salientar este
aspecto. O nascimento do Centro, por isso mesmo, no resultou
apenas do sonho possvel daquela equipe e do apoio do
Comissariado de Educao. No sonho da equipe estava a convico
de que o Centro no poderia aparecer, da noite para o dia, como
um presente que se fazia  comunidade. Desta forma, o sonho da
equipe devia ser assumido tambm pela comunidade como algo
seu, sem o que no teria sentido, da mesma forma como o sonho
de libertao daqueles e daquelas que, ao lado de Amlcar Cabral,
criaram o PAIGC, precisou de ser encarnado pelo povo da Guin e
Cabo Verde e fazer-se, assim, uma realidade. Dai o trabalho poltico
inicial da equipe, a nvel de
D.   Perodo de luta de libertao. Defesa contra os ataques
areos. (Publicao autorizada pelo Comissariado de Informao e
Turismo da Guin-Bissau)
comits de tabancas, atravs do qual, ao interpretar-se o projeto
para a concretizao do Centro, j se mobilizava a populao para
ativamente participar do esforo primeiro de sua criao. Assim,
com o empenho comum da populao e da equipe  que se fez a
limpeza do velho quartel, a capinagem do terreno, para o que a
populao entrou tambm com seus instrumentos de trabalho.
     Selou-se, deste modo, na atividade baseada na ajuda mutua, o
dilogo em constante crescimento entre o Centro e as populaes
das tabancas.
     Foi esta comunho slida entre as populaes e o Centro, que
elas sabem seu, que possibilitou, a partir de junho deste ano, uma
das melhores experincias, no campo da alfabetizao de adultos,
hoje, na Guin-Bissau e que tivemos a oportunidade de observar
em setembro
ltimo.
     Foi nesta experincia, levada a efeito por professores
estagirios, formados por membros da Comisso Coordenadora dos
Trabalhos de Alfabetizao de Adultos, que se fez o melhor
levantamento scio-econmico e cultural de uma rea, na Guin-
Bissau, e de que resultou a escolha de adequadas palavras
geradoras com que se iniciou o esforo de alfabetizao no sentido
dinmico tantas vezes referido neste texto.
     A pouco e pouco, sempre em comunho com as populaes das
tabancas, o Centro estende e intensifica sua ao. "Temos feito o
possvel, diz seu Diretor, Jorge Ampa, para de fato cumprir o
objetivo de nossa Escola, que  lig-la  vida da populao. Temos
um posto sanitrio, com uma equipe de trs estagirios, com
preparao de socorristas. As consultas so dirias, somando, s
vezes, mais de cem por ms. No perodo de abril a julho, continua
Ampa, foram assistidos 294 doentes".
     De acordo com a poltica do Comissariado de Sade, que
privilegia a medicina preventiva, o Centro se preocupa ao mximo
com a educao sanitria, das populaes, realizando, sempre em
colaborao com os comits de tabancas, reunies de estudo em
que se discutem certos aspectos "mgicos" ligados  sade. As
"debilidades da cultura" a que Amlcar Cabral se referia.
     Estas reunies, poderia dizer, estes seminrios em que se
discutem problemas sanitrios com o povo, s vezes no terreiro
limpo, uma espcie de pequena praa no centro de uma tabanca,
ou  sombra de uma rvore ou ainda em "palotas", palhoas,
construdas pela populao, como as em que vi funcionando os
Crculos de Cultura, se centram constantemente na anlise da
prtica social da comunidade.  com respeito  compreenso do
mundo que se vem desenvolvendo nesta prtica  o que sempre
caracterizou o comportamento do PAIGC  que o Centro trabalha
com as populaes. Em ltima anlise, a superao das "debilidades
da cultura", que se constituem na prtica social, requer a
transformao desta, atravs das alteraes que se vo dando nas
relaes sociais de produo. Mas, como esta superao no 
mecnica e sim dialtica, a ao poltico-pedaggica a ela
endereada e importante e mesmo fundamental. Por outro lado e
por isso mesmo os seminrios em torno da educao sanitria
vinculam, usualmente,  anlise da sade, a compreenso critica do
esforo de reconstruo nacional, o que significa tambm discutir a
sade em suas relaes com a produo, sobretudo com o modo
como se d a produo e as relaes sociais que neste ou naquele
modo de produo se processam. Discusses que necessariamente
se prolongam em debates de ordem poltica.
     Este esforo srio de politizao, girando em torno no importa
de que atividades, se das que se prendem  educao sanitria, se
daquelas ligadas  produo ou s de alfabetizao de adultos, no
fundo sempre unidas, vem alcanando tambm professores
primrios de escolinhas localizadas na rea maior em que se situa o
Centro. Em todas estas aes, porm, jamais prescinde, como
venho insistindo, da estreita intimidade com o comit poltico das
tabancas.
     "Colaboramos sempre com o comit de tabanca, diz Ampa, e
participamos de suas reunies com a populao. Reunies
presididas pelo comit".
     Creio, porm, que problemas como o das relaes entre sade,
educao e o "modo de produo que representa em cada fase da
histria o resultado da busca incessante de um equilbrio dinmico
entre o nvel das foras produtivas e o regime de utilizao social
destas foras"*, ao lado da formao em torno de conhecimentos
especficos nos campos da sade, da agricultura, deveriam
constituir objetos de seminrios a serem realizados com a equipe de
professores efetivos do Centro, com vistas a seu trabalho formador
junto aos professores estagirios. Seminrios tambm sobre a
questo     da   alienao   cultural,    por   exemplo,   provocada
necessariamente, sobretudo em certas faixas da populao, pela
presena colonialista, e que Amlcar Cabral, como sempre, discutiu
de maneira to lcida.
     Na verdade, na medida em que a Escola de C amplia suas
atividades como Centro de capacitao de professores (a primeira
turma de estagirios foi de 30; a segunda, de 60; no ano letivo de
77-78 poder receber 100) e suas equipes intensificam sua ao
poltico-pedaggica junto s populaes das tabancas, vai-se
impondo a elas um maior rigor no conhecimento da realidade sobre
que atuam.
     Envolvidas mais e mais neste mtuo processo de
aprendizagem, se encontram, pois, inseridas num ato de
conhecimento de que os sujeitos so, de um lado, elas; de outro, os
grupos populares com os quais entram em dilogo. Aprendendo,
indiscutivelmente, destes e com estes grupos, as equipes do Centro
tm, porm, uma tarefa a que no podem escapar e para a qual
precisam de se preparar: a de ajudar, no sentido autntico desta
palavra, aqueles grupos, atravs da anlise de sua prtica, a ir
sistematizando o conhecimento que dela deriva, ultrapassando,
assim, a mera opinio sobre os fatos por uma critica compreenso
dos mesmos.
     Uma tal tarefa, com o desenvolvimento aprofundado da qual o
Centro se vai tornando aquela unidade universitria do povo, antes
mencionada, implica em que as equipes e os grupos populares
*
    Amlcar Cabral  Obra citada, pg. 320.
tomem a quotidianeidade como objeto de sua reflexo. "Tomar
distncia" da quotidianeidade em que geralmente se acham
"imersos", atribuindo, no raro, aos fatos que nela se do uma
"legalidade" intocvel,  um passo indispensvel para a "emerso"
dela e seu desvelamento.
     A condio necessria, porm, para este passo, repita-se,  que
a "tomada de distncia" da quotidianeidade se d na anlise da
prtica realizada ou realizando-se e se alongue na prtica
subseqente, qualquer que seja ela, sempre social.
     A anlise critica por parte dos grupos populares de sua forma
de estar sendo no mundo da quotidianeidade mais imediata, a de
sua tabanca, e a percepo da razo de ser dos fatos que se do
nela os levam a sobrepassar os horizontes estreitos da tabanca, ou
mesmo da zona, para ganhar a viso global da realidade,
indispensvel  compreenso da prpria tarefa de reconstruo
nacional.
     Neste sentido  que uma atividade poltico-pedaggica como
esta e que pe em prtica uma teoria do conhecimento dialtica ,
em si, uma dimenso fundamental do esforo de reconstruo
nacional. Re-construo nacional que se alonga, obviamente, na
criao de uma nova sociedade, sociedade de trabalhadores, em
que um novo tipo de intelectual deve emergir  o que se forja na
unidade entre o trabalho manual e o trabalho intelectual; entre
prtica e teoria.
     A Escola de C vem sendo e pode vir a ser, cada vez melhor,
um Centro que contribui para a formao deste novo intelectual.
     Estou convencido de que, em alguns anos mais, na
continuidade de um exerccio em que no h lugar para uma
concepo esttica nem elitista do conhecimento, a Escola de C,
sem jamais despreocupar-se do trabalho sistematizador do
conhecimento do povo, a ser feito com ele, conhecimento que vem
derivando de sua prpria prtica, se ir convertendo naquele centro
universitrio de que falei.
     No h por que no prever, no decorrer de sua ao e de
acordo com o crescente nvel de curiosidade dos grupos populares
com os quais comeou a trabalhar, bem como em funo das
necessidades locais, regionais e nacionais, percebidas e assumidas
pela populao, que, em certo momento, no seja possvel a esta
Escola formar, entre os membros da comunidade, enfermeiros,
tcnicos agrcolas, avicultores, mecnicos, eletricistas. Diferentes
especialistas cujo processo de formao no terminaria ai, mas
prosseguiria e se aprofundaria na avaliao constante de sua
prtica.
     O importante  que a formao desses futuros especialistas,
vindos de uma escola ampla que  a vida mesma, se faa na
compreenso critica e no estreita ou ingnua de cada prtica
especfica, no quadro geral da prtica social de que participam. E a
compreenso critica, seja da prtica especifica, seja da prtica
social, demanda a formao poltica concomitante com a tcnico-
profissional.
     Em face de tudo o que se vem fazendo nesta Escola e a partir
dela, assim como de tudo o que vir a ser feito  raiz do que j se
faz, seria uma contradio se sua administrao se achasse
enfeixada nas mos apenas de seu diretor. Pelo contrrio, o
governo da escola se faz atravs do diretor, de professores efetivos
e    de     professores   estagirios,   com    igual    participao.
Semanalmente, se rene o rgo dirigente, fazendo sempre o
balano ou a avaliao do que ocorreu na semana que passou. Sem
limite de tempo, se discutem idias e problemas, pois se evita,
tanto quanto possvel, a necessidade de deciso por voto. "Quando
votamos, diz Jorge Ampa,  porque h desacordo".
     Nestas reunies de direo so esboadas linhas gerais, mas
detidamente estudadas, com relao  vida do Centro, incluindo
seus projetos de ao na comunidade, linhas que so propostas ao
debate da assemblia-geral, de que participam todos os estagirios.
Nas reunies de assemblia, no raro, novas propostas surgem,
com as quais se enriquecem os planos do Comit Diretivo, em
beneficio do interesse comum.
     Contraditrio seria, por outro lado, se esta Escola, que est
ligada ao Comissariado de Educao, mas a 50 quilmetros dele e
com precrias condies de comunicao, estivesse na dependncia
do rgo Central para a soluo de seus problemas imediatos e
para a organizao de seus planos de trabalho. O essencial  a
harmonia entre estes planos e os objetivos da educao nacional,
que cabe ao Comissariado de Educao traar, em coerncia com a
poltica do PAIGC, realizada pelo Governo. Em ltima anlise, o
Comissariado de Educao opera, a nvel nacional  como a Escola
de C, a seu nvel  aberta e democraticamente. Em lugar de
asfixiar   iniciativas,  com   um      sem-nmero     de   exigncias
burocratizantes, o Comissariado estimula e at exige a iniciativa, a
criatividade, sem permitir que sua ao se perca nesse mundo de
papis que vo e que vm e cuja funo principal parece ser a de
que um "tome conta" do outro, enchendo o vazio da inoperncia
"burocratista".
     No h vazios inoperantes, "cheios" de gente, nem no
Comissariado de Educao nem na Escola de C. Esta, marcada
pela excelente experincia levada a efeito nas zonas libertadas pelo
PAIGC e de que , como disse antes, indiscutivelmente, um
prolongamento, vem sendo um exemplo de criatividade e de
militncia.
     "Dentro do Ano II de Organizao, afirma seu diretor, vamos
trabalhar mais e melhor, concentrando nossa ao no Terceiro
Congresso do Partido, que em breve se realizar." Procurando
intensificar as atividades prtico-tericas no Centro, "se pretende
saudar o acontecimento". Neste sentido, "se obtivemos uma
aprovao de 100 por cento no ano que terminou, vamos tudo fazer
para conseguir o mesmo resultado no ano que vem".
     No foi gratuitamente que o Centro de Formao de Professores
Mximo Gorki, da vila de C, foi considerado, no ano letivo que
findou, como a Escola-Modelo do pas.

(D) Prosseguindo nesta conversa, talvez um tanto prolongada, mas
necessria, pois que, sem ela, as cartas que se seguem perderiam,
creio, muito de sua significao, gostaria de fazer alguns
comentrios, que no sero os ltimos, em torno de uma reunio a
que assistimos em fevereiro deste ano. Reunio a alguns
quilmetros mais ao norte da Escola de C, entre um grupo
significativo de uma comunidade camponesa e o Comissrio de
Educao, com a presena tambm do responsvel poltico da zona.
     Era a primeira vez que, no processo de nossa aprendizagem da
realidade da Guin-Bissau, entrvamos em contato com um grupo
de camponeses. Interessava-nos, obviamente, captar, tanto quanto
possvel, sobretudo, como se viam a si mesmos em suas relaes
com o Partido e com o Governo, no quadro geral da luta pela
reconstruo nacional. O que significava para eles esta luta,
enquanto continuidade da outra, a de libertao nacional,  qual
haviam dado seu apoio, na medida do possvel, em face da
represso colonialista a que se achavam submetidos.
     A reunio se realizou, no numa sala arrumada e para ela
preparada, mas  sombra de uma enorme rvore centenria. A
melhor maneira que tinha a populao de demonstrar sua
hospitalidade, era a de receber a delegao naquela sombra
acolhedora e, em intima relao com seu mundo natural, conversar
sobre os seus problemas.
     A impresso que tive  a de que a rea sombreada daquela
rvore  uma espcie de centro politico-cultural da populao. Um
lugar de encontro, em que se conversa informalmente, mas
tambm em que se discutem os planos de trabalho comum. Pensei,
ento, como se poderia aproveitar aquela sombra em programas de
educao informal.
     Quando me dirigia  rvore, olhando sua fronde, me lembrava
de que,  sombra tambm de rvores como aquela, na mata,
Amlcar Cabral costumava realizar, durante a luta, muitos dos
seminrios em que avaliava, com os "militantes armados", sua ao
contra o exrcito colonialista. Seminrios nos quais a anlise de
carter ttico-militar jamais deixou de ser acrescida de discusses
de ordem poltica, de debates sobre a cultura com que a formao
permanente dos quadros ia se fazendo.
        Lembrava-me tambm do que me dissera um militante, no
propriamente a propsito daqueles seminrios, mas sobre um dos
muitos encontros que Amlcar Cabral tivera com camponeses
quando, dirigindo uma pesquisa em torno da realidade agrria da
Guin, percorreu todo o pas.
        Cabral aproveitava a oportunidade que a pesquisa 1he
oferecia para, falando discretamente da realidade opressiva em que
se achava o povo, ir detectando futuros quadros para o PAIGC, que,
trs anos depois de iniciado o recenseamento*, a 19 de setembro de
1956, era fundado.



     *
       Este recenseamento foi determinado pelo ento Ministrio de Ultramar
 portugus, em 1953, em decorrncia de um compromisso assumido por uma
 delegao portuguesa que participara de uma Conferncia promovida pela FAO
  Organizao para a Alimentao e a Agricultura  em Londres, no ano de
 1947, segundo o qual Portugal faria um recenseamento agrcola nas suas
 possesses ultramarinas.
        Em certo momento de sua conversa com os camponeses, no
encontro a que se referia o militante,  sombra tambm de uma
rvore, Cabral se levanta, com uma semente de dend na mo e,
escolhendo um sitio adequado, cava o cho e a planta. Depois,
olhando os camponeses em volta, lhes diz: "Muita coisa vai
acontecer em nosso pais, feita por ns, pelo povo da Guin, antes
que a palmeira que nascer desta semente d os primeiros frutos".
        "Anos depois, disse-me o militante, se fez uma reunio do
comit do PAIGC daquela regio, ao lado da palmeira que dava o
seu primeiro cacho."
        Ao fazer aquele discurso, que no se reduziu apenas  sua
dimenso oral, quando disse que muita coisa ocorreria no pais, feita
pelo povo, antes que a palmeira frutificasse pela primeira vez, mas
tambm incluiu o ato de plantar a palmeira, Cabral falou uma
linguagem de esperana. No de uma falsa esperana, que  a de
quem espera na pura espera, por isso que vive um tempo de espera
v. A espera s  esperanosa quando se d na unidade entre a
ao transformadora do mundo e a reflexo crtica sobre ela
exercida.
        Ao falar aquela linguagem, em uma relao horizontal com os
camponeses, Cabral comeava o enraizamento, no meio do povo,
do PAIGC em formao, ao mesmo tempo em que se intensificava o
aprendizado de sua "re-africanizao", associada ao "suicdio de
classe" que se impunha aos intelectuais revolucionrios africanos
para "no trair os ideais da revoluo" e sobre que falou to
claramente em seus textos.
        Aberta a reunio, aquela que assistamos, o Comissrio Mrio
Cabral, em poucas palavras, disse de nossa presena na Guin-
Bissau,
do trabalho que fazamos juntos com os nacionais no campo da
educao, terminando por afirmar que estava ali como responsvel
pela educao do pas, para ouvi-los e debater com eles,
livremente, as suas necessidades mais prementes.
     Imediatamente, ento, os cinco mais velhos do grupo se
reuniram, num circulo dentro do circulo maior, discutindo entre si,
em voz baixa, enquanto os demais permaneciam silenciosos.
     Um jovem a meu lado me disse: "Conversam entre eles para
estabelecer a ordem em que devem falar bem como para definir
alguns dos pontos sobre que falaro. Fazem sempre assim",
concluiu.
     Um educador do lado de c do mundo, insensvel 
compreenso de outras culturas, sobretudo convencido de que a
nica vlida  a sua, j comearia a descobrir sinais de ineficincias,
pois que no se haviam "preparado seriamente para a reunio",
diria ele.
     Em dado instante, um a um, comearam os cinco a falar. De
modo geral, ricos no uso de metforas, de gestos, com os quais
sublinhavam suas afirmaes.
Referindo-se s violncias dos colonialistas, um deles curvava-se e
recurvava-se para encarnar a palavra com que descrevia os maus
tratos recebidos. Andava de um canto a outro, dentro do crculo de
sombra em que estvamos, com diferentes movimentos corporais,
para expressar melhor um ou outro aspecto da histria que
contava. Nenhum falou estatisticamente, dissociando a palavra de
seu corpo. Nenhum disse sua palavra para que fosse apenas
escutada.Na frica a palavra  tambm para ser "vista", envolvida
no gesto necessrio. Nenhum, como de modo geral ocorre na
frica, com exceo dos intelectuais que, "desafricanizados", negam
suas razes, revelou medo ou vergonha de usar seu corpo, no
processo de sua expressividade.
     E enquanto os via e os ouvia falando com a fora de suas
metforas e a ligeireza de movimentos de seus corpos, pensava nas
possibilidades inmeras que se abrem, com essas fontes culturais
africanas, a uma educao libertadora.
     Falaram tambm do momento atual, de seu nimo de participar
do esforo de reconstruo nacional, apontando, ao mesmo tempo,
as dificuldades com que se defrontavam.
     O mais velho entre os "homens grandes", o que falou por
ltimo,  sombra acolhedora da enorme rvore, falou a todos ns
numa linguagem igualmente de esperana.
     "O PAIGC, disse ele mais ou menos, nos seus vinte anos, 
ainda uma criana. Vinte anos so muita coisa na vida de uma
pessoa, mas no na vida de um povo e de seu partido. O bom do
PAIGC  que aprendeu a andar com o povo. Eu no verei as coisas
grandes que o povo da Guin-Bissau, o PAIGC e o Governo vo
fazer. Mas os filhos de nossos filhos vero. Eles vivero um tempo
diferente. Mas, para isso,  preciso que eu, que no vou ver esse
tempo, e todos ns faamos agora o que agora precisa de ser feito."
     Era fevereiro deste ano e recm visitramos a Escola de C, em
seus comeos. Na volta a Bissau, impregnado do que presenciara,
previa o que viria a ser aquela Escola na medida em que se fosse
"molhando" da realidade em torno e estreitando sua comunho com
camponeses como aqueles, cujas palavras acabara de "ver" e de
ouvir.
      Sempre que vamos  Guin-Bissau, h um tempo reservado
para novos encontros ou novas visitas (ao lado dos re-encontros e
das re-visitas) com os quais vamos mais e mais nos tornando
"ntimos" da realidade. No vou falar aqui de todos esses encontros,
de todas essas visitas, por mais que em cada um deles ou em cada
uma delas tenhamos sempre algo de interessante a registrar. Me
parece importante, contudo, dizer que os novos encontros como as
novas visitas so fundamentais  nossa prtica com as equipes
nacionais. Fazem parte do mtodo de trabalho que adotamos em
que constantemente tratamos de ver, ouvir e indagar, submetendo
aos nacionais os resultados de nossa curiosidade.
      Estamos sempre atentos ao mais simples pormenor que nos
chame a ateno numa dessas visitas ou num desses encontros e
que nos desafie a uma reflexo com os nacionais.
      Seria, em verdade, impossvel que, em nossas idas ao pas,
participssemos de maneira eficiente dos seminrios de avaliao
com a Comisso Coordenadora de Alfabetizao se, I)
permanecendo somente em Bissau, no observssemos a prtica
realizando-se noutras reas do pas e II) no procurssemos
conhecer, de perto, o que se vem fazendo noutros setores de
atividades que no as da alfabetizao de adultos.

(E) Nas consideraes que se seguem e com as quais encerrarei
esta introduo que, em muitos aspectos, se prolonga nas cartas,
tentarei uma sntese das atividades desenvolvidas, no campo da
alfabetizao de adultos, na Guin-Bissau, durante este ano.
     H um ponto que me parece necessrio sublinhar, antes de
mais nada. E o que diz respeito  "linha de massas" que caracteriza
a prtica e a viso da alfabetizao no pais. Com isto o que se
pretende, fundamentalmente,  que a alfabetizao de adultos,
como ato poltico, em coerncia com os princpios do PAIGC, que
informam a ao do Governo, se faa com um real envolvimento do
povo. Em outras palavras, que os programas de alfabetizao de
adultos, onde quer que sejam iniciados, de acordo com as
prioridades estabelecidas pelo Partido e pelo Governo, sejam
assumidos, tanto quanto possvel, pelas populaes locais. Dai, a
relao indispensvel entre os programas de alfabetizao de
adultos e os comits polticos de tabancas e de bairros, de tal
maneira que seja, atravs destes comits, que os educadores ou
animadores, enquanto militantes tambm, se aproximem das
populaes. Na verdade, o que marca a "linha de massas", o que a
define como tal, e o seu antielitismo revolucionrio, o seu
antipaternalismo,  o papel de sujeitos que devem as massas
populares nela assumir, atravs de sua ingerncia na prpria
programao da campanha. E o dinamismo dialtico entre ttica e
estratgia em que ela sempre se encontra. Estrategicamente,
constantemente voltada para a generalizao  globalidade da
sociedade em que se processa; taticamente, porm, podendo partir,
no da totalidade, se as condies objetivas e subjetivas no o
permitem, mas daquelas reas em que estas condies j se esto
dando ou se acham prestes a dar-se. Se as condies j esto
dadas ou em parte dadas, o esforo de alfabetizao corre
rapidamente; se as condies esto prestes a dar-se, aquele
esforo ajuda a sua concretizao. Se as condies no existem e
esto muito longe de existir, a alfabetizao carece de sentido. Por
isso  que no h como confundir a "linha de massas" com a
generalizao voluntarista da alfabetizao.
     Se toda campanha de alfabetizao, numa "linha de massas",
implica, cedo ou tarde, na sua generalizao  globalidade da
sociedade em que se d, nem toda generalizao de uma campanha
significa sua insero numa "linha de massas".
     O estabelecimento de zonas e de setores prioritrios, na Guin-
Bissau, para o lanamento da campanha nacional de alfabetizao,
de acordo com a realidade do pas, coincide com a "linha de
massas", em lugar de neg-la.
     Em oposio ainda com a generalizao voluntarista da
alfabetizao, a "linha de massas". demanda daquelas e daqueles
nela envolvidos que se experimentem, permanentemente, na
tenso entre a impacincia e a pacincia. A generalizao
voluntarista, pelo contrrio, revela naqueles e naquelas que a ela se
do a negao da tenso de que resulta a sua entrega  pura
impacincia. Sua tendncia, ao romper a tenso necessria, 
inclinar-se a acelerar o progresso independentemente de se h ou
no condies para tal,  ensinar sem aprender,  transferir o
conhecimento pois que "no h tempo a perder".
     A ruptura da tenso, em tais circunstncias, entre a impacincia
e a pacincia, os remete aos esquemas de uma pedagogia
antidialgica em cuja prtica, no importam suas intenes, o
conhecimento aparece como algo terminado, concludo. E no se
percebe a contradio entre a prtica na qual o conhecimento 
transferido como um "pacote" e o discurso em que dele se fala em
termos dinmicos.
     O contrrio, por outro lado, seria a ruptura de que resultasse o
quase desaparecimento da impacincia que, em tenso com a
pacincia, move e empurra. Neste caso, facilmente se resvala para
a passividade que, "deixando as coisas como esto para ver como
ficam", no tem nada com o sentido militantemente revolucionrio
da "linha de massas". Nesta, a pacincia, pois, no  conformismo.
Significa apenas que a melhor maneira de fazer amanh o
impossvel de hoje  realizar hoje o possvel de hoje.
     Em Amlcar Cabral, essa tenso jamais se rompe. Em sua
prtica revolucionria e em suas reflexes sobre ela, que deixou em
seus textos, a tenso est sempre presente. "Devemos andar
depressa, diz ele, mas no correr; sem oportunismos, sem
entusiasmos que nos faam perder de vista a realidade concreta.
Mais vale comear a luta armada com um atraso aparente, mas
com garantias de continuidade, do que come-la cedo ou em
qualquer momento, sem ter realizadas todas as condies que
garantam a sua continuidade e a vitria para o nosso povo". E mais
adiante: "Conhecer bem as nossas foras, ter em cada momento
uma conscincia perfeita das coisas que podemos fazer. Avaliar
bem as nossas possibilidades em cada rea, em cada unidade das
foras armadas, agir sempre de acordo com essas possibilidades e
fazer tudo para melhorar as nossas foras e a nossa capacidade,
tanto no plano dos homens como no material. Nunca fazer menos
do que podemos e devemos fazer, mas no pretender, em nenhum
caso, fazer coisas que realmente no estamos ainda em condies
de fazer".*
      seguindo esses princpios, vlidos no s para a luta de
libertao, ontem, mas para a da reconstruo nacional, hoje, que o
Governo da Guin-Bissau, atravs do seu Comissariado de
Educao, vem trabalhando no campo da alfabetizao de adultos.
Por isso  que, sendo nacional a sua campanha, parte, como antes
salientei, daquelas zonas e daqueles setores que, propiciando uma
prtica vlida, oferecem aos quadros que dela participam um rico e
indispensvel aprendizado com que se preparam para estender e
aprofundar a ao.
     Este aspecto da capacitao de quadros para a posta em prtica
de uma pedagogia como a de que falei to insistentemente neste
texto e tenho falado em trabalhos anteriores, pedagogia que

*
   Amlcar Cabral  PAIGC  Unidade e Luta, Publicaes Nova Aurora,
Lisboa,1974, pgs. 12-31.
coincide com os princpios bsicos do PAIGC, no pode deixar de ser
um dado fundamental no quadro geral de uma campanha de
alfabetizao como a em que se engaja o Governo da Guin-Bissau.
Capacitao a ser sempre feita na unidade da prtica e da teoria e
que no se pode reduzir ao "treinamento" dos militantes num certo
nmero de destrezas tcnicas, como cada vez mais em menos
tempo se vem fazendo com a classe trabalhadora nas sociedades
capitalistas avanadas.**
     Para a realizao deste programa, a cargo diretamente da
Comisso Coordenadora de Alfabetizao de Adultos,***           que
trabalha em estreita relao com o Comissrio Mrio Cabral, esta
Comisso vem realizando uma srie de atividades centradas nas
zonas e setores prioritrios. Atividades nem sempre fceis de serem
levadas a efeito e cujos resultados, tambm, nem sempre
correspondem ao que delas se esperava. De qualquer maneira,
porm, as falhas cometidas, num ou noutro momento de uma ao
no muito bem programada e que no se fundou num
conhecimento mais detido da realidade, so analisadas, nem
sempre tambm sem dificuldades   preciso no idealizar  no seio
da prpria Comisso cujos membros, no exerccio difcil de uma
correta autocrtica, vo aprendendo como super-las. O importante
 estarmos convencidos, mais uma vez com Amlcar Cabral, de que
os "erros que cometemos no devem desanimar-nos assim como as
vitrias que alcanarmos no devem fazer-nos esquecer os erros".*
      A tarefa principal desta Comisso, no ano que finda, em
 dilogo que procurou estreitar mais e mais com Comissariados
 como o da Sade, o de Agricultura, o de Servios Internos, o de
 Informao; com os Comits polticos do Partido nas zonas onde
 atuou; com as organizaes de massas  a JAAC, a Unio Nacional
 de Trabalhadores  com Centros de Formao como o de C, foi a
 capacitao de quadros, com a criao de Crculos de Cultura
 experimentais cuja continuidade fosse possvel prever. Com esta
 atividade, realizada no apenas em Bissau, mas em diferentes
 reas do pas, atravs de "Brigadas", a Comisso, de um lado, fez
 um amplo trabalho de interpretao do papel da alfabetizao que
 ela costuma chamar de "integral" no processo de reconstruo

**
  Ver, a este propsito, Harry Braverman  Labor and Monopoly Capital  The
degradation of work in the twentieth century, Monthly Review Press, Nova York e
Londres,1974.
***
   Esta Comisso, cada vez mais tornando-se intercomissarial, apresenta seus
relatrios, que so objeto de larga discusso, atravs do Comissrio da Educao,
a uma outra, criada em fevereiro deste ano  a Comisso Nacional de
Alfabetizao de que participam os Comissariados mais diretamente envolvidos
no programa de alfabetizao e que tem como Presidente o prprio Presidente do
Conselho de Estado, o camarada Luiz Cabral. Cabe  Comisso Nacional,
sobretudo, traar as linhas gerais de ao a ser exercida pela Comisso
Coordenadora, em acordo com a poltica do Partido. Em nossas visitas de
trabalho ao pas, tivemos oportunidade de participar de duas reunies desta
Comisso que nos deixaram uma forte impresso pelo nvel das discusses e
seriedade com que se tratam os problemas.


*
     Obra citada, pg. 14
 nacional, mobilizando a opinio pblica para a percepo crtica do
 problema. Do outro, implantou ncleos do programa em quase
 todas    as    reas   consideradas    prioritrias e,   sobretudo,
 reconhecendo as falhas cometidas, se preparou para, no prximo
 ano, o Ano II de Organizao, atender bem a uma das trs
 principais tarefas a este ano reservadas pelo Governo, atravs do
 Comissariado de Educao  a que diz respeito  campanha
 nacional de alfabetizao.
      Em um relatrio do ms de maio, dizia a Comisso: "Temos a
 referir tambm e especialmente o apoio recebido por parte dos
 dirigentes do Partido e do Estado, o que atesta a importncia que
 vem sendo dada  alfabetizao". Apoio comprovado, mais uma
 vez, aos contactos que precederam a ida de uma dessas Brigadas a
 uma das regies do pas. "Contactos, diz o relatrio, com o
 Camarada Presidente Luiz Cabral, com os diversos Comissariados
 que compem a Comisso Nacional de Alfabetizao, com outros
 Comissariados, com organizaes de massa, com organismos
 estatais".
      Em setembro passado, quando de nossa mais recente estada
 no pas, aps a visita que fizemos  Escola de C, a qual se
 alongou, como no podia deixar de ser, a quatro tabancas em volta
 do Centro, para ver e sentir o extraordinrio trabalho de
 alfabetizao de adultos nelas realizando-se, dedicamos oito de
 nossos dias na Guin a um seminrio de avaliao das atividades
 levadas a cabo pela Comisso.
     E interessante reafirmar, pois que disse algo sobre isto antes,
que a avaliao que realizamos no  um processo em que
tomamos a equipe coordenadora e sua ao como objetos de nossa
anlise sobre que falssemos, depois, com ares doutorais. Pelo
contrrio, ns e a Comisso, dialogicamente, tomamos a prtica
realizando-se como objeto da avaliao e procuramos entender as
causas das falhas e estudar as diferentes maneiras de super-las.
     No foi por pura coincidncia que os esforos mais positivos, na
rea civil  uma vez que os desenvolvidos no seio das FARP
revelavam, mais e mais, por todas as razes j anotadas neste
texto, um alto ndice de eficincia  eram os que se vinham fazendo
nas tabancas em torno da Escola de C. Sentia-se nos Crculos de
Cultura que vimos em funcionamento, dentro de "palotas"
construdas pela prpria populao, a presena poltico-pedaggica
da Escola de C, em sua ntima relao com o Comit do Partido.
     Uma das concluses, por exemplo, a que chegamos todos no
seminrio da avaliao e  luz da anlise do papel que vem tendo
aquela Escola foi a de a Comisso, tanto quanto possvel, nas reas
em que comece a trabalhar, procurar associar-se (alm de sua
ligao normal com o Comit local do Partido) seja com um posto
de sade, com um Internato ou com uma cooperativa de produo
que, em real comunicao com a populao local, se constituam em
pontos de apoio aos programas de alfabetizao de adultos.
     De uma coisa estamos certos: marchando na paciente
impacincia, por isso com segurana, os trabalhos de alfabetizao
de adultos, na Guin-Bissau, mais do que uma promessa so uma
realidade.
    Ao concluir esta introduo, que sei demasiado incompleta, no
gostaria que ela pecasse por duas omisses. A primeira, a de no
registrar aqui, no apenas em meu nome pessoal, mas no da
equipe do I DAC e no do Departamento de Educao do Conselho
Mundial de Igrejas, o nosso agradecimento ao povo, ao PAIGC e ao
Governo da Guin-Bissau pela oportunidade que nos vm dando de,
aprendendo tanto, ensinar tambm e, assim, participar, como
podemos, do esforo de reconstruo do pais.
    A segunda, a de no dizer, particularmente no de Elza e no meu
nome, o quanto o nosso envolvimento na Guin-Bissau tem
provocado em ns, no uma nostalgia do Brasil, mas uma saudade
mansa, bem comportada, dos j distantes anos em que, em
Crculos de Cultura to vivos quanto os de C e os das FARP, tanto
aprendemos com o nosso povo.

                                                       Paulo Freire
                                                          Genebra
                                                     Inverno 1976
                                  Post scriptum

     Viagens de trabalho a So Tom e Prncipe e Angola, em
dezembro do ano passado e fevereiro deste ano, fizeram coincidir o
trmino da reviso tanto da Introduo quanto das cartas que
compem este livro com a primeira visita deste ano  Guin-Bissau,
em maro passado. As observaes que fiz, participando de
seminrios de avaliao com a Comisso Coordenadora dos
Trabalhos de Alfabetizao de Adultos, bem como em encontros
com os professores estagirios e a equipe Diretora da Escola de C
e com responsveis de outros setores de atividades do
Comissariado de Educao, me convenceram da necessidade deste
P. S. Ao redigi-lo, evitarei, porm, convert-lo num relutrio
minucioso de tudo o que se discutiu em torno da alfabetizao de
adultos, quer nas reas civis, quer no seio das FARP, bem como de
tudo o que pude ver e sentir nos dias em que, com Elza e Julio de
Santa Ana, da Comission on the Churches' Participation in
Development, convivi com as equipes de professores efetivos e
estagirios do Centro de Capacitao e Recuperao de Professores
Mximo Gorki, em C. Em ltima instncia, o que pretendo com
este P. S.  atualizar consideraes, anlises e informaes contidas
na Introduo. Tentarei, assim, cingi-lo aos pontos que me parecem
mais importantes, entre os muitos que me impressionaram na
ltima visita.
     O primeiro destes pontos que gostaria de considerar, ao
oferecer novos dados em torno dele, diz respeito s relaes entre
educao e produo. Aspecto a que fiz referncia, insistentemente,
na Introduo deste livro, salientando que o aprimoramento e a
intensificao destas relaes constituem uma preocupao do
PAIGC a que o Governo, atravs sobretudo do Comissariado de
Educao, vem dando o melhor de seu empenho. "De todos os
nossos esforos no Comissariado, de todo o nosso trabalho, diz
Mario Cabral em recente entrevista ao Dirio de Lisboa**, falando
destas relaes,  este o que mais me sensibiliza e de que mais
gosto de falar."
     Esta preocupao  a de jamais dicotomizar educao de
produo  que sempre caracterizou o PAIGC, marcando
decisivamente toda a experincia educativa que se desenvolveu nas
chamadas zonas libertadas, durante a luta, no poderia deixar de
constituir-se num dado central, numa espcie de "tema gerador"
sobre que se fundaria o novo sistema educacional do pas. Assim 
que, j nos comeos do ano letivo de 1975, poucos meses depois da
entrada do PAIGC em Bissau, o Comissariado de Educao, ao
mesmo tempo em que mantinha e estimulava a unidade entre
educao e produo nas antigas zonas libertadas, ensaiava os
primeiros passos no sentido desta unidade nas escolas de Bissau.




    *
        Dirio de Lisboa, abril 1977.
E.    Vista parcial do Centro de Formao e Recuperao de
Professores Mximo Gorki. Escola de C, 1997. Recreio. (Foto do
Centro udio-Visual, Guin-Bissau)
Em certo momento da Introduo me refiro s tentativas realizadas
nesta direo bem como s resistncias de estudantes a elas.
Resistncias de estudantes que no se podiam conceber usando
suas mos em trabalhos considerados como subalternos.
     Tanto Mario Cabral quanto seus auxiliares imediatos, entre eles,
sobretudo,     Carlos    Dias,    responsvel   pelo  Departamento
encarregado de promover as relaes entre trabalho e estudo,
sabiam que, de um lado, seria impossvel superar o sistema
educacional herdado dos colonizadores, mantendo-se um liceu
verbalista,    blablablante,     com    estudantes   deformando-se,
distanciados do ato produtivo. De outro, compreendiam as razes
ideolgicas que explicavam aquela resistncia por parte de um bom
nmero de estudantes. Uma vez mais se percebe, no trato de um
problema to fundamental, para o futuro do pas, quo delicado, a
sabedoria que o PAIGC veio acumulando nos anos de luta. Uma vez
mais a soluo procurada se achava no equilbrio entre a
impacincia e a pacincia ou em formas de ao impacientemente
pacientes. No se tratava, na verdade, naquela poca, de impor a
todos os estudantes do Liceu de Bissau sua participao no trabalho
produtivo, mas de convenc-los do valor formador do trabalho. O
que se impunha no momento era a busca da adeso da juventude
ao esforo de reinveno de sua sociedade para o que a unidade
entre trabalho e estudo se fazia indispensvel.
     Este foi, de fato, o principal objetivo do Comissariado de
Educao, ao propor aos estudantes de Bissau, nos comeos do ano
letivo de 75, os primeiros projetos visando  unidade entre a
atividade escolar e a produtiva. Havia, por parte do Comissariado
de Educao, ao iniciar o dilogo com a juventude liceal sobre a
necessidade de unir o estudo ao trabalho, uma convico bem
firme. Convico de que, sem tal unidade, a aprofundar-se na
medida mesma em que uma nova prtica social se fosse
constituindo, no seria possvel contribuir para a criao de uma
nova sociedade em que se superassem as diferenas entre o
trabalhador manual e o chamado intelectual. Uma sociedade que
sonha com ir se tornando, no desenvolvimento de seu processo,
uma sociedade de trabalhadores, no pode deixar de ter, no
trabalho livre, na produo do socialmente til, uma fonte
fundamental de formao do homem novo e da mulher nova,
coincidentes com tal sociedade.
     Conversando comigo, em maro passado, sobre este problema,
dizia Carlos Dias que "seria impossvel conceber o trabalho fora da
educao como se fosse algo a que aspirssemos e para o que nos
preparssemos em lugar de tom-lo como o centro mesmo da
formao. Dai que trabalhar estudando e estudar trabalhando seja o
nosso lema." Isto no tem nada que ver, porm, diga-se de
passagem, com a "unidade" entre trabalho e estudo que se realiza
nas    sociedades     capitalistas,  nos   chamados    "centros   de
aprendizagem industrial", "viveiros" em que se "cultivam" os futuros
operrios para vender sua fora de trabalho  classe empresarial.
     "A ligao do trabalho ao estudo, do trabalho socialmente til,
fecundo e criador, enfatiza Carlos Dias, na transio que vivemos
para uma sociedade sem exploradores nem explorados, persegue
dois objetivos. De um lado, iluminar a contradio entre trabalho
manual e trabalho intelectual, de cuja superao total estamos
ainda longe; de outro, possibilitar o autofinanciamento gradativo da
educao, sem o que no poderia ser, em nossas condies,
democratizada."
     Mas se esta era uma convico bem firme, como sublinhei
acima, do Comissariado de Educao, ao estabelecer, nos comeos
de 75, seus primeiros dilogos com a juventude liceal de Bissau,
convidando-a a participar do trabalho produtivo, a esta convico se
juntava uma confiana no menos firme do Comissariado na
juventude. Na juventude que deveria ser desafiada (e no
ameaada) a assumir o seu papel no esforo da reconstruo
nacional. No uma confiana gratuita, vaga, difusa, de que
resultasse uma posio espontaneista do Comissariado e que
repousasse na certeza ingnua de que a juventude do liceu,
entregue a si mesma, seria capaz de encontrar, com clareza, o seu
papel naquele esforo. Pelo contrrio, uma confiana crtica  a
mesma que jamais deixou de estar presente na prtica de
pedagogos polticos como Amlcar Cabral, Samora Machel, Fidel,
Ral Ferrer, Makaren-ko, Freinet, Nyerere para citar apenas estes,
entre tantos outros.
     Ao dialogar com os jovens do liceu, o Comissariado sabia que
uma pequena parte, por mnima que fosse, aceitaria o convite e se
entregaria s primeiras experincias de trabalho produtivo. A partir
da, seria o testemunho dessa minoria, ao lado do permanente
trabalho poltico, jamais descurado, que iria comunicando-se aos
demais.
     Desta maneira, as iniciativas que, em pequena escala, se
lanam em 75 se alargam e aprofundam em 76 e alcanam em
maro deste ano um nvel surpreendente. A pequena minoria que,
atendendo ao convite do Comissariado de Educao, em comeos
de 75, se deu ao esforo produtivo, se transformou, em dois anos,
na unanimidade dos alunos do Liceu de Bissau. Hoje, 800 jovens
deste liceu, organizados em comits de que o responsvel ou a
responsvel se elege entre eles, se acham engajados numa ou
noutra forma de trabalho produtivo. Diariamente, manh cedo,
durante o tempo de minha ltima visita ao pais, via-os em grupos,
disciplinados e felizes, cortando as ruas de sua cidade, em direo,
ora ao campo do Hospital Simo Mendes, a 25 minutos a p, do
liceu, ora a um outro campo agrcola, numa rea urbana de Bissau,
bastante mais longe que a do hospital. A prpria presena desses
jovens, quase como se estivessem desfilando pelas ruas da cidade,
com seus instrumentos de trabalho ao ombro,  uma "linguagem"
diferente, com que anunciam a construo de uma nova sociedade.
 um testemunho novo que no pode passar despercebido  cidade,
testemunho que a desafia e que a faz pensar que algo diferente
est ocorrendo. Sua juventude, a pouco e pouco, vai deixando de
"consumir" letras, de memorizar a geografia e a histria da
metrpole para ir tendo, no trabalho, a fonte de seu estudo.
     Num ms de atividades, no Hospital Simo Mendes,
trabalharam 1.377 horas; num campo agrcola, em Antuta, a
poucos quilmetros de Bissau, 2.187 horas; no Comissariado de
Comrcio e Artesanato, 1.908 horas.
     H algo que me parece importante salientar. A margem de
liberdade que tm os estudantes na sua participao no trabalho.
Um grupo, por exemplo, que se dedica seriamente ao cultivo das
flores no Hospital Simo Mendes, pensa na mensagem de vida que
uma rosa possa trazer diariamente aos enfermos. Amam as rosas
que plantam tanto quanto a terra que preparam para a semeadura
de rvores frutferas. O seu amor  vida tem que ver com o esforo
de reconstruo revolucionria de sua sociedade.
     No interior do pas, pela prpria experincia da luta, os dados
so ainda mais eloqentes. Em Tombali, por exemplo, adolescentes
dos ltimos anos de escolas de ensino bsico plantaram 917
bananeiras; colheram 1.020 quilos de arroz e prepararam para o
cultivo 837 metros quadrados de terreno. No setor de Bedanda, na
mesma regio, no puderam sequer medir a extenso da rea
preparada para o cultivo, que ultrapassou em muito os 837 metros
quadrados acima referidos.
     Bafat continua sendo, porm, a regio modelo, a melhor
organizada. Se no ano passado, conforme declarei na Introduo,
das 106 escolas da zona, 96 produziam, hoje no h uma sequer
que no tenha o seu campo agrcola. Seus alunos, com a
participao de seus professores, plantaram e colheram 24.516
quilos de batata; 4.823 quilos de arroz; 11.177 quilos de milho; 800
quilos de amendoim e 250 de feijo.
     O trabalho produtivo, de carter coletivo, vem dando a
educandos e a educadores uma viso distinta de sua formao em
comum; vem inserindo a escola nas comunidades, como algo que
delas emerge, que est com elas e no "fora" ou "acima" delas,
como algo a servio da comunidade nacional. "No momento, diz
Carlos Dias, uma de nossas preocupaes  a de conseguir que o
campo das escolas e o das famlias dos alunos se unam num s
campo produtivo. Em Bula, regio do Cacheu, estamos por comear
experincias em que trabalhadores camponeses, jovens estudantes
e militantes das FARP se daro ao trabalho produtivo, de carter
coletivo."
      importante sublinhar, porm, que tudo isto  ainda, e no
poderia deixar de ser, um puro comeo. Mesmo que no escondam
sua satisfao com os resultados que se vm obtendo nesta
dimenso fundamental da radical transformao do sistema
educacional herdado do colonizador, o Comissrio Mario Cabral e
seus auxiliares imediatos esto bem conscientes do muito que tm
ainda por fazer neste como em outros domnios da educao
nacional. Por isso mesmo, ao falarmos do que se vem fazendo no
pas, ao acompanhar-nos s reas para que vejamos, no concreto,
o de que falam, no se permitem cair num ufanismo ingnuo nem
jamais perdem o sentido da humildade. O pudor revolucionrio com
que se referem  luta pela libertao nacional est presente nas
anlises que fazem da luta pela reconstruo nacional, continuao
daquela.
     Dentro, ainda, deste tema, o das relaes entre educao e
produo, mas agora na rea da alfabetizao de adultos, h uma
experincia que, tudo indica, poder vir a tornar-se exemplar para
outras regies do pas, no porque deva ser literalmente
transplantada, mas enquanto se possa converter numa fonte de
aprendizado. De aprendizado no apenas para os componentes da
Comisso Coordenadora dos Trabalhos de Alfabetizao de Adultos,
mas tambm para ns.
      uma experincia de indiscutvel riqueza pela variedade de
aspectos que nela sc entrecruzam, a ser pensados, analisados e
acompanhados em seus mais mnimos pormenores. Um deles, por
exemplo, a que fiz referncia numa das cartas, citando a
experincia de Tachai,  o dinamismo que se estabelece entre a
educao e as transformaes que se vo operando no contexto
scio-econmico, de tal modo que estas, precedendo quela ou por
ela motivadas, a estimulam e a reorientam.
     Um outro,  o da necessidade, em funo mesma deste
dinamismo, em certas situaes, de a alfabetizao ser precedida,
em aparente contradio, pela ps-alfabetizao*. Dai, por isso
mesmo, que sempre tenha tomado a alfabetizao de adultos como
ao cultural** o que significa, nesta viso ampla de sua
compreenso, que ela deve ser, sobretudo, um esforo de "leitura"
e de "re-leitura" da realidade, no processo de sua transformao.
Na verdade, o domnio sobre os signos lingsticos escritos, mesmo
pela criana que se alfabetiza, pressupe uma experincia social
que o precede  a da "leitura" do mundo.
     Nem sempre, porm,  necessria a coincidncia entre o
aprofundamento critico da "leitura" da realidade com o aprendizado
da leitura e da escrita dos signos lingusticos, isto , com a
alfabetizao no sentido em que  geralmente entendida. Em certas
circunstncias,  possvel que uma comunidade se engaje durante
algum tempo, numa sria prtica reflexiva sobre sua realidade,
discutindo uma temtica geradora significativa, ligada a seus
interesses concretos, indagando-se em torno, por exemplo, de sua
experincia produtiva, de carter coletivo; de como produzir
melhor, perguntando-se sobre seu papel no esforo de reconstruo
nacional, envolta, enfim, num programa que poderamos chamar de
"ps-alfabetizao", sem que, porm, se tivesse iniciado no
aprendizado da leitura e da escrita dos signos lingusticos. Seria, no
caso, a prtica da "re-leitura" critica de sua realidade, associada a
uma forma de ao sobre ela, a que poderia despertar a
comunidade para o aprendizado da leitura e da escrita dos signos
lingusticos. O oposto, numa perspectiva revolucionria,  que seria
invivel, isto , o aprendizado da lngua sem o aprofundamento da
"leitura" e da "re-leitura" da realidade.
     Em outras oportunidades, o aprendizado da leitura e da escrita,
corretamente associado  "leitura" critica da realidade, torna
possvel aos educandos mobilizar-se e organizar-se para um tipo de
ao no momento em que uma necessidade at ento


*
 Em algumas das cartas que compem este livro esta possibilidade  mencionada
**
  A prpria designao de Crculo de Cultura e no Escola Noturna para Adultos
ou Centro de Alfabetizao, que preferi desde os comeos da experincia
brasileira, tem que ver com esta viso ampla de tal processo
simplesmente sentida e s vezes nem sequer sentida se constitui
como um "destacado percebido em si".
     A mobilizao e a organizao para a ao se fazem a resposta
que se d ao que antes era, como disse acima, uma necessidade
simplesmente sentida e que agora se torna um desafio, um
"destacado em si".  como se se fizesse uma descoberta.
     Dai em diante, em tal caso, o projeto, que  posto em prtica e
que "nasceu" na experincia da alfabetizao como ao cultural,
passa a fecundar a prtica educativa que 1he deu origem.
      tudo isto o que vem caracterizando a experincia que, a partir
de fins de outubro do ano passado, se vem desenvolvendo no setor
de Sedengal, zona de Cacheu, no extremo norte do pais.
     A sua histria bastante recente comea quando, nos meados do
ano passado, a Comisso Coordenadora dos Trabalhos de
Alfabetizao, aproveitando, de um lado, o interesse de um largo
grupo de estudantes do Liceu de Bissau, de origem interiorana, em
participar dos programas de alfabetizao, e, de outro, o perodo
das frias maiores, capacitou 200 desses jovens, organizando, com
eles, o que chamou de Brigadas.
     Ao regressar, de frias, a suas regies de origem, jamais
trabalhando individualmente, mas sempre em equipes, coordenadas
por um deles, os estudantes se dariam  posta em prtica dos
objetivos centrais das Brigadas.
     Caberia a estas, atuando em reas consideradas prioritrias,
em estreita relao com os Comits locais do Partido, iniciar um
esforo de mobilizao das comunidades, interpretando-lhes a
correta concepo da alfabetizao, e motivar, atravs deste
esforo, alguns jovens que, capacitados pelas Brigadas, poderiam
comear os trabalhos, deixando, assim, em diferentes setores de
tais zonas, Crculos de Cultura em funcionamento, cuja continuidade
estaria assegurada por serem seus animadores jovens locais.
     Saliente-se,   porm,    que   nem     todas  essas   Brigadas
conseguiram, por diferentes razes, alcanar tais objetivos. Sua
prpria capacitao, em Bissau, se ressentiu de um maior
envolvimento de seus participantes na prtica, cuja quase total
ausncia esvaziou, em grande parte, o sentido da teoria de que se
1hes falou. Por outro lado, nem sempre foram bem planejados e
executados os trabalhos de mobilizao das populaes nem
tampouco, em outros casos, tomadas medidas necessrias para
manter viva a mobilizao feita. De qualquer modo, contudo, o
projeto foi vlido, no apenas por ter proporcionado o surgimento
de experincias altamente interessantes como a de Sedengal, mas
tambm pelo aprendizado que ofereceu  Comisso Coordenadora
ao analisar seus aspectos positivos e negativos. Mais ainda, pelo
aprendizado que os participantes das Brigadas fizeram e que est
sendo fundamental, no momento, a muitos deles, para a
continuidade de sua contribuio ao Programa de Alfabetizao, ao
nvel de Bissau, no perodo de estudos; do interior, na poca de
suas frias escolares.
     A mobilizao, antes mencionada, das populaes, com que se
buscava a organizao de programas de alfabetizao, no sentido
amplo a que sempre me refiro, envolvia a preocupao com um
levantamento, mesmo no muito rigoroso, das suas necessidades
bsicas. Levantamento de que as populaes participassem, como
sujeito, e no de que fossem simples objetos.
     Na anlise das atividades de todas as Brigadas fica bastante
clara a importncia do papel dos Comits do Partido, o que no
significa, porm, que a sua presena, em si mesma, pudesse
assegurar, sempre, o xito daquelas atividades. No caso de
Sedengal, que nos interessa no momento, a mobilizao da
populao e o levantamento de suas necessidades bsicas
contaram, desde o comeo, com a participao eficiente do Comit
local do PAIGC.
     Na verdade, porm, a populao de Sedengal no foi mobilizada
pela Brigada e pelo Comit do Partido, mas com eles se mobilizou.
Da que a organizao dos Crculos de Cultura, em que seus
participantes comearam o aprendizado da leitura e da escrita,
associado  "leitura" e  "re-leitura" de sua realidade, tenha sido
assumida no s pelos alfabetizandos mas pela comunidade
mesma.  esta assuno do projeto pela comunidade a sua nota
mais forte, a que melhor explica o seu xito. Uma das expresses
desta assuno do projeto pela comunidade esta na adeso de um
grupo de jovens que, capacitados pela Brigada, se tornaram
animadores dos vrios Crculos de Cultura. Jovens camponeses,
com terceira e quarta classes primrias, nascidos e crescidos no
"mundo" de Sedengal e envolvidos, agora, com seus camaradas
mais velhos, na "re-leitura" e na "re-escritura" de seu mundo e no
apenas na leitura e na escrita de palavras. Jovens que tm andado
de sua comunidade a uma outra, a dez quilmetros de distncia,
para vender cestos e esteiras, por eles mesmos produzidos, e com o
resultado de cuja venda compram o querosene com que asseguram
o funcionamento das sesses noturnas dos Crculos de Cultura. E
esta assuno do projeto pela comunidade a que explica, ainda, a
presena desta, atravs sempre da maioria de seus habitantes, s
reunies peridicas que membros da Comisso Coordenadora
realizam em Sedengal com os animadores dos Crculos de Cultura.
Reunies de avaliao de que aparentemente deviam participar
apenas os animadores, mas s quais a comunidade. com o maior
dos interesses, se incorpora.
     Desta maneira, os Crculos de Cultura cada vez mais se
estendem  comunidade toda, que, tudo indica, vir a transformar-
se, toda ela, num Circulo tambm. Esta hiptese se vem fazendo
possvel na medida em que, a partir da prtica, nos Crculos de
Cultura, da "leitura" da realidade e do aprendizado, mesmo
precrio, da leitura e da escrita dos signos lingusticos, em dado
momento, os alfabetizados "descobriram" a necessidade de
entregar-se a um projeto maior  o de cultivar uma enorme rea de
terreno do Estado, a quatro ou cinco quilmetros de sua tabanca,
em forma de trabalho coletivo*. O momento da descoberta foi
exatamente aquele em que uma necessidade, at.ento

*
  O Comissariado de Agricultura, na medida do possvel, vem prestando
assistncia tcnica a este projeto.
possivelmente apenas sentida, se constituiu num "destacado
percebido em si".
     Da em diante, organizaram-se para a nova prtica, dividindo-
se em equipes responsveis por esta ou aquela tarefa.
Interpretaram seu projeto  comunidade que a ele aderiu
imediatamente. Juntaram esforos para a obteno de instrumentos
de trabalho; discutiram sobre o que produzir e iniciaram o
tratamento da terra para a semeadura. Comearam assim a "re-
escrever" sua realidade. Passaram do trabalho individual ao
trabalho coletivo. "Quem no descobriu o valor do coletivo
dificilmente encontra sentido para ficar em Sedengal", disse um
deles numa reunio da populao com membros da Comisso
Coordenadora.
     Uma representante desta Comisso me dizia em maro que "o
entusiasmo  a nota caracterstica da populao de Sedengal. O
entusiasmo  uma certa alegria de viver , continuava ela, que se
apodera de ns quando descobrimos uma coisa nova, maravilhosa,
diante da qual nos perguntamos como tinha sido possvel viver
tanto tempo sem ela. No momento em que a descobrimos e nos
damos a ela percebemos que, por muito tempo, talvez, ela esteve
latente em ns, esperando o momento de sair. A descoberta  este
momento que chega.  assim que vejo Sedengal, o entusiasmo de
sua populao, a sua alegria incontida diante de e por causa de
"sua" coisa nova  o trabalho coletivo. A descoberta do coletivo,
porm, no significou a negao do individual, mas o seu
enriquecimento. Por outro lado, continuou ela, o trabalho coletivo
vem elevando visivelmente o nvel poltico da populao. Em
recente reunio em Sedengal, em que falvamos do Terceiro
Congresso do Partido e de como Sedengal poderia contribuir para o
mesmo, a tese geral era a de que a melhor maneira de saudarem o
Congresso seria a de estenderem e aperfeioarem o trabalho
coletivo."
     "Sedengal, disse-me ainda a mesma camarada, semi-sorrindo,
 o lugar das surpresas.  impossvel l ir sem se ser desafiado por
algo novo. Corremos para c e para l, aprendendo com eles,
porque, no fundo, so eles que esto a inventar. No  por acaso
que um deles afirmou, recentemente: Ns no sabamos que
sabamos. Agora, no s sabemos que sabamos, mas sabemos que
podemos saber mais."
      evidente, na experincia de Sedengal, que a alfabetizao de
adultos, enquanto ao cultural, possibilitando a descoberta do
coletivo, terminou por engajar a populao na prtica do trabalho
em comum:  evidente, tambm, que se vem estabelecendo aquele
movimento dinmico, a que me referi no incio, entre as atividades
nos Crculos de Cultura e a ao produtiva desenvolvida na "horta"
coletiva. O que no se pode esperar, porm, no caso de Sedengal, 
que o movimento dinmico entre os Crculos de Cultura e a prtica
produtivo-coletiva seja capaz, em si, de sobrepassar um problema
fundamental, de carter lingstico, que tem a populao. E que,
entendendo o creoulo, um pouco, fala mesmo  sua lngua, sem ter
nenhuma experincia do portugus. Este , na verdade, um real
problema, que se pe, no apenas' com relao a Sedengal, mas a
outras reas do pas. Problema que foi colocado na ltima reunio
da Comisso Nacional de Alfabetizao, em maro; pelo Comissrio
Mario Cabral.
     Uma compreenso correta das dificuldades que tem o
Comissariado de Educao da Guin-Bissau, ao confrontar o
problema da alfabetizao de adultos, no pode deixar de levar em
considerao este dado, a que se junta um outro, sobre que nem
sempre se pensa  o da diferena demasiado grande entre o
nmero dos que no lem nem escrevem e o daqueles que o fazem.
Um dos legados do colonialismo, depois de cinco sculos de
"trabalhos profcuos" na Guin, foi deixar 90 a 95% de sua
populao iletrada.
     De qualquer maneira, porm, nas zonas onde o bilingismo e
mesmo o trilinguismo tem, no creoulo, uma das lnguas, o
aprendizado do portugus, ainda que no isento de dificuldades, se
d sem obstculos mais srios. O caso das FARP, em cujo seio j
no h hoje, praticamente, analfabetismo,  significativo.
     A impresso que me fica, sem nenhum dogmatismo, refletindo
sobre a experincia de Sedengal,  que o dinamismo entre os
Crculos de Cultura e a atividade produtvo-coletva continuar,
mas, em certo momento, em face mesmo das dificuldades
encontradas, o interesse pelo aprendizado do portugus diminuir,
mais e mais. Se isto ocorrer, o que no significar nenhum
desastre, no h por que a Comisso Coordenadora diga um "at
logo" triste, de quem se sentisse frustrado, a Sedengal. A sua tarefa
de Ao Cultural continuar. O domnio da linguagem, enquanto
"linguagem total", da expressividade, permanecer. A experincia
de Sedengal simplesmente se afirmar noutro sentido, j evidente
hoje: no da "leitura" e no da "re-escritura" da realidade, sem o
aprendizado da escrita e da leitura dos signos lingusticos.
     Quanto s atividades nas FARP, me parece interessante fazer
tambm referncias que atualizem o que sobre elas foi dito na
Introduo. Consideraes fundadas sobretudo na anlise que
destas atividades nos fez o seu Comissrio Poltico, Jlio de
Carvalho, em uma reunio que tivemos com ele e seus auxiliares
imediatos. Em alguns pontos bem precisos se centram as
preocupaes hoje dos responsveis pelos trabalhos educativos no
seio das FARP. O prosseguimento de sua experincia de ps-
alfabetizao,    cujo   processo     deve     ir    sendo   avaliado
constantemente,  um destes pontos.
     S recentemente, porm,  que foi possvel intensificar,
sobretudo na zona de Bissau, o programa da ps-alfabetizao ao
se poder contar com o indispensvel material de suporte que
assegurar a sua extenso a outras zonas do pas. Refiro-me aos
cadernos bsicos, ou manuais  um, com orientaes, informaes
e sugestes dirigidas aos animadores; o outro, com textos cuja
temtica, ao ser analisada e discutida, possibilita o aprofundamento
da "leitura" critica da realidade nacional, iniciada na fase de
alfabetizao e se alonga na compreenso da realidade africana.
Esforo a que se junta, como no poderia deixar de ser, o estudo
desenvolvido do clculo.
       importante sublinhar a participao que tiveram os
alfabetizandos na organizao deste manual. A grande maioria dos
textos resultou de gravaes dos debates realizados nos Crculos de
Cultura, durante a descodificao de situaes a que se referiam as
palavras geradoras. O trabalho da equipe responsvel foi o de
editar, o de organizar, o de sistematizar, numa linguagem que no
se distanciasse demasiado da dos alfabetizandos, o material
recolhido. Desta maneira, se tentava, com o manual, devolver aos
educandos, de forma organizada, as suas anlises anteriores, em
forma de textos, verdadeiras codificaes; acrescidas de novos
elementos. Ao serem "convidados", na ps-alfabetizao,  anlise
critica desses textos, estariam, em ltima instncia, analisando a
sntese de suas anlises passadas.
     Por outro lado, no se prescindiu, tambm, da contribuio de
todos os alfabetizadores (animadores) da zona de Bissau, com
quem, em grupos, a equipe responsvel discutiu texto por texto.
Deste modo, na prpria etapa de organizao do chamado manual,
os animadores, ao discutir os textos, no s do ponto de vista da
forma, mas tambm de seu contedo, j estavam envolvendo-se
num processo de capacitao para a prxima etapa de sua tarefa.
Tarefa em que o animador ter, preponderantemente, o texto de
leitura entre ele e os educandos, como um desafio  anlise de
todos. E um dos riscos ser o de, na leitura do texto, no se
conseguir ultrapassar a "estrutura de superfcie" do mesmo,
transformando-se, assim, o que deveria ser o esforo de penetrao
na "estrutura profunda" do texto, em uma simples "lio de leitura",
nos moldes tradicionais. Da que se imponha uma capacitao
bastante cuidadosa do animador, capacitao a ser reforada
constantemente em seminrios de avaliao de sua prpria prtica.
     No domnio ainda da ps-alfabetizao, no seio das FARP, h
uma experincia em curso, com conotao distinta, e em estreita
colaborao com o Comissariado de Educao. Trata-se de um
projeto especial, que envolve 200 militantes das FARP, cujos
primeiros ensaios da leitura e da escrita se deram durante a luta de
libertao, no interior das matas. Participando, desde os comeos,
do programa de alfabetizao dos Foras Armadas, iniciado aps a
independncia total do pas, estes 200 militantes reavivaram o seu
aprendizado feito durante a luta, passando em seguida ao que, nas
FARP, se costuma chamar de "transio  ps-alfabetizao".
     "O projeto, diz Jlio de Carvalho, em colaborao com o
Comissariado de Educao, tinha, como ponto de partida, uma
avaliao, de modo nenhum de estilo tradicional, que nos
possibilitasse aferir o universo de conhecimentos daqueles
camaradas, a sua compreenso de nossa realidade e da realidade
africana em geral, os nveis de sua conscincia poltica e a maneira
como entendiam a sua responsabilidade no esforo de reconstruo
nacional. Aps a avaliao, cujos resultados foram satisfatrios, os
200 camaradas comearam a participar de um curso intensivo, com
a equivalncia do ciclo preparatrio, cujo programa, porm,
ultrapassa, em certos aspectos, os contedos que se desenvolvem
neste ciclo.
    Com este projeto se chega ao segundo ponto em que as
preocupaes das FARP se centram, coincidentemente, com as do
Comissariado de Educao. O de encontrar, no campo da educao
de adultos, caminhos vlidos, portanto adequados  realidade do
pas, que assegurem aos militantes das FARP a continuidade do ato
de conhecimento que iniciaram na etapa da alfabetizao. Caminhos
que assegurem esta continuidade quer queles que continuem na
ativa, quer queles que, desmobilizados, se incorporem  atividade
produtiva, ora no setor agrcola, ora no industrial. E este, o da
reorientao das atividades dos militantes a serem desmobilizados,
 o terceiro ponto em que se fixam as preocupaes das FARP, ou,
mais precisamente, do Partido e do Governo.
    "O grosso dos que vo ser desmobilizados agora, diz ainda Jlio
de Carvalho, ser encaminhado  atividade produtiva no campo. Em
funo de nossa realidade, a agricultura se constitui no domnio
principal, mas h tambm pequenas e mdias unidades industriais,
como, por exemplo, o plano do acar, para o qual est previsto o
enquadramento de um determinado nmero de camaradas que
sero desmobilizados. Neste ms ainda (maro) iniciaremos, com
um primeiro grupo, uma cooperativa de produo, como uma
experincia piloto. Tudo est mais ou menos previsto para, tanto
quanto possvel, realizarmos a unidade entre produo e educao,
trabalho e estudo. Neste sentido, preocupa-nos, intensamente, a
capacitao dos quadros para o trata-mento da terra, para os
trabalhos de agricultura  plantao da cana, de rvores frutferas,
do arroz. Assim, trabalharemos, ao nvel desta cooperativa de
produo, em estreita colaborao com o Comissariado de
Agricultura, com o de Sade, com o de Educao. Com este,
pretendemos criar escolas na rea da cooperativa para crianas e
jovens, escolas ligadas tambm  produo, de acordo com o
esprito do PAIGC e que o Comissariado de Educao vem
executando ao nvel do pas."
    "Esta ser, conclui Jlio de Carvalho, uma experincia que at o
fim do ano, espero, nos poder oferecer um modelo a ser
aproveitado em outras reas do pas, com as devidas adequaes
que cada caso exija."
    Voltando  alfabetizao de adultos, enquanto ao cultural,
mas nas reas civis, entre tudo sobre o que discutimos com a
Comisso Coordenadora em nossa ltima visita, deixando de lado
referncias a outras experincias,  necessidade que todos sentimos
de apressar certas iniciativas, me fixarei num ponto a mais, alm
das anlises feitas sobre Sedengal. O da preparao, no
propriamente de uma cartilha, que sempre recusei e a que dediquei,
na Introduo mesma deste livro, umas pginas criticas, mas de um
caderno do alfabetizando, que, por sugesto do Comissrio Mario
Cabral, se chama N Pintcha  Primeiro Caderno de Educao
Popular. Um caderno que, idntico, em esprito, ao que sugerimos
tambm Elza e eu  Comisso Coordenadora dos Crculos de Cultura
Popular de So Tom e Prncipe, tem, contudo, aspectos prprios,
em funo da realidade guineense.
    Com duas partes ou dois momentos dinamicamente
relacionados entre si, na composio de seu todo, o Primeiro
Caderno de Educao Popular tem trs objetivos principais,
igualmente entrelaados. Oferecer aos alfabetizandos uma ajuda,
um suporte que lhes d maior segurana no processo de sua
aprendizagem, estimulando-lhes, ao mesmo tempo, a criatividade.
Possibilitar-lhes uma transio mais fcil e mais rpida  ps-
alfabetizao, e ajudar os animadores na sua tarefa poltico-
pedaggica.
     Analisemos, um a um, os dois momentos do Caderno. O
primeiro deles  o em que os alfabetizandos comeam as suas
primeiras experincias na aprendizagem da leitura e da escrita dos
signos lingusticos, associada  "leitura" e  "re-leitura" de aspectos
da realidade, representados nas codificaes. 6 um momento em
que se deve dar a maior nfase possvel, na descodificao da
codificao, a que se refere a palavra geradora,  expresso oral
dos alfabetizandos, ao lado da anlise critica da situao codificada.
     Esta primeira parte do Caderno contm, pois, todas as palavras
geradoras, no caso da Guin-Bissau, 20, associadas s codificaes
correspondentes. Da primeira at a nona palavra no h, porm,
nada mais que a codificao, a palavra geradora a ela referida e,
em seguida, a palavra decomposta em suas slabas, aps o que,
invariavelmente, h duas folhas pautadas em branco. Estas folhas
so um convite  criatividade dos alfabetizandos, que nelas iro
escrevendo, a principio, as palavras que eles mesmos vo criando,
atravs das combinaes silbicas; depois, a pouco e pouco, frases
e sentenas. Seus pequenos textos.
     Assim, h um tempo necessrio  experincia criadora dos
alfabetizandos, engendrando-se na prtica da "leitura" de aspectos
de sua realidade no ato da descodificao, bem como na prtica da
anlise da palavra geradora  sua decomposio em silabas  e no
momento da sntese em que, pela combinao silbica, retotalizam
a palavra geradora antes decomposta e descobrem suas palavras. &
neste sentido que a alfabetizao, como ao cultural numa
perspectiva revolucionria,  um ato de conhecimento, de que os
alfabetizandos so tambm sujeitos.
     Desta forma, somente entre a nona e dcima palavra geradora 
que aparece o que chamo de "primeiro livro" do alfabetizando,
mesmo que esta expresso no venha escrita no Caderno.  um
pequeno texto, simples e direto, composto de palavras entre as
quais nenhuma  estranha s possibilidades de combinaes que as
nove palavras geradoras oferecem. Em ltima instncia, este texto
simples, escrito em linguagem accessvel,  tambm uma
codificao. E como tal  que deve ser tratado. No est posto no
caderno para um puro exerccio de leitura,  maneira das
tradicionais "lies de leitura". Um texto para ser memorizado, com
a repetio montona de cada palavra. Pelo contrrio, o que se
pretende com ele  o exerccio, no caso, o primeiro que os
alfabetizandos estaro fazendo, de uma leitura critica e
compreensiva, que ultrapassando a sua "estrutura superficial"
alcance, a pouco e pouco, sua "estrutura profunda", com a qual se
estabelece a relao entre o texto e o contexto social.
     At ento, tero feito os alfabetizandos, preponderantemente, a
"leitura" da realidade atravs da descodificao de fotos e
desenhos. Agora, sero chamados a fazer a "leitura" da realidade
atravs da leitura de um texto. Da a necessidade de uma sria
ateno a ser dada  interpretao do mesmo, que deve ser "re-
escrito", oralmente, pelos alfabetizandos.
    Da dcima  dcima quarta palavra geradora, o mesmo
procedimento anterior. Codificao, palavra geradora a ela referida;
palavra geradora decomposta e as duas folhas pautadas em branco.
    Apoiados na experincia criadora que vm tendo, desde o inicio
das atividades do Circulo, a de criar suas palavras, e estimulados
pela leitura do primeiro texto, ser possvel, a esta altura, que
alguns alfabetizandos, pelo menos, comecem a escrever, nestas
folhas em branco, no mais apenas palavras, mas pequenos textos
tambm. E devem ser motivados a faz-lo.
    Entre a dcima quarta e a dcima quinta palavra geradora, o
segundo texto, um pouco maior e menos simples que o primeiro, a
merecer a mesma leitura crtica, a ser objeto igualmente de
interpretao e a ser, tanto quanto o primeiro, "re-escrito",
oralmente, pelos alfabetizandos.
    Com o domnio, agora, de 14 palavras e a experincia, mesmo
ainda em seus comeos, da leitura feita dos dois textos, uma srie
de exerccios criadores, a serem inventados e re-inventados,
constantemente, e em funo da realidade em que se ache o
Crculo, podem ser introduzidos. Um deles, por exemplo, a que
alfabetizandos de Bissau ou de outro centro urbano poderiam
dedicar-se, seria o de transcrever, em seu Caderno, as palavras de
ordem do Partido, registradas em cartazes ou simplesmente escritas
nos muros da cidade, a que se juntaria, tambm, a transcrio de
trechos do jornal No Pintcha. Este material, recolhido pelos
alfabetizandos e pelo animador, aps lido, seria objeto, na reunio
do Crculo, da anlise de todos.
    Desta maneira, cada vez mais se ir integrando a "leitura" da
realidade, na descodificao das codificaes representadas em
fotografias ou desenhos, com a leitura de textos em sua relao
com o contexto e ambas estas leituras com a prtica da escrita.
Seria da mais alta importncia, por outro lado, a partir da
motivao que o Caderno tem condies de criar, que se estudasse
a possibilidade de uma colaborao estreita entre a Comisso
Coordenadora, o jornal N Pintcha e a Rdio Nacional. Um tipo de
colaborao como a que se vem estudando, no momento, em So
Tom e Prncipe.
    A existncia, no jornal, de uma pgina, a servio dos Crculos de
Cultura,  disposio de seus participantes, alfabetizandos e
animadores ou animadoras, teria um enorme papel a jogar. Pgina
em que se noticiasse o que vem ocorrendo nos Crculos, os
avanos, as dificuldades dos alfabetizandos, as solues
encontradas para algumas delas; em que se publicassem pequenos
textos escritos pelos alfabetizandos bem como snteses das
discusses em torno de certos temas de interes-se nacional. Uma
tal pgina daria um duplo suporte aos alfabetizandos no exerccio
de leitura que seu caderno lhes oferecia. De um lado, algo mais
para ler; de outro, algo que no apenas falaria deles, mas atravs
de que eles falariam.
    Quanto  Rdio, h um mundo de possibilidades a serem
exploradas. Desde programas que levassem ao ar trechos de
debates realizados nos Crculos,  maneira de como foi feito, em
carter experimental, em dezembro passado, -em So Tom, e
sobre cujo contedo membros da Comisso Coordenadora poderiam
debruar-se, analisando-o, at a criao de um programa.vivo e
dinmico, atravs do qual se tentasse motivar os ouvintes a
Organizar, em suas casas, em suas ruas, em seu bairro, Crculos de
Cultura.
    "Um Crculo de Cultura em sua casa", programa inicialmente
transmitido da Rdio mesma, poderia, em funo da motivao dos
ouvintes, deixando a Rdio e deslocando-se aos diferentes bairros
da cidade (no caso de Bissau), ser transmitido, ora da sede de um
Crculo, ora da sede do Comit do Partido. Um tal programa poderia
vir a ter um indiscutvel papel na formao poltica da populao.
    Dois textos aparecem ainda na primeira parte do Caderno. Dois
textos de Amlcar Cabral. O primeiro, entre a dcima oitava e a
dcima nona palavra geradora; o segundo, sobre a unidade da
Guin e Cabo Verde, aps a vigsima e ltima palavra, encerrando,
assim, a primeira parte do Caderno *.
    O segundo momento deste, em dinmica relao com o primeiro
(aprofundando a experincia que nele tiveram os alfabetizandos da
as-sociao entre a "leitura" critica da realidade e a leitura de
textos em sua relao com o contexto, a que juntaram a da
escrita), os situa, cla-ramente, na transio  ps-alfabetizao.
    Deixarei de falar aqui nos aspectos mais metodolgicos que
tudo. isto implica. Nos exercicios de fixao, de reconhecimento, de
supera-o de algumas dificuldades encontradas durante o ato de
conheci-mento iniciado pelos alfabetizandos desde o seu encontro
com a pri-meira palavra geradora. Exerccios que devem ir sendo
realizados na




    *
       importante salientar tambm a existncia, por sugesto de Miguel Darcy
de Oliveira, da equipe do IDAC, na primeira parte do Caderno, de quatro pginas
entre as em que se acham as palavras geradoras, tendo apenas os lugares
indicados para a codificao e as famlias silbicas da possvel palavra geradora
que venha a ser necessria, em funo da realidade onde esteja localizado um ou
outro Circulo de Cultura. Caber, toda vez que uma tal situao ocorra, ao
animador ou animadora e aos alfabetizandos e alfabetizandas preencher os
quadrados em branco com a codificao e as palavras geradoras mais adequadas.
    F.    Professores estagirios da Escola de C. Campo de
Produo. (Fotos do Cento de udio-Visual, Guin-Bissau)
medida em que os educandos, j agora lendo e escrevendo,
comeam a nova etapa de sua busca.
    Em sntese, a segunda parte do Primeiro Caderno de Educao
Popular, que  introduzida por um texto curto, dois ou trs
perodos, objetivo e motivador, consta de oito codificaes, sem,
obviamente, nenhuma palavra geradora, pois que j no  o caso,
s quais se seguem pginas pautadas em branco e quatro textos de
Amlcar Cabral, extrados de seu trabalho sobre formas de
resistncia  a econmica, a poltica, a armada e a cultural.
    As oito codificaes, fotografias, algumas das quais de real
beleza, giram em torno de oito "temas geradores" nacionais  o da
produo, o da defesa, o da educao, sistemtica e assistemtica,
o da sade, o da cultura, no sentido mais amplo da palavra, o do
papel dos trabalhadores, camponeses e urbanos, das mulheres e da
juventude no esforo da reconstruo nacional.
    Os textos de Amlcar Cabral, sobre cuja importncia no 
necessrio insistir, se acham intercalados s codificaes, sem
aparecer, porm, como se fossem suas descodificaes. Estas sero
feitas pelos alfabetizandos com a participao do animador ou
animadora. Primeiro, oralmente; depois, por escrito, para o que
aproveitaro as pginas em branco que se seguem s codificaes.
Pretende-se, com esta prtica, na transio  ps-alfabetizao,
continuar a aprofundar e diversificar, mais e mais, como antes
sublinhei, o ato de conhecimento iniciado na alfabetizao e,
simultaneamente, intensificar o estmulo  expressividade oral e
escrita dos educandos.
    Ao mesmo tempo, porm, pode-se imaginar a riqueza do
material que se recolher durante esta fase. Material que revelar
no apenas o nvel da capacidade dos educandos de expressar-se
graficamente, mas tambm o de sua compreenso da realidade
nacional.
    Alguns desses trabalhos, que nascero nos Crculos de Cultura,
escritos no Primeiro Caderno de Educao Popular, podero vir a
constituir o primeiro volume de uma coleo de textos do Povo, 
maneira de como, quase assim, h anos passados, nasceu tambm
do Povo, em Montevidu, Se Vive Como Se Puede, um livro bonito e
forte. Possivelmente hoje, em Montevidu, um livro proibido...
     importante sublinhar, ainda, que a montagem deste Caderno
(de cujos retoques finais quanto  paginao,  organizao grfica,
 melhor posio das fotografias, ao tipo de letra a ser usada,
Claudius Ceccon, da equipe do IDAC, se encarregou) foi toda ela
realizada em Bissau, com a Comisso Coordenadora, que redigiu os
dois primeiros textos da primeira parte, o que introduz a segunda e
selecionou os de Amlcar Cabral. Terminada a montagem, o projeto
do Caderno foi submetido ao Comissrio Mario Cabral e ao
Camarada Jos Arajo, Secretrio para a Organizao do Partido, a
quem caberia a deciso final para a sua impresso.
    A este Primeiro Caderno de Educao Popular, tudo indica,
outros se seguiro, na medida em que os trabalhos avancem e a
ps-alfabetizao comece a exigi-los.
    O aprendizado que as equipes nacionais vo fazer com a posta
em prtica do Primeiro Caderno lhes abrir os caminhos para os que
viro.
    No poderia deixar, neste P.S., de dedicar, pelo menos duas
pginas,  nossa passagem por C, onde, durante quase trs dias,
Elza, Jlio de Santa Ana, Rgula, uma jornalista Sua, e eu
convivemos, fraternalmente, com os 60 professores estagirios e a
equipe de professores efetivos do Centro Mximo Gorki.
    Preocupava-me, naquele convvio, testar o que dissera sobre o
Centro, nas pginas que, na Introduo deste livro, escrevera,
meses antes, e que trazia comigo. Pginas que re-li,
cuidadosamente, durante o tempo do curto convvio.
     Foi com satisfao que fui constatando que o fundamental do
que havia dito se ia reconfirmando nas entrevistas com a Direo,
nas visitas ao campo de trabalho agrcola, na algazarra alegre com
que, s seis de todas as manhs, os via entregues  preparao
fsica. Nas idas s tabancas em torno do Centro, onde os Crculos de
Cultura continuam funcionando, apesar da existncia de problemas
lingusticos, se bem que no to agudos quanto os de Sedengal.
Nos seminrios regulares, vivos e dinmicos  e no aulas
tradicionais  a que assistimos e cujos debates nos impressionaram
fortemente. Ao escutar as informaes sobre o projeto em que o
Centro se engajou, recentemente, com a colaborao de outra
Sua, Rgula tambm, e que se prope a investigao de aspectos
culturais e histricos da zona, atravs, inicialmente, de entrevistas
com "homens grandes" locais que, ao gravar as recordaes de que
so depositrios, esto gravando a memria coletiva, a memria de
seu povo*. Ao participarmos de uma reunio plenria, o rgo
mximo do Centro, em que li algumas das pginas da Introduo 
as que falavam da experincia de C  e aps o que houve uma
conversa generalizada, cujo tema, a pouco e pouco, se foi fixando
na compreenso do Centro como uma continuidade da experincia
educativa que nasceu e se desenvolveu nas antigas zonas
libertadas, durante a luta. Da, ento, na conversa generalizada, o
retorno a Amlcar Cabral, de quem mais uma vez falavam, mas a
quem, mais uma vez, entendiam como uma Presena e no como
um mito. Falavam de sua viso extraordinria, de sua capacidade
de prever, de seus sonhos, de sua influncia, mas recusavam, uma
vez mais, seguindo o prprio Amlcar, cultuar sua personalidade.
     "Amlcar Cabral no morreu, continua em ns, disse um deles.
Aquilo de que falou est a nascer dia a dia atravs de nosso
trabalho. Muitos dos sonhos que sonhou, sonhos do Povo, sonhos
nossos, esto sendo realizados. O inimigo publicou no mundo a
morte de Cabral, pensando que assim matava o PAIGC. Mas o
PAIGC no morreu. Cabral no morreu. Ns somos todos Cabral."

*
  Pode-se imaginar a importncia de um projeto como este, que enraza cada vez
mais o Centro na rea em que se acha. Mesmo que, no momento, por diferentes
razes, no possa ir mais alm da recolha do material, atravs das entrevistas;
mesmo que, direi mais, falte um maior rigor ao prprio processamento das
entrevistas, a sua validade  indiscutvel.
    Reencontrei, em todos os momentos, o mesmo esprito de
militncia, que est presente nas mais mnimas atividades, nas
menos como nas mais criadoras. Na limpeza do ptio do Centro,
como no cuidado, manh cedo ou sol se pondo, do bananal vioso e
cheio de vida. Na limpeza dos quartos, como no amassar o trigo
com que fazem o po que todos comem. No lavar os pratos e as
panelas, como na participao entusistica nos seminrios. O
mesmo sentido de equipe, de unidade, em que no h lugar para
vedetismos nem privilgios de uns contra os direitos dos demais. A
mesma responsabilidade social e poltica de todos, com relao ao
Centro; do Centro, como um todo, com relao ao Povo, com
relao  luta de reconstruo nacional.
    No h melhor maneira de encerrar estas pginas sobre o re-
encontro recente com o Centro de C e, com elas, este P.S. um
pouco alongado, mas, creio, necessrio, do que citando o que de
um de seus professores ouvimos numa conversa em que, entre
afirmando e indagando, falvamos deste esprito de participao, de
disciplina criadora, de militncia, que vem caracterizado o Centro.
"Todos somos responsveis, no Centro e do Centro", disse-nos ele,
sem mais comentrios.

                                                       Paulo Freire
                                                          Genebra
                                                  Primavera, 1977.
CARTAS  GUINE-BISSAU
"A luta de libertao, que  a expresso mais complexa do vigor
cultural do povo, de sua identidade e de sua dignidade, enriquece a
cultura e lhe abre novas perspectivas de desenvolvimento. As
manifestaes culturais adquirem um contedo novo e novas
formas de expresso. Tornam-se assim um instrumento poderoso
de informao e de formao poltica, no somente na luta pela
independncia mas ainda na batalha maior pelo progresso."

                                                      Amlcar Cabral

"...a dinmica da luta exige a prtica da democracia, da critica e da
autocrtica, a crescente participao das populaes na gesto de
sua prpria vida, a alfabetizao, a criao de escolas e servios
sanitrios, a formao de 'quadros' extrados dos meios
camponeses e operrios, e outras tantas realizaes que implicam
em grande acelerao do processo cultural da sociedade. Tudo isso
torna claro que a luta pela libertao no  apenas um fato cultural
mas tambm um fator de cultura."

                                                      Amlcar Cabral
Engenheiro Mrio Cabral
Comissariado do Estado para Educao e Cultura
Bissau  Republica da Guin-Bissau

                                    Genebra, 26.1.1975

Prezado camarada.

    Recebi, h poucos dias, uma carta de pessoa ligada  Guin-
Bissau em que me dizia haver tido, recentemente, em Bissau, um
encontro com voc e com o camarada Presidente do Conselho do
Estado, no qual se discutiu a possibilidade de uma contribuio a
ser dada por uma equipe, de que eu participasse, ao esforo do
Governo da Guin-Bissau no setor da alfabetizao de adultos.
Sugeria, em seguida, a pessoa referida, que eu lhe escrevesse,
iniciando assim uma conversao em torno de como concretizar-se
tal contribuio.
    Como homem do Terceiro Mundo, como educador com este
mundo comprometido, outra no pode ser a minha posio, como a
dos companheiros com quem trabalho, seno a de oferecer a
contribuio mnima que possamos dar ao povo da Guin-Bissau.
    Considerando, porm, a impossibilidade de uma ida minha, no
momento, a Bissau, para discutir pessoalmente as bases de nossa
participao, consulto-o se lhe seria possvel vir a Genebra por dois
ou trs dias ou, pelo menos, se algum de seus auxiliares poderia
faz-lo.
    Nesse encontro, para o qual estaria livre a partir do dia 19 de
abril, discutiramos no apenas os meios de como viabilizar a nossa
contribuio, mas tambm algumas linhas gerais para um trabalho
de alfabetizao de adultos na Guin-Bissau. Alfabetizao de
adultos que, numa perspectiva libertadora, enquanto um ato
criador, jamais pode reduzir-se a um quefazer mecnico, no qual o
chamado alfabetizador vai depositando sua palavra nos
alfabetizandos, como se seu corpo consciente fosse um depsito
vazio a ser enchido por aquela palavra. Quefazer mecnico e
memorizador, no qual os alfabetizandos so levados a repetir, de
olhos fechados, vezes inmeras, sincronizadamente: la, le, li, lo, lu;
ba, be, bi, bo, bu; ta, te, ti, to, tu, ladainha montona que implica
sobretudo numa falsa concepo do ato de conhecer. "Repete,
repete, que tu aprendes"  um dos princpios desta falsa concepo
do ato de conhecer.
    Na perspectiva libertadora, que  a da Guin-Bissau, que  a
nossa, a alfabetizao de adultos, pelo contrrio,  a continuidade
do esforo formidvel que seu povo comeou a fazer, h muito,
irmanado com seus lideres, para a conquista de SUA PALAVRA. Da
que, numa tal perspectiva, a alfabetizao no possa escapar do
seio mesmo do povo, de sua atividade produtiva, de sua cultura,
para esclerosar-se na frieza sem alma de escolas burocratizadas,
em que cartilhas elaboradas por intelectuais distantes do povo  em
que pese s vezes sua boa inteno  enfatizam a memorizao
mecnica a que antes me referi.
   A alfabetizao de adultos, como a entendemos, se faz uma
dimenso da ao cultural libertadora, no podendo ser, por isso
mesmo, sequer pensada isoladamente, mas sempre em relao
com outros aspectos da ao cultural, tomada em sua globalidade.
Discuti-la significa discutir tambm a poltica econmica, social e
cultural do Pas. Alis, foi esta percepo da interrelao das
parcialidades, na constituio da totalidade, um dos pontos que
sempre me impressionaram em Amlcar Cabral, bem como sua
compreenso critica do papel da cultura na luta de libertao, que
sendo, como ele sublinhou, "um fato cultural,  tambm um fator
de cultura".
   Apesar de reconhecer quo difcil lhe deve ser ausentar-se do
pas por dois ou trs dias, tomo a liberdade de insistir em sua vinda
pelo que ela representa de fundamental para a concretizao de
algo que nos apaixona e desafia.

                                                    Fraternalmente,
                                                       Paulo Freire.
Engenheiro Mrio Cabral
Comissrio de Educao e Cultura
Bissau
                                              Genebra, abril, 1975
Prezado camarada Mrio Cabral,

    Acabo de receber sua carta em que confirma o interesse do
Governo por nossa colaborao.
    No creio necessrio estender-me dizendo-lhe da satisfao com
que a equipe do Instituto de Ao Cultural, IDAC, de que participo,
bem como o Departamento de Educao Mundial das Igrejas, onde
trabalho receberam essa confirmao.
    Na minha primeira carta j lhe havia expressado o desejo de
todos ns de trabalhar com vocs, de dar a nossa contribuio, por
mnima que seja,  busca em que necessariamente se encontram
de uma nova prtica como de uma viso da educao, que
responda aos objetivos que a Guin-Bissau, em processo de re-
criao, exige.
    Ao retomarmos, agora, aps a chegada de sua carta, em termos
mais sistemticos, o trabalho em equipe, com vistas  colaborao
re-ferida, de uma coisa estamos convencidos, no apenas em
funo de nossas experincias anteriores, mas sobretudo devido 
nossa opo poltica,  qual procuramos ser fiis  a de que nada
teremos a ensinar ai se no formos capazes de aprender de e com
vocs. Por isso mesmo  que iremos  Guin-Bissau como
camaradas, como militantes, curiosa e humildemente, e no como
uma misso de tcnicos estrangeiros que se julgasse possuidora da
verdade e que levasse consigo um relatrio de sua visita, quando
no escrito, j elaborado em suas linhas gerais, com receitas e
prescries sobre o que fazer e como. Receitas e prescries que
seriam, para tal misso, a expresso do conhecimento que seus
participantes teriam ganho de suas experincias passadas.
    Em nosso caso, pelo contrrio, o que as experincias de que
participamos ontem, como as em que nos achamos envolvidos hoje,
nos ensinam  que elas no podem ser simplesmente
transplantadas.
    Podem e devem ser explanadas, discutidas, e criticamente
compreendidas por aqueles e aquelas que exercem sua prtica em
outro contexto, no qual somente sero vlidas na medida em que
forem reinventadas.
    Desta forma, a prtica realizada ou realizando-se no contexto A
s se torna exemplar ao contexto B se os que atuam neste a
recriam, recusando, assim, a tentao dos transplantes mecnicos e
alienantes.  to errado o fechamento a experincias realizadas em
outros contextos quanto a abertura ingnua a elas, de que resulte a
sua importao pura e simples. Amlcar Cabral jamais negou a
importncia das experincias positivas de outros contextos, mas
tambm jamais aceitou a sua imitao.
    Deste modo, toda vez que, pessoalmente ai, ou por cartas,
faamos referncias a aspectos desta ou daquela experincia de que
tenhamos diretamente participado ou de que tenhamos informaes
precisas, a inteno ser sempre a de problematizar, a de desafiar.
    Porque atuamos e pensamos assim, nas reflexes que fazemos
aqui, em equipe, no h lugar sequer para um esboo de projeto no
campo de alfabetizao de adultos para a Guin-Bissau. Projeto que
deve ser elaborado ai, por vocs, e a cujo desenho e processo
poderemos dar nossa colaborao, na medida em que comearmos
a conhecer melhor a realidade do Pas.
    Aqui, discutimos, sim, a complexidade da alfabetizao de
adultos, a impossibilidade de tom-la em si mesma como se fosse
vivel realiz-la fora e acima da prtica social que se d na
sociedade; a necessidade, por isso mesmo, de associ-la ao projeto
global da sociedade que se pretende criar e de que a atividade
produtiva  uma dimenso fundamental.
    Discutimos, sim, o carter poltico da alfabetizao, como de
toda educao, carter que demanda dos educadores uma clareza
crescente com relao  sua opo poltica e uma coerncia com
esta opo, em sua prtica.
    Pensamos sobre as experincias realizadas pelo povo nas
antigas reas libertadas do Pais e sob a orientao do PAIGC, no
campo da educao, da produo, da distribuio, da sade. E na
educao colonial herdada e que, em contradio total com os
objetivos da sociedade que se busca criar, deve ser radicalmente
transformada e no simplesmente reformada. Dai que o novo
sistema educacional a surgir no possa ser uma sntese feliz entre a
herana da guerra de libertao e o "legado" colonial, mas o
aprofundamento melhorado e enriquecido daquela. Vale dizer, algo
que resulte da transformao radical da educao colonial.
    Pensamos tambm, por outro lado, nas dificuldades que uma tal
transformao radical coloca, na medida mesma em que no pode
ser fruto de um ato puramente mecnico.
    Pensamos ainda no quo negativo seria para a Guin-Bissau,
tendo em vista os objetivos polticos, sociais e culturais que sempre
orientaram a prtica do PAIGC, a importao de um modelo de
escola, chamada superior, de carter elitista, "formadora" de
intelectuais intelectualistas ou de tcnicos tecnicistas.
    , pois, como camaradas, conversando sempre francamente
com camaradas, que nos dispomos, com humildade, a iniciar a
nossa colaborao ao Governo da Guin-Bissau, atravs, sobretudo,
do Comissariado de Educao e Cultura.
    As bases concretas desta colaborao sero discutidas ai,
quando de nossa primeira visita. Do dilogo entre vocs e ns, em
torno da realidade com a qual teremos tido o nosso primeiro
contacto direto, nascer, ento, o programa mnimo que efetivar a
nossa colaborao.
    Antes, porm, de nossa primeira visita,  possvel que ainda 1he
escreva, dando conta de nossas atividades em Genebra.

                                                    Fraternalmente,
                                                        Paulo Freire

Engenheiro Mrio Cabral
Comissrio do Estado para a Educao e Cultura Bissau
                                               Genebra, 28-7-1975

Prezado camarada,

    Desde fevereiro passado, quando lhe escrevi, pela primeira vez,
falando das possibilidades de uma contribuio do Instituto de Ao
Cultural, IDAC, no campo da alfabetizao de adultos, a que se
junta a do Departamento de Educao do Conselho Mundial de
Igrejas, vimos dedicando algum tempo de nossa atividade a uma
reflexo em torno do problema.
    Na medida em que ns, como sublinhei na carta passada, no
nos vemos como especialistas estrangeiros, mas, pelo contrrio,
nos sentimos comprometidos com a causa da Guin-Bissau, nos
pareceu no s interessante mas necessrio pr o Camarada a par,
pelo menos, de algumas de nossas reflexes. Da, ento, esta carta-
relatrio que ora lhe fao e que, espero, nos ajudar a todos nas
conversas que a teremos, no prximo ms de setembro.
    Nos nossos encontros em Genebra, vimos fixando nossa
preocupao sobre trs reas de reflexo, ligadas entre si:
    a) a de uma primeira aproximao  realidade da Guin-Bissau
atravs do estudo de todos os materiais que obtemos, privilegiando
a obra excepcional de Amlcar Cabral;
    b) a de uma tomada de distncia critica das diferentes
experincias de alfabetizao de adultos de que participamos, direta
ou indiretamente, no Brasil ou em outros pases da Amrica Latina,
no sentido de pensar e repensar as positividades e negatividades
das mesmas. Um tal exerccio nos parece frutfero pelos
ensinamentos que podemos dele retirar, em face do trabalho a ser
realizado na Guin-Bissau, advertidos, porm, como enfatizei na
carta anterior, de que as experincias no se transplantam, se
reinventam.
    c) a do papel que deve jogar a alfabetizao de adultos,
enquanto ao cultural, na construo da nova Guin-Bissau.
    Gostaria de insistir, mais uma vez, em que esta carta-relatrio
no pretende tocar em todos os pontos sobre que temos pensado e
discutido nas trs reas acima anotadas. Ela  muito mais uma
conversa entre camaradas, dai tambm que no v ser to didtica
ou sistemtica quanto sugere a sua primeira pgina.
    Gostaria ainda de salientar que o clima que caracteriza nossas
reunies de estudo no poderia ser outro seno o da curiosidade
critica, o da busca. Nelas, nos desafiamos, ora ao ler um texto de
Amlcar Cabral, procurando decifr-lo em suas implicaes; ora ao
retomar diferentes momentos do processo de alfabetizao de
adultos, em experincias anteriormente vividas.
    Em ltima anlise, tais reunies aqui, to longe da, so uma
introduo ao nosso aprendizado da Guin-Bissau, sem um mnimo
do
qual no ser vivel a nossa colaborao. Aprendizado que ter,
com
a nossa ida ai, sua continuidade em termos mais concretos.
    Quanto mais re-estudamos a obra terica de Amlcar Cabral,
expresso de sua prtica na prtica de seu povo, tanto mais nos
convencemos de que a ela teremos sempre de voltar. Suas anlises
do papel da cultura na luta pela libertao no se reduzem ao
momento histrico da guerra. Na verdade, aquela luta que era, ao
mesmo tempo, como ele dizia "um fato cultural e um fator de
cultura", continua agora, apenas em forma diferente. Ontem, a luta
pela libertao perseguia a vitria sobre o colonizador, atravs da
"libertao das foras produtivas" de que resultassem "novas
perspectivas ao processo cultural" do Pas. Hoje, a libertao como
processo permanente significa no apenas a consolidao da vitria
mas tambm a concretizao de um modelo da sociedade, j em
certo sentido desenhado na etapa da luta.
    Este modelo, que  eminentemente poltico, deve envolver,
necessariamente, um projeto cultural global em que a educao,
nela includa a alfabetizao de adultos, se insere. Projeto cultural
que, sendo fiel, de um lado, s matrizes populares, sem contudo
idealiz-las, seja fiel, de outro, ao esforo de produo do Pas.
    Neste sentido, nos parece que uma ao cultural, desde o nvel
mesmo da alfabetizao de adultos, tem muito o que fazer. Referido

luta pela produo, comprometido com o aumento desta produo,
o trabalho da ao cultural deve ir mais alm, de um lado, da
alfabetizao meramente mecnica; de outro, da capacitao
puramente tcnica dos camponeses e dos trabalhadores urbanos.
Deve ser uma contribuio fundamental ao aclaramento dos nveis
da conscincia poltica do povo. Enquanto numa sociedade
capitalista o treinamento tcnico da chamada mo-de-obra
qualificada implica necessariamente em abafar a conscincia poltica
dos trabalhadores, na Guin-Bissau a produtividade econmica
poder ser to maior quanto mais clara seja a conscincia poltica
das massas populares.
     neste sentido que um Ministrio de Educao, no importa em
que sociedade,  sempre um ministrio eminentemente poltico.
Poltico, se serve aos interesses da classe dirigente, numa sociedade
de classes; poltico, se serve aos interesses do povo, numa
sociedade revolucionria.
    Se percebemos a alfabetizao numa tal perspectiva,
compreendemos como jamais pode ser ela sequer pensada
isoladamente ou reduzida a um conjunto de tcnicas e de mtodos.
Isto no significa que mtodos e tcnicas no sejam importantes.
Significa que aqueles e estas esto a servio de objetivos contidos
no projeto cultural que, por sua vez, se encontra envolvido e
envolvendo os objetivos polticos e econmicos do modelo de
sociedade a ser concretizado. Dai a nfase que sempre demos nos
seminrios de capacitao, no aos mtodos e s tcnicas  mesmo
sem desprez-los  mas  clareza poltica dos educadores. nfase
que se far to mais necessria quando se trate de capacitar jovens
pequeno-
G. Vista parcial de um Crculo de Cultura na zona de C. (Foto do
   Centro udio-Visual, Guin-Bissau)
burgueses que no tenham feito ainda o "suicdio de classe" a que
Amlcar Cabral se refere e que ele fez de maneira exemplar.
    Somente na medida em que os seminrios de capacitao
promovam a unidade da prtica e da teoria, dando nfase  anlise
do condicionamento ideolgico de classe e  necessidade daquele
"suicdio",  que se convertem em verdadeiros contextos de
capacitao. Proporcionando a unidade da prtica e da teoria eles
preparam o "suicdio" que s se d realmente na comunho com as
classes oprimidas, na luta pela libertao. No caso da Guin-Bissau,
hoje, na luta ainda, sem guerra, com o povo, pela criao da nova
sociedade.
    Por isso  que, num seminrio de capacitao de alfabetizadores
na Guin-Bissau, se nos afigura fundamental discutir com os
participantes, antes de analisar dificuldades tcnicas de qualquer
natureza, certas afirmaes de Amlcar Cabral, como as que se
seguem:
    "Outros oradores tiveram a oportunidade de fazer o perfil e o
elogio bem merecido do Dr. Eduardo Mondlane. Ns queremos
simplesmente reafirmar nossa admirao pela figura de Africano
patriota e de eminente homem de cultura que ele foi. Queremos
igualmente dizer que o grande mrito de Eduardo Mondlane no foi
o de sua deciso de lutar pela libertao de seu povo. Seu mrito
maior foi o de haver sabido se integrar  realidade de seu pais, o de
se identificar com seu povo e se aculturar atravs da luta que ele
dirigia com coragem, sabedoria e determinao"
    Ou, em outro momento do mesmo texto, referindo-se, mais
uma vez,  necessidade de identificao dos intelectuais com as
massas populares:
    "Uma reconverso dos espritos  das mentalidades  se revela
indispensvel  sua (dos intelectuais) verdadeira integrao ao
movimento de libertao. Uma tal reconverso  reafricanizao no
nosso caso  diz ele, pode se operar antes da luta, mas no se
completa a no ser no curso daquela, no contacto quotidiano com
as massas populares e na comunho de sacrifcios que a luta
exige."
    Sem esta "reconverso", sobre que Amlcar Cabral sempre
insistiu, no era possvel ao intelectual pequeno-burgus, ontem,
encarnar a luta de libertao e nela "reencarnar-se".
    Sem esta "reconverso" no ser possvel, hoje, a jovens
urbanos, pequeno-burgueses, participar com os camponeses de um
autntico esforo cultural de que a alfabetizao de adultos pode
ser um ponto de partida.
    Sem esta "reconverso" a tendncia do alfabetizador 
alfabetizar     os    alfabetizandos,      transmitir-1hes     "seus"
conhecimentos, sua viso urbanamente deformada. A alfabetizao
deixa de ser um ato criador e se "burocratiza" na repetio
mecnica dos ba-be-bi-bo-bu. Na memorizao de palavras, de
frases, que quase nunca tm nada que ver com a realidade dos
educandos.
    "La, le, li, lo, lu; ba, be, bi, bo, bu; ta, te, ti, to, tu, diz o
educador da repetio, da memorizao enfadonha. Todos comigo!
continua ele. Todos comigo! mais uma vez. Fechem os olhos! De
novo!"
    Na sua posio de classe, ideologizado, o educador no percebe,
mesmo quando verbaliza uma opo revolucionria, que conhecer
no  comer conhecimento, que o ato de ensinar pressupe o de
aprender e vice-versa. Desta forma, se arvora em educador do povo
sem aceitar ser educando do povo.  sua oralidade revolucionria
se contrape uma prtica alienante, reacionria. A Amlcar Cabral
no passaria despercebido este aspecto. Dai que tenha dito que no
movimento de libertao "nem tudo o que reluz  necessariamente
ouro: dirigentes, polticos  mesmo os mais clebres  podem ser
alienados culturalmente".
    Em todas as experincias de que participamos, no Brasil e fora
dele, tivemos que confrontar este problema.
    Observvamos, por exemplo, que a nvel intelectual os
participantes do seminrio de capacitao aceitavam totalmente
nossas anlises em torno da alfabetizao de adultos como um ato
criador, em que os alfabetizandos, por isso mesmo, deveriam
assumir o papel de sujeitos no processo de aprendizagem de sua
lngua e de expresso de sua linguagem. Entendiam e aceitavam,
intelectualmente, que seu papel no poderia ser o de transferidores
de conhecimento, como se fosse eles os que soubessem tudo e os
alfabetizandos os que nada soubessem. Entendiam facilmente
certos procedimentos metodolgicos coerentes com esses
princpios.
    Na prtica, porm, muitos deles, condicionados por sua posio
de classe, pelos mitos de sua "superioridade" em face dos
camponeses e dos operrios urbanos, mitos assimilados em sua
educao, tambm de classe, reduziam os alfabetizandos a meros
depsitos de "seus" conhecimentos. Em lugar de desafiar os
camponeses a fazer a "leitura"
de sua realidade, faziam o seu discurso aos camponeses numa
linguagem que no era a destes.
     Seus erros metodolgicos tinham, pois, uma razo ideolgica. A
 correo dos mesmos exigia algo mais que uma insistncia sobre
 os mtodos em si mesmos. Exigia a reviso permanente de seu
 condicionamento ideolgico de classe.
     Dai a necessidade que tivemos, cada vez maior, de insistir nos
 seminrios de capacitao, na anlise da realidade nacional, na
 clareza    poltica   do    educador,     na    compreenso    dos
 condicionamentos ideolgicos, na percepo das diferenas
 culturais, antes mesmo de discutir tcnicas e mtodos de
 alfabetizao. Da a necessidade que sentimos, tambm, de, nos
 seminrios, unir a teoria da alfabetizao  sua prtica.
     Outro problema com que nos defrontamos residia em como
 conciliar esta necessidade com a exigncia de capacitar
 rapidamente um grande nmero de alfabetizadores. Terminamos
 por nos convencer  mesmo que no tenhamos podido generalizar
  de que o ideal seria comear capacitando 15. Quando esses 15
 estivessem no meio de sua capacitao, instalaramos 15 "Crculos
 de cultura" com 20 alfabetizandos em cada um. Por outro lado,
 impunha-se um debate claro com os 300 alfabetizandos desses 15
 crculos de cultura sobre a importncia de sua contribuio. Eles
 no viriam aos crculos de cultura para receber, passivamente, as
 "letras", como se fossem um presente que os alfabetizadores lhes
 fariam. Viriam aos crculos para ajudar tambm aos alfabetizadores
 a tornar-se alfabetizadores. Sem eles, este aprendizado no se
 poderia dar. Desta forma, desde o comeo, os alfabetizandos
 seriam chamados a assumir o papel de sujeitos no processo de sua
 aprendizagem em que eles, igualmente, ensinavam algo. Ao
 mesmo tempo este contacto direto dos alfabetizadores com os
 alfabetizandos no curso de sua capacitao constitua a matria-
 prima de uma reflexo critica sobre sua experincia imediata,
 alcanando-se assim a unidade entre teoria e prtica.
      Quando os 15 estivessem chegando ao trmino  somente
 aparente  de sua capacitao, comearamos a de mais 15. Estes
 tinham uma vantagem sobre os primeiros  j se iniciavam na
 unidade da prtica e da teoria. Desde o incio de sua capacitao,
 poderiam formar-se observando e refletindo sobre a prtica do
 primeiro grupo. Dias aps, mais 15 crculos de cultura deveriam ser
 abertos, com mais 300 alfabetizandos, com quem se faria a mesma
 discusso antes referida.
      Altamente importante seria a troca de experincia entre os
 membros do primeiro grupo de alfabetizadores e os do segundo.
 Entre eles, a equipe de capacitao iria selecionando quadros de
 capacitadores com os quais se multiplicaria e intensificaria o
 programa.
      J agora, com 30 envolvidos no trabalho de formao, que 
 permanente, receberamos mais 30, com quem se seguiria o
 mesmo ritmo descrito. Depois, 60, depois 100, etc.
     Ainda que no tenha sido generalizada esta prtica, ela foi
positiva onde pudemos segui-la.
     Um outro ponto sobre que nos temos detido tambm em nossa
reflexo em Genebra  o que se refere ao aproveitamento, tanto
quanto a realidade nos permita, de pessoal local para o trabalho de
educao popular. Algumas das melhores experincias de
alfabetizao de adultos que vi no Chile e de que participei tinham
como       educadores   jovens    camponeses     que,    devidamente
capacitados, revelavam uma indiscutvel eficincia. Trabalhavam no
campo, participando do esforo da produo, que no era, para
eles, algo vago. Era um grupo de jovens que no sonhavam com
urbanizar-se. Seus sonhos se identificavam com os de sua
comunidade.
     Apoiado nas experincias de que participei e na anlise de
outras de que no participei  mesmo que reconhea que as
experincias no
se transplantam, se reinventam  no temo dizer que, na hiptese
de
no poder contar:
      I  com camponeses que pudessem ser rapidamente
capacitados,
          como no caso chileno, para o trabalho de alfabetizao,
     II  com jovens urbanos capazes de cometer o "suicdio de
classe"
       e de "saber integrar-se a seu pas e se identificar com seu
povo
preferia dedicar algum tempo  capacitao mais demorada de
camponeses para que se tornassem educadores autnticos de seus
camaradas.
    Finalmente, entre outros tantos aspectos que vm sendo
discutidos por ns e a que no fiz referncia na carta de hoje, h
um outro que nos preocupa: o lingustico. Preferimos, contudo,
discuti-lo pessoalmente, tal a sua complexidade.
    Aguardamos a vinda da camarada Edna Pereira a partir do dia
20 de agosto. Peo-lhe, por favor, confirmar o dia de sua chegada.

                                          Com o abrao cordial de
                                                    Paulo Freire.
Engenheiro Mrio Cabral
Comissariado do Estado para Educao e Cultura Bissau

                                          Genebra, agosto, 1975
Camarada Mrio Cabral,

     Umas poucas palavras, apenas para dizer-lhe o quanto nos
pareceu fundamental o nosso encontro, aqui, com o camarada
Teobaldo, em substituio  camarada Edna que, por motivos
superiores, no pde vir como era esperada.
     Impressionou-nos a segurana com que respondia s nossas
indagaes, no apenas em torno das atividades desenvolvidas no
setor da educao, da produo, da distribuio e da sade, nas
antigas reas libertadas da Guin-Bissau, mas tambm sobre o que
se vem procurando fazer hoje na fase de reconstruo nacional.
     Estamos certos de que as conversaes que mantivemos com
ele,
 durante quatro dias, nos ajudaram imenso em nossa preparao
para a visita que faremos ao Pais no prximo ms.
     Estas conversaes se converteram, em ltima anlise, pela
riqueza de informaes que delas retiramos, numa espcie de
coroamento aos estudos sistemticos que vimos fazendo, desde
fevereiro passado, como introduo a nosso primeiro contacto
direto com a realidade da Guin-Bissau.
     Nestes dias, voc estar recebendo uma carta do IDAC em que
fazemos algumas sugestes para a organizao do nosso programa
de trabalho com vocs, ai, em setembro.

                                                 Fraternalmente,
                                                    Paulo Freire.
Engenheiro Mrio Cabral
Comissariado do Estado para Educao e Cultura Bissau

                                           Genebra, outubro, 1975

Camarada Mrio Cabral,

    Recm-chegados da, escrevo-lhe no apenas para agradecer,
mais uma vez, a voc e aos camaradas com quem trabalhamos
durante nossa visita, a maneira fraterna como nos acolheram, mas
tambm para re-afirmar a satisfao que tivemos de, em dilogo
com vocs, estabelecer as bases para a contribuio mnima que
daremos ao Comissariado de Educao da Guin-Bissau. O nosso
convvio com vocs e o primeiro contacto direto com a realidade do
Pas solidificaram em ns o sentido de compromisso com que
viajamos para a.  preciso dizer, porm, que, na verdade, somos
ns os que 1hes agradecemos pela possibilidade que nos do de
trabalhar com vocs, como camaradas, participando do esforo de
re-criao da Guin-Bissau.
    No seria demasiado dizer tambm o quanto nos emocionamos,
Elza e eu, ao assistirmos aos debates em um dos Crculos de
Cultura das FARP, em que os participantes, escrevendo no quadro
negro palavras e frases, discutiam, lucidamente, a temtica a elas
referida.
    Sabamos que estvamos num Crculo de Cultura das FARP em
Bissau, mas, em certo sentido, era como se estivssemos no Brasil
de anos passados, aprendendo de e com os alfabetizandos e no
apenas a eles ensinando.
    Emocionava-nos o que escutvamos, o que vamos, mas no
nos surpreendia a clareza poltica revelada nos debates. A mesma
clareza com que as equipes do Comissariado de Educao
discutiram conosco a problemtica geral da educao. Clareza que
tende a fazer-se maior na medida mesma em que essas equipes,
sem se perderem em "especialismos", se experimentem na
confrontao dos problemas a serem resolvidos.
    Sabemos todos, vocs e ns, o muito que se tem por fazer, no
sentido de colocar a educao nacional ao servio da nova
sociedade que se pretende criar. Sabemos todos, vocs e ns, que
tal empenho, que no resulta de um ato mecnico, implica na
radical transformao do sistema de educao colonial, sem o que
se frustrar o projeto da nova sociedade.
    A toda esta temtica fundamental, objeto de nossas discusses
a, teremos sempre de voltar.  que, na verdade, como sublinhei na
primeira carta que lhe fiz, no podemos discutir a alfabetizao de
adultos em si mesma.
    De fato, pouco estaramos fazendo se, realizando um trabalho
de alfabetizao de adultos, em si correto, preservssemos, porm,
como voc salientou na ultima reunio que tivemos ai, "um sistema
educacional de carter elitista e verbalista".
    O muito que h por fazer , porm, um desafio a cuja resposta,
com vocs, procuraremos nos dar de forma realmente engajada.
    Em pouco tempo mais, espero, estaremos escrevendo-lhe para
comunicar-lhe, ento, os resultados das conversaes entre o IDAC
e a Commission on Churches's Participation in Development que se
interessa em financiar o programa que elaboramos juntos em
Bissau.
     Vai aqui o abrao amigo para todos vocs de

                                                     Paulo Freire




                                            Genebra, 26.11.1975

Prezado camarada Mrio,
    Antes mesmo que nos chegue sua resposta  carta que lhe
fizemos, assinada por toda q equipe, e em que, ao comunicar-1he a
obteno do financiamento que viabiliza o nosso trabalho comum na
Guin-Bissau, lhe propnhamos o prximo ms de fevereiro para a
nossa primeira visita no ano de 76, escrevo-lhe de novo. Agora,
para dar-lhe algumas notcias em torno do que estamos fazendo em
Genebra, tendo em vista o nosso trabalho comum na Guin.
    Continuamos os nossos estudos em equipe  duas reunies
semanais, alm do tempo que cada um toma sozinho 
aprofundando a compreenso da problemtica guineense, ao
mesmo tempo em que pensamos na preparao de certo tipo de
material que lhes possa ser til, material, porm, que deve ser
testado por vocs. Por outro lado, estamos colecionando
documentao sobre alfabetizao de adultos que iremos
remetendo ao Comissariado.
    H um interesse crescente na Europa por tudo o que ocorre na
Guin-Bissau e Cabo Verde. Em diferentes oportunidades, em Paris,
Estocolmo e Genebra, membros da equipe temos falado dos planos
de trabalho que a se desenvolvem.
    A carta, cuja cpia lhe envio,  uma das vrias que estaremos
encaminhando  equipe de Bissau. Embora reconhea o trabalho
enorme de vocs, seria, contudo, formidvel se a equipe pudesse
acelerar os estudos sobre o manual do animador e se dedicasse a
fundo  preparao do material, objeto da carta em anexo.
    No sei se seria muito pedir-lhe que encontrasse um tempinho
para debater com a equipe o contedo da carta, discutindo os meios
mais rpidos para a produo do material de que ela trata.
    Um abrao para voc, para a Camarada Beatriz, para todos os
camaradas amigos, carinhos para Pansau lhes mandamos todos.

                                                      Paulo Freire
                                 Genebra, 26 de novembro de 1975
                                             (Carta n 1  equipe)

Camaradas Mnica, Edna e Paulo,

    Em nossa carta anterior ao Camarada Mrio Cabral, em que
dvamos noticias concretas em torno das gestes feitas aqui para a
continuidade do nosso trabalho comum, dizamos que outras cartas
se sucederiam quela a propsito de pontos especficos do
programa de ao, ora por um, ora por outro de ns.
    A que ora lhes escrevo estar diretamente ligada ao material
necessrio para o uso dos projetores que sero remetidos
diretamente a Bissau, juntamente com gravadores para o registro
dos debates nos Crculos de Cultura.
    O material referido deve ser usado em "crculos de cultura" cuja
localizao obviamente lhes cabe decidir, de acordo com o que a
realidade a lhes indique.Cremos, contudo, que seria interessante
realizar a experincia no apenas no seio das FARP, mas tambm
numa rea popular de Bissau, com alfabetizandos civis. Desta
forma, poderamos comparar os resultados, no apenas do ponto de
vista da aprendizagem da leitura e da escrita  mais rpida, menos
rpida  mas tambm o contedo dos discursos de ambos esses
grupos  os nveis mais ou menos crticos de percepo da realidade
local e nacional, por exemplo.
    A preparao do material para os projetores vai exigir-lhes algo
mais do que vocs j esto fazendo de maneira correta no campo
da organizao do contedo programtico para a alfabetizao. 
que, at o momento, vocs fizeram a seleo das palavras
geradoras tendo em vista no s a riqueza sociolgica e poltica das
mesmas, mas tambm a sua estrutura fontica. O uso dos
projetores vai requerer agora a preparao de codificaes em que
sero inseridas as palavras geradoras.
    Antes de prosseguir nesta carta, gostaria de sublinhar, num
parntese, que as consideraes tericas que nela farei e que
resultam da reflexo crtica sobre a minha prtica e a prtica de
outros que tenho analisado ao longo destes anos no tm nenhum
carcter dogmtico. Vocs no apenas podem mas devem recriar o
que tem sido feito no campo da alfabetizao de adultos, onde h
um mundo de coisas a serem pensadas e repensadas.
    Voltando ao problema da codificao, em que se inserem as
palavras geradoras, talvez fosse til tom-la, agora, como objeto de
uma anlise critica, discutindo-se sobretudo o seu papel numa
prtica educativo-libertadora. Quando digo numa prtica educativo-
libertadora
estou ressaltando a impossibilidade de codificao neutra (como de
descodificao), o que vale dizer que uma prtica educativo-
dominadora se serve igualmente de codificaes cuja constituio e
objetos se distinguem dos daquela e diante dos quais os educandos
so chamados a assumir uma postura diferente.
    Talvez seja interessante tambm, em lugar de partir de uma
definio  algo sempre difcil de ser feito  da codificao, tentar
sua compreenso atravs da reflexo que faamos em torno do
quefazer educativo em que nos engajamos, iluminados pela opo
poltica que temos, de natureza revolucionria.
    Considerando que a educao, a ao cultural, a animao, no
importa o nome que se d a este processo, implica sempre, ao nvel
da alfabetizao ou da ps-alfabetizao, numa certa teoria do
conhecimento posta em prtica, uma das primeiras questes que
nos temos decolocar diz respeito a essa teoria mesma, ao objeto a
ser conhecido (que constitui o contedo programtico da educao,
na alfabetizao ou na ps-alfabetizao) e ao mtodo de conhecer.
    Em primeiro lugar, a teoria do conhecimento a servio de um
objetivo revolucionrio e posta em prtica pela educao se
constitui na constatao de que o conhecimento, sempre processo,
resulta da prtica consciente dos seres humanos sobre a realidade
objetiva que, por sua vez, os condiciona. Da que entre aqueles e
esta se estabelea uma unidade dinmica e contraditria, como
dinmica e contraditria  a realidade tambm.
    Do ponto de vista de uma tal teoria  e da educao que a pe
em
prtica  no  possvel:
    a) dicotomizar prtica de teoria;
    b) dicotomizar o ato de conhecer o conhecimento hoje existente
      do ato de criar o novo conhecimento;
    c) dicotomizar ensinar de aprender; educar de educar-se.
    Por outro lado, o mtodo coerente com esta teoria do
conhecimento, tal qual o objeto a ser conhecido  a realidade
objetiva   dinmico tambm.
    Ao dar-se na prtica social em que se acham dinamicamente
relacionados:
   I) a luta pela produo,
  II) os conflitos de classe,
 III) a atividade criadora, a educao, numa tal perspectiva,  o
 processo em que, tomando-se a prtica social de que ela  uma
 dimenso, como objeto de conhecimento, procura-se no apenas
 conhecer a razo de ser daquela prtica, mas ajudar, atravs
 deste conhecimento que se ir aprofundando e diversificando, a
 direo da nova prtica, em funo do projeto global da sociedade.
         no    aprofundamento      e   na    diversificao,   jamais
"especialisticista", focalista, deste conhecimento que se acha o
ponto de partida do equacionamento da ps-alfabetizao. Esta no
, por isso mesmo, um momento separado da alfabetizao, mas a
sua continuidade enquanto ato de conhecimento tambm. Neste
sentido, a ps-alfabetizao acha-se anunciada na alfabetizao.
Nesta, o aprendizado da leitura e da escrita, associado ao
necessrio desenvolvimento da expressividade, se faz com o
exerccio de um mtodo dinmico, com o qual educandos e
educadores buscam compreender, em termos crticos, a prtica
social. O aprendizado da leitura e da escrita envolve o aprendizado
da "leitura" da realidade atravs da anlise correta da prtica social.
    Nesta fase, contudo, ao se discutirem aspectos daquela prtica,
os da produo, por exemplo, j  possvel tocar em pontos de
carcter tcnico enquanto a seu como.
    Na ps-alfabetizao, a leitura da realidade social continua, de
forma aprofundada, j agora, porm, associada a um saber fazer
especializado, de natureza tcnica, a que se junta um maior
domnio da linguagem, um conhecimento mais agudo da
organizao econmica e social da histria, da geografia, da
matemtica, etc.etc.
    Havamos falado antes da impossibilidade de separar a prtica
da teoria, o que leva a sociedade que busque viver a unidade
radical entre elas a superar a dicotomia entre trabalho manual e
trabalho intelectual, de que resulta um modelo de educao
totalmente diferente. Modelo em que a escola, qualquer que seja o
seu grau  primrio, secundrio ou universitrio  no se distingue
essencialmente da fbrica ou da prtica de um campo agrcola nem
a elas se justape. E mesmo quando a escola exista fora da fbrica
ou da atividade prtica do campo agrcola, isto no significa,
primeiro, que ela seja uma instncia superior a elas; segundo, que
a fbrica e a atividade prtica do campo agrcola no sejam em si
escolas tambm.  que, numa viso dinmica, a da unidade entre
prtica e teoria, a escola, dentro ou fora da fbrica, no se define
como instituio burocraticamente responsvel pela transferncia
de um saber seleto, mas como um plo ou um momento daquela
unidade. Assim, qualquer que seja o lugar em que, tomando
distncia do contexto concreto, onde uma certa prtica se realiza,
exercemos uma reflexo critica sobre a prtica, temos nele um
contexto terico, uma escola pois, no sentido radical que a palavra
deve ter.
    Agora, podemos comear a falar das codificaes de que
precisamos para o uso dos projetores e cuja preparao deve ser
feita ai por vocs. Elas so representaes de aspectos da
realidade; expressam "momentos" do contexto concreto. Neste
sentido, de um lado, fazem a mediao entre esse contexto e o
contexto terico, no nosso caso, o "circulo de cultura". De outro,
fazem a mediao entre o educador e os educandos, como sujeitos
que buscam conhecer. Por isso  que a codificao, nesta viso
dinmica, no  uma simples ajuda de que o educador se serve
para "dar" uma aula melhor, mas , ao contrrio, um objeto de
conhecimento que o desafia e os educandos.
    De acordo com o canal de comunicao a ser usado, a
codificao
pode ser:
    a) visual
    b) auditiva
    c) tctil
    d) udio-visual  uso simultneo do canal visual e auditivo. A
    visual por sua vez pode ser:
      I) pictrica  pintura, desenho, fotogrfia
     II) grfica  linguagem escrita
    III) mmica*  expresso do pensamento por meio de gestos.

*
 Numa simples nota ao p da pgina gostaria de deixar aqui uma indagao que
me fao e que pode talvez no futuro abrir-nos certos files de estudo. Refiro-me
ao possvel potencial que a mmica, como expresso corporal, possa ter em
culturas em que o corpo no foi submetido a um intelectualismo racionalizante.
   A codificao pode ser simples e complexa, conforme se use um
s canal ou mais de um simultaneamente. Enquanto linguagem, no
necessariamente escrita, toda codificao  sempre um discurso a
ser lido. Neste sentido, ela tem uma "estrutura de superfcie" e uma
"estrutura profunda" em dinmica relao uma com a outra. A
"estrutura de superfcie"  o conjunto de elementos que, em
interao, a constitui. A "estrutura profunda" no est visvel;
emerge na medida em que se verticaliza a leitura  a descodificao
 da codificao, ou, mais precisamente, da sua "estrutura de
superfcie". Ela tem que ver com a razo de ser dos fatos que se
acham meramente expostos, mas no desvelados, na "estrutura de
superfcie". Talvez possamos compreender melhor a "estrutura de
superfcie" e a "estrutura profunda" de uma codificao se
entendemos a diferena entre a leitura gramatical de um texto e a
leitura sinttica do mesmo. Tomemos, por exemplo, do ponto de
vista gramatical e sinttico o seguinte texto: Desejo que vocs
faam um bom trabalho.
    Na leitura puramente gramatical deste texto, minha preocupao
ser a de tomar suas partes em si e classific-las. Meu
comportamento
ser taxionmico*. Assim diria:
    Desejo  verbo desejar, regular, primeira pessoa do singular do
tempo presente do modo indicativo
    que  conjuno integrante
    vocs  forma pronominal  3 pessoa do plural
    faam  verbo fazer, irregular, terceira pessoa do plural do
tempo
           presente do modo subjuntivo
    etc. etc.
    Do ponto de vista sinttico, meu comportamento seria diferente.
Minha preocupao neste caso seria, de um lado, a de compreender
a
totalidade do texto, delimitando-o em suas partes que, em
interao, constituem a totalidade; de outro, perceber o papel que
os termos




Em que as grandes maiorias no se experimentaram ainda no maior rigor lgico
da linguagem escrita, de que decorre no raro a mitificao do poder dessa
linguagem, que, de resto, devemos evitar desde a etapa da alfabetizao. Em
que o corpo consciente, encontrando-se em maior liberdade em suas relaes
com a natureza, move-se facilmente de acordo com seus ritmos. Neste sentido
talvez fosse interessante pensar no emprego de jogos mmicos, como
codificaes e, nas codificaes pictricas, dar nfase ao movimento. Repito que
isto so puras indagaes, so pistas apenas.
  *
     Taxionomia  parte da gramtica que classifica as palavras em categorias.
Palavras variveis; palavras invariveis. Substantivo, adjetivo, pronome, verbo,
advrbio,
etc.
H. Estudantes do Liceu de Bissau a caminho do campo para
   trabalho produtivo. (Foto do Centro udio Visual, Guin-
   Bissau)
assumem aa estrutura geral do texto. Desta forma, reconheo a
relao de complementaridade que h entre vocs faam um bom
trabalho e desejo. Neste sentido, vocs faam um bom trabalho  o
objeto, o complemento direto de desejo, que, enquanto expresso
de um certo estado que no se completa em si mesmo,  um verbo
transitivo. A sentena desejo tem como sujeito eu; a sentena
complementar tem como sujeito vocs, e assim por diante.
   Na anlise sinttica, portanto, a classificao que se faz j no 
a das palavras em si mas a das funes que tm entre elas, na
estrutura
geral do contexto que expressa um pensamento estruturado.
   Se tomamos uma codificao que representa homens e mulheres
trabalhando no campo, sua estrutura de superfcie sero os
elementos
nela expostos; sua estrutura profunda vem  tona quando,
aprofundando-se a anlise da estrutura de superfcie, se discute a
razo de ser do fato codificado.
   A primeira reao de quem se pe em face de uma codificao 
fazer a leitura de sua estrutura superficial. Leitura puramente
gramatical, taxionmica, poderia dizer, em que se descrevem os
elementos da codificao.  a partir desta leitura, contudo, que se
vai alcanando o nvel profundo da codificao, em cujo processo o
educador nem deve exacerbar, de um lado, sua presena, a tal
ponto que a presena dos educandos seja um puro reflexo da sua,
nem, de outro, se deve negar, como se tivesse vergonha de ser
educador.
   Fundados na compreenso crtica da estrutura superficial e da
estrutura profunda da codificao, podemos, no ato de codificar,
nos defender de dois riscos. O primeiro, o que reduz a codificao a
uma mensagem a ser transmitida quando ela , na verdade, um
objeto de conhecimento, portanto um desafio, um problema a ser
desvelado. O segundo, o de transformar a codificao numa espcie
de "quebra-cabea".
    No primeiro caso, identificando-se com a prpria mensagem, o
cdigo torna-se de tal maneira explicito que o esforo
descodificador se faz quase desnecessrio. A codificao j est
praticamente     descodificada     nela    mesma.     A    codificao
propagandstica  exemplar para ilustrar o que acabo de dizer. Da o
seu carter domesticador.
    No segundo caso, a estrutura de superfcie da codificao
apresenta uma composio de tal forma enigmtica, fechada, que
obstaculiza o trabalho descodificador.
    Do ponto de vista do estilo, as codificaes podem ser cmicas e
humorsticas. Se ambas provocam riso, desabafo, tendo ambas um
papel catrtico, se distinguem, contudo, em que as primeiras
tendem a deixar o descodificador ao nvel da estrutura de superfcie
e as segundas facilitam o alcance da estrutura profunda da
codificao.*
As codificaes e as palavras geradoras
*
    O trabalho de Claudius Ceccon se situa exatamente no segundo caso.
    Escolhidas as palavras geradoras segundo os critrios j
conhecidos de vocs, elaboram-se as codificaes em que elas so
inseridas. H uma relao necessria entre a palavra geradora e a
codificao. s vezes, esta relao se faz entre a palavra e a
codificao em seu todo; s vezes, a palavra est referida a uma
certa dimenso da codificao.
    Exemplo do primeiro caso:
    Palavra geradora  TRABALHO

     Codificao: Homens e mulheres trabalhando.
     Exemplo do segundo caso:
     Palavra geradora  TIJOLO
     Codificao: Homens trabalhando numa construo, em que o
               objeto tijolo aparece em plano privilegiado.
    O trabalho de vocs, portanto, deve ser a preparao deste
material, quer dizer, das codificaes correspondentes s 17
palavras geradoras que constituem o programa de alfabetizao a
ser desenvolvido nos crculos experimentais.
    Segue, como exemplo, uma srie de slides usados no Brasil, com
a palavra geradora na codificao correspondente e os slides em
que a palavra aparece decomposta em silabas.
    Segue igualmente uma outra srie de slides que se acham
reproduzidos em Educao como prtica da Liberdade e que, na
prtica brasileira, proporcionavam a discusso em torno do conceito
de cultura. Tal discusso em ltima anlise implica na apreenso
crtica das relaes entre os seres humanos e o mundo natural, de
cuja transformao resulta o mundo especificamente humano  o
mundo da cultura e da histria.
     No Brasil esta discusso precedia a alfabetizao e continuava
com ela. No Chile, sobretudo devido  reao dos alfabetizandos
que exigiam comear imediatamente a aprendizagem da escrita e
da leitura, este debate era feito durante a alfabetizao. Importante
 que se faa esta anlise.
     Talvez fosse interessante testar algumas destas codificaes
brasileiras  as que melhor se adaptem  realidade local  com
alguns grupos de alfabetizandos, e estudar sua reao.
     No caso em que vocs faam tal experincia, ser importante
gravar as discusses, a cuja anlise crtica a equipe ai deve dedicar-
se. Quando de nossa prxima visita  Guin-Bissau, uma de nossas
sesses de trabalho poderia ser centrada no estudo dessas
gravaes bem como no mltiplo uso do discurso dos
alfabetizandos, de que algo j tratamos a em setembro passado.
     Um outro ponto sobre que poderemos tambm trabalhar juntos
em Bissau em fevereiro prximo, se o Camarada Mrio Cabral
confirmar as datas propostas por ns,  o de como motivar os
alfabetizandos para que faam tambm codificaes em equipe,
cabendo a cada equipe que tenha elaborado uma ou mais
codificaes coordenar os debates em torno delas.
     Assim que recebamos o material de vocs  as codificaes e as
palavras geradoras decompostas  providenciaremos aqui a feitura
dos conjuntos de slides que comporo o programa para os crculos
de leitura.
    Finalmente, vamos remeter-1hes nestes prximos dias
fotocpias dos textos que constituem um livro meu a ser publicado
no prximo ano e de que lhes falei a.  possvel que alguns deles
lhes interessem. Quanto ao problema da codificao, por exemplo,
vocs encontraro algo num deles: "Ao Cultural para a
Libertao"* e na Pedagogia do Oprimido** tambm.Recebam um
abrao afetuoso de todos ns.

                                                                    Paulo Freire




*
  Publicado em Ao Cultural para a Liberdade e Outros Escritos, Paz e Terra, Rio,
l976. (N. do E.)
**
     Paz e Terra, Rio, l977 (4 ed.). (N. do E.)
                                  Genebra, 6 de dezembro de 1975

Camarada Mrio Cabral,

    Recebi, h dias, sua carta, em que acusa a em que lhe
comunicvamos a obteno do financiamento da C.C.P.D. para a
continuidade de nosso trabalho ai, bem como a contribuio que o
Departamento de Educao do W.C.C. d a nosso projeto, pondo-
me  disposio do mesmo.
    Espero que lhe tenha chegado a que lhe remeti no ms passado
e  qual juntava cpia da que fizera  Mnica, Edna e Paulo.
    Hoje lhe envio a de outra que acabo de escrever-lhes.  que me
parece que voc deve estar sempre a par da correspondncia que
mantenhamos com a equipe em Bissau, acompanhando, assim, os
passos que estamos dando.
    Ser que j he foi possvel, com o ritmo to intenso de trabalho
que voc tem, instaurar a Comisso Nacional que com voc
discutir a.poltica geral da campanha de alfabetizao? Seria
excelente se, em nossa prxima visita, em fevereiro de 1976,
pudssemos reunir-nos, pelo menos uma vez, com a Comisso.
    Meu caro amigo perdoe-me por estas insistncias. Elas so
feitas pelo desejo de servir.
    Para voc e todos os camaradas, o abrao ao amigo

                                                        Paulo Freire
                                   Genebra, 6 de dezembro de 1975
                                                      (Carta n 2)

Prezados camaradas e amigos Mnica, Edna e Paulo

    Espero que tenham recebido a carta que lhes enviei atravs do
camarada Mrio Cabral e em que lhes falava das codificaes para a
experincia ai, com os projetores. Espero igualmente que o trabalho
de vocs em torno do manual do animador esteja adiantado e que,
em breve, o recebamos.
    Seria, por outro lado, do mais alto interesse para ns, se vocs,
superando todas as dificuldades, que sei grandes, decorrentes do
mundo de coisas que tm a fazer, nos remetessem um relatrio
pormenorizado de tudo o que foi feito depois de nossa estada em
Bissau. O prosseguimento das atividades nas FARP; se os novos
coordenadores, em processo de formao quando estvamos a, j
se acham em ao e como anda o trabalho deles.
    Se a memria no me falha, creio que Marcos Arruda, em sua
recente carta a Paulo, faz um pedido semelhante.
    No sei se vocs estaro tendo tempo de realizar, em forma
sistemtica, seminrios de avaliao com os animadores, em que
vocs e eles examinem a prtica de todos  as dificuldades
encontradas e a maneira como tentam responder a elas. H
dificuldades que se repetem, de modo geral, em todos os crculos e
 importante que os animadores se informem entre si de como cada
um as vem enfrentando. Desta maneira, h um aprendizado comum
que estimula intensamente a criatividade de todos.
    Nestes seminrios, por exemplo, podem ser analisados e
discutidos certos desvios autoritrios de uns coordenadores, como
certos desvios espontaneistas de outros. Desvios que dificilmente
podem ser de todo evitados, a no ser quando trabalhamos com
dez ou quinze pessoas apenas, o que de resto no tem sentido.
     Estes seminrios de avaliao poderiam contar, tambm, com a
presena de grupos de alfabetizandos. Sua presena neles se
justifica por duas razes bsicas. De um lado, porque, em tais
seminrios, se discute uma prtica em que eles se acham
envolvidos como sujeitos, tanto quanto os coordenadores; de outro,
porque atravs destas reunies podem aprofundar sua formao.
Entre eles, vocs tero novos coordenadores para amanh. O
prprio manual do animador, que vocs esto elaborando, deveria
passar pelo crivo de tais seminrios.
     Caso vocs no tenham ainda pensado neste tipo de atividade e
se concordam em realiz-la, a questo que se coloca  a de
encontrar a melhor maneira de operacion-la, no esquecendo,
sugeriria, de gravar as discusses.  que a gravao das discusses
constitui, em si, um documentrio importante, que permite estudar
o andamento do trabalho, podendo ser usada, tambm, em
seminrios de avaliao entre diferentes grupos.
     A tarefa avaliadora aqui referida  um esforo formador e, como
tal, indispensavelmente ligada  investigao de novas formas de
ao. Enquanto problematizao da prtica, esta forma de avaliao
 o seu momento crtico. Momento em que os sujeitos da prtica se
voltam sobre ela para confirm-la ou retific-la, neste ou naquele
aspecto, enriquecendo a subsequente prtica e nela enriquecendo-
se. Dai a necessidade que temos, quando participamos de uma
equipe central, de no apenas acompanhar, assiduamente, as
atividades dos Crculos de Cultura, mas tambm de coordenar, de
vez em quando, as discusses em alguns deles. Assim, a nossa
participao nos seminrios de avaliao, em que a prtica
realizando-se nos Crculos  o objeto da anlise, no  a
participao de estrangeiros a essa prtica nem a de "semi-
conviventes" com ela, isto , a de quem simplesmente tivesse visto
como os outros trabalham.
     possvel, porm, que vocs j estejam usando ou pensando
em usar um mtodo diferente de avaliao, No importa. O
indispensvel , primeiro, que se faa a avaliao permanente do
trabalho em realizao. Segundo, que a avaliao jamais se
transforme em fiscalizao.
    Estou remetendo, por correio areo, os textos prometidos, cuja
leitura, estou certo, vocs faro tomando sempre, como referncia,
a realidade guineense.
    Aguardando noticias de vocs, vai aqui o abrao de
                                                        Paulo Freire
Engenheiro Mrio Cabral
Comissariado do Estado para Educao e Cultura
Bissau

                                    Genebra, 5 de janeiro de 1976
Camarada Mrio,

    Mais uma vez, estou remetendo a voc cpia de outra carta,
bastante longa desta vez, que fiz aos camaradas Mnica, Edna e
Paulo.
    Creio que a temtica tratada tem que ver com a realidade da
Guin-Bissau, o que no significa, porm, que voc e eles
concordem totalmente com o que digo.
    Talvez fosse interessante discutir, em equipe, em fevereiro
prximo, os seus pontos principais.
    Estou enviando junto  sua, uma outra cpia que lhe pediria
entregasse  camarada Dulce, do ensino mdio.  possvel que a
carta interesse a ela tambm.
    Estamos ansiosos por chegar ai para rev-los e beber um
pouco dessa alegria de viver, coisa to carente nestas bandas de
c.
Um abrao para todos.

                                                      Paulo Freire
                                     Genebra, 5 de janeiro de 1976
                                                      (Carta n 3)

Camaradas Mnica, Edna e Paulo,

    Talvez no fosse necessrio dizer, mas, em todo caso, ser bom
enfatizar que, ao escrever mais ou menos assiduamente a vocs,
no pretendo, de um lado, burocratizar nossas relaes; de outro,
emprestar s minhas cartas nenhuma significao prescritiva.
Escrevo sempre pela necessidade que tenho de conversar com
vocs sobre pontos que nos interessam, em vista do trabalho em
que nos achamos engajados.
    Ao escrever-lhes, naturalmente, pretendo desafi-los, mas, ao
faz-lo, me desafio tambm. No nos  possvel desafiar a algum,
em termos autnticos, se, ao mesmo tempo, no nos damos ao
desafio. s vezes, me detenho diante de uma palavra, diante de
uma frase, perguntando-me se o que estou escrevendo expressa
mesmo o que gostaria de dizer e se, sobretudo, o que estou
dizendo tem que ver realmente com o concreto sobre que estou
pensando.
    No caso de hoje, gostaria de tocar em alguns dos problemas
com que nos defrontamos quando, envolvidos na prtica e na teoria
da alfabetizao de adultos, nos indagamos sobre o que a ela se
segue.
    No pretendo uma anlise pormenorizada da ps-alfabetizao,
mas uma tomada de posio diante dela, que corresponde  viso
que tenho da alfabetizao. Na verdade, as preocupaes em torno
da ps-alfabetizao esto intimamente ligadas  prtica e 
concepo que se tenham da alfabetizao.
    Todas s vezes em que tenho discutido o problema da
alfabetizao de adultos tenho sublinhado que, numa perspectiva
libertadora, ela h de ser sempre um ato criador, em que o
conhecimento livresco cede seu lugar a uma forma de conhecimento
que provm da reflexo critica sobre uma prtica concreta de
trabalho. Dai a insistncia, tambm, com que sempre falo da
relao dialtica entre o contexto concreto em que tal prtica se d
e o contexto terico, em que a reflexo critica sobre aquele se faz.
    Numa tal viso prtico-terica da alfabetizao jamais pode ser
ela entendida como o momento de um aprendizado formal da
escrita e da leitura, como uma instncia primeira, justapostamente
ligada s seguintes. Ou, tambm, como uma espcie de
"tratamento" a ser aplicado aos que dele necessitem para que, em
seguida, recuperados de sua "enfermidade", possam experimentar-
se numa "aventura superior", de carter igualmente livresco  a
ps-alfabetizao.
    Como a entendo, a alfabetizao de adultos j contm, em si, a
ps-alfabetizao. Esta continua, aprofunda e diversifica o ato de
conhecimento que se inicia naquela. No so, pois, dois processos
separados  um antes, o outro depois  mas dois momentos de um
mesmo processo social de formao. E este, no importa o nome
que se lhe d  educao, ao cultural, animao  implica
sempre, na alfabetizao tambm como na ps-alfabetizao, numa
certa teoria do conhecimento posta em prtica.
   Que conhecer, como conhecer, para que conhecer, em favor de
que e de quem conhecer, portanto, contra que e contra quem
conhecer so questes terico-prticas e no intelectualistas, que a
educao como ato de conhecimento nos coloca. Questes
fundamentais, em dinmico envolvimento com outras em torno do
ato mesmo de educar, de sua possibilidade, de sua legitimidade,
dos objetivos e finalidades desse ato, de seus agentes, de seus
mtodos, de seu contedo.
   Solidrias entre si, estas questes demandam respostas
igualmente entre si solidrias. Assim, ao preocupar-me com o que
conhecer, acho-me necessariamente envolvido com o para que,
com o como, com o em favor de que e de quem, com o contra que
e contra quem conhecer.
   Gostaria de salientar no ser o objetivo desta carta tratar as
questes acima referidas sistemtica e profundamente, como sua
simples enumerao poderia sugerir. Chamar a ateno para elas e
sobre elas algo dizer so o marco em que me situo nesta carta.
   A resposta  pergunta em torno do que conhecer, tendo que ver
diretamente com a constituio do contedo programtico da ao
educativa, envolve uma srie de ngulos que no podem ser
descuidados. ngulos em que o para que, intimamente ligado ao
como, ao em favor de que e de quem, ao contra que e contra quem
conhecer  o centro orientador mesmo da delimitao do que
conhecer.
   Desta forma, a delimitao do que conhecer, sem a qual no 
possvel a organizao do contedo programtico da ao
educativa, est estreitamente associada ao projeto global da
sociedade, s prioridades que esse projeto exige e s condies
concretas para a sua realizao.
   Ao falar de projeto global da sociedade no fao como se
estivesse tomando-o como uma idia abstrata, um desenho
arbitrrio, algo acabado na imaginao de uma liderana. Refiro-
me, sim, a um certo nmero de metas, solidrias entre elas e
coerentes com um certo objetivo no campo da organizao
econmica e social; no da distribuio interna como no do comrcio
externo; no das comunicaes e transportes; no da cultura; no da
sade; no da educao em geral, que a esse objetivo deve servir.
Metas realizveis em etapas e que envolvem uma poltica de
planejamento global e polticas especificas para a sua realizao.
   A prtica em busca da concretizao das metas pode retificar,
neste ou naquele ponto, o desenho do projeto, 'mas no prescinde
dele, enquanto previso. Dai que a delimitao do que conhecer
para a organizao do contedo programtico da ao educativa
demande de todos os que nela se envolvem, em qualquer de seus
planos, uma clareza poltica a qual, no sendo em si suficiente, 
absolutamente indispensvel. Clareza poltica, acrescente-se, com
relao ao para que, ao como e ao em favor de quem se faz a
prpria poltica. Uma coisa  a poltica feita, em todos os setores,
por uma rgida burocracia, em nome das massas populares, a quem
se transmitem palavras de ordem; outra coisa  a poltica feita com
elas, com a sua participao criticamente consciente na
reconstruo de sua sociedade, em que as palavras de ordem,
necessrias, jamais, porm, se transformam em puros "slogans".
    ainda esta clareza poltica, em face da realidade e da prpria
educao, clareza associada  permanente vigilncia no sentido da
preservao da coerncia entre nossa prtica e o projeto da nova
sociedade, que nos faz evitar o risco de reduzir a organizao
curricular a um conjunto de procedimentos tcnicos de carter
neutro. A organizao do contedo programtico da educao, seja
ela primria, secundria, universitria ou se d ao nvel de uma
campanha de alfabetizao de adultos,  um ato eminentemente
poltico, como poltica  a atitude que assumimos na escolha das
prprias tcnicas e dos mtodos para concretizar aquela tarefa. O
carter poltico de tal quefazer independe da conscincia que
tenhamos dele ou no. O saber como delimitar o que conhecer no
pode estar separado do para que conhecer como das demais
implicaes deste ato, a que j me referi. No h, por isso mesmo,
especialistas neutros, "proprietrios" de tcnicas tambm neutras,
no campo da organizao curricular ou noutro qualquer. No h
metodologistas neutros para ensinar como ensinar neutramente
histria ou geografia, lngua nacional ou matemtica.
   Neste sentido, a delimitao do que conhecer para a organizao
do contedo programtico da educao, numa sociedade que,
recm saindo de sua dependncia colonial, com tudo o que isto
significa, se acha revolucionariamente empenhada na luta por sua
reconstruo,  uma tarefa das mais importantes. Esta delimitao
do que conhecer no se esgota, porm, na substituio de certo
tipo de contedo programtico por outro, que corresponda mais de
perto aos objetivos da sociedade em reconstruo. Mesmo que
reconhea que este esforo , s vezes, durante certo tempo, o
nico possvel,  fundamental enfatizar que no basta mudar o
contedo programtico, mantendo-se, contudo, a prtica anterior,
renovada num ou noutro aspecto: o mtodo de conhecer nela
experimentado e o sentido elitista que a informa.
   A preservao do carter elitista da educao, com tudo o que
ele implica, tem sentido para a sociedade que, saindo de sua
dependncia colonial; se insere numa dependncia neocolonial e 
"governada" por uma elite dominante nacional, atrelada aos
interesses imperialistas. Este no , sem sombra de dvida, o caso
da Guin-Bissau.
   A questo de fundo, pois, no est em apenas substituir um
velho programa adequado aos interesses do colonizador por um
novo, mas em estabelecer a coerncia entre a sociedade
reconstruindo-se revolucionariamente e a educao como um todo
que a ela deve servir. E a teoria do conhecimento que esta deve pr
em prtica implica num mtodo de conhecer antagnico ao da
educao colonial.
   Um dos riscos que uma tal sociedade corre, ao procurar
responder ao desafio que a sua reconstruo lhe coloca,  o de
aceitar certos modelos modernizantes do ocidente. Entre eles,
naturalmente, o modelo educativo, de carter classista, como se
fosse possvel, atravs deste modelo, resolver o problema da
carncia de quadros nacionais, de grau mdio e universitrio,
necessrios ao esforo enorme e complexo da reconstruo de si
mesma.
    Precisamente porque este  um risco, s o  para a sociedade
que procura refazer-se revolucionariamente. Assim, o que  risco
para esta  o caminho certo para a liderana antipopular da outra, a
que se entrega aos interesses imperialistas.
    A carncia referida , porm, uma negatividade que tem sua
positividade. Admitindo-se que o colonizador tivesse desenvolvido
uma ao, mesmo pouco intensa, no setor da capacitao
universitria, esta ao s poderia ter sido efetivada em funo de
seus interesses, por isso mesmo seletiva e colonialista, tal qual a
educao que se desenvolveu nos liceus das reas urbanas do pas,
na fase colonial.
    Atingindo uma certa faixa populacional, tal capacitao reforaria
a posio de classe dos graduados, que passariam a engrossar as
fileiras de uma intelectualidade urbana, a servio do colonizador.
Analisando o papel de um pequeno grupo desses intelectuais na luta
pela libertao de paises, Amlcar Cabral se referia  necessidade
que eles tinham, para desempenhar tal papel, de "ser capazes de se
suicidar como classe para renascer como trabalhadores
revolucionrios inteiramente identificados com as aspiraes mais
profundas do povo ao qual pertencem"*, o que ele fez de maneira
exemplar. A "re-africanizao" desses intelectuais, sobre que tanto
insistiu tambm Amlcar, estava implcita nesta "morte" e neste
"renascimento".
    Acontece, porm, que esta "morte" no  aceita facilmente  a
histria nos ensina  mesmo por grande parte daqueles que
verbalizam uma opo revolucionria. A "formao" intelectual
pequeno-burguesa, que refora a posio de classe dos indivduos,
tende a lev-los  absolutizao da validade de sua atividade,
considerada como superior  daqueles que no a tm.
    Dai que, toda vez que uma liderana revolucionria, delimitando
o campo, por exemplo, da investigao cientfica, suprime qualquer
atividade cujos resultados imediatos no sejam capazes de
responder aos desafios mais prementes que os problemas das
grandes maiorias populares apresentam, esses intelectuais se
sintam discriminados e sem liberdade.
    Neste sentido, h muita coisa a ser estudada, feita e refeita, na
Guin-Bissau, antes que um investigador se dedique  anlise
cientfica das razes por que esse simptico animal que temos no
Brasil e certamente na Guin, chamado Preguia, se move to
lentamente. H um esforo a ser feito na Guin, no trabalho da
coleta de contos e estrias populares a serem usados como textos
de leitura para crianas e adultos, antes que um erudito professor
de literatura "d" seminrios sobre Mallarm e o Simbolismo.

   Em ltima anlise, estou convencido de que  mais fcil criar um
novo tipo de intelectual  o que se forja na unidade da prtica e da
teoria, do trabalho manual e do trabalho intelectual  do que re-

*
 Amilcar Cabral  Unit et Lutte I, L'arme de la Thorie, Cahiers Libres, Maspero,
Paris, l975, pg. 303.
educar o intelectual elitista. Quando digo que  mais fcil, no
excluo a possibilidade de uma tal re-educao, quando for este o
caso.
   O problema que se coloca, pois, a uma sociedade assim, no  o
de continuar formando intelectuais elitistas para que depois se
"suicidem", mas o de no permitir que eles se constituam como
tais. O de como, portanto, tornar positiva a negatividade antes
mencionada. O de como formar seus quadros, no apenas fora do
pas, mas dentro dele, numa perspectiva no elitista. O de como
delimitar o que conhecer em relao estreita com novos mtodos
pedaggicos. Em ltima anlise, o de como reorientar o seu sistema
educacional superando totalmente a herana colonial. Diferentes
objetivos, diferentes contedos, diferente prtica, diferente
concepo da educao.
   A delimitao do que conhecer, ao nvel mesmo da alfabetizao
de adultos, quer dizer, a constituio de seu contedo
programtico, no pode ser pensada fora dos marcos da re-
orientao do sistema educacional global que, por sua vez, tem de
estar em correspondncia com o projeto da nova sociedade. Se o
sistema educacional segue o modelo elitista, verbalista, autoritrio,
que satisfazia os interesses dos colonizadores, embora reformado
neste ou naquele ponto, a alfabetizao de adultos, no importa a
orientao que tenha, terminar por ser uma via de acesso para
alguns aos privilgios que o sistema defender.
    Desta forma, discutir a alfabetizao de adultos e a ps-
alfabetizao implica em discutir a educao em sua globalidade. E
discutir esta, repita-se, significa pensar o projeto global da
sociedade.
    Enquanto a educao colonial tinha como um de seus principais
objetivos, ao lado da "desafricanizao" dos nacionais, a preparao
de quadros subalternos para a administrao, agora o importante 
a formao do homem novo e da mulher nova, a que se associa a
criao daquele novo tipo de intelectual a que antes me referi. E
no  com o que a sociedade em reconstruo herdou do
colonizador que ela poder cumprir esta fundamental tarefa.
    A vigilncia como atitude permanente numa sociedade que
assim busca refazer-se tem, neste domnio  o da cultura, o da
formao de seu povo  no importa o campo em que esta se d,
uma dimenso chave. "No plano da cultura como no da poltica",
disse Cabral, "a vigilncia  indispensvel".* Por isso, qualquer
descuido nesta vigilncia pode vir a ser fatal ao projeto da nova
sociedade. E se esta, ao refazer-se, caminha no sentido do
socialismo, necessita, de um lado, de ir organizando o modo de
produo com vistas a este objetivo; de outro, de ir estruturando
sua educao em estreita relao com a produo, quer do ponto
de vista da compreenso mesma do processo produtivo, quer do
ponto de vista da capacitao tcnica dos educandos.
    Neste sentido, o homem novo e a mulher nova a que esta
sociedade aspira no podem ser criados a no ser atravs do
trabalho produtivo para o bem-estar coletivo. Ele  a matriz do
*
    Amlcar Cabral  Obra citada, pg. 324.
conhecimento em torno dele e do que dele desprendendo-se a ele
se refere. Isto significa, permitam-me repetir, que uma tal
educao no pode ter um carter seletivo, o que a levaria, em
contradio com os objetivos socialistas, a fortalecer a dicotomia
entre trabalho manual e trabalho intelectual. Pelo contrrio, impe-
se a superao desta dicotomia para que, na nova educao, a
escola primria, secundria, universitria, no se distinga
essencialmente da fbrica ou da prtica produtiva de um campo
agrcola, nem a elas se justaponha. E mesmo quando, enquanto
contexto terico, se ache fora da fbrica ou do campo agrcola, isto
no signifique que ela seja considerada como uma instncia
superior aqueles nem que aqueles no sejam em si escolas
tambm.
    Numa viso dinmica, a da unidade da prtica e da teoria, a
escola jamais se define como uma instituio burocraticamente
responsvel pela transferncia de um saber seleto. Nem tampouco
se define como um "mercado" de conhecimento. E preciso, porm,
que a superao da dicotomia entre trabalho manual e trabalho
intelectual, entre prtica e teoria, se prolongue na superao
igualmente da dicotomia entre ensinar e aprender e entre conhecer
o conhecimento hoje existente e criar o novo conhecimento. Com a
superao destas dicotomias, a escola como "mercado de
conhecimento" cede seu lugar  escola como "Centro Democrtico",
a que faz referncia o Camarada Samora Machel*.
    E na escola como Centro Democrtico desaparece, de um lado,
o professor que transmite autoritariamente um saber seleto; de
outro, o aluno passivo, que recebe o saber transferido. Em seu
lugar, surgem o professor e o aluno militantes, de quem fala
tambm Machel. O professor que, ao ensinar, aprende e o aluno
que, ao aprender, ensina.
    Numa educao como esta, que coincide com um projeto social
que privilegia a presena cada vez mais consciente dos
trabalhadores camponeses e urbanos na reconstruo da sociedade,
a delimitao do que conhecer, fiel a esse projeto, deve contar com
a participao dos educandos nela. Isto significa, sem dvida, que
as relaes dialgicas, como selo do ato de conhecer, entre o
professor e o aluno militantes, no se do apenas em torno de um
objeto de conhecimento proposto por aquele a este, mas em torno,
tambm, da prpria delimitao do que conhecer.
    Sem sacrificar em nada a organizao do contedo programtico
da educao, no que diz respeito aos temas fundamentais 
sociedade em reconstruo, a participao dos educandos naquela
tarefa 




*
 Samora Machel  "Fazer da escola uma base para o povo tomar o poder",
Cadernos Cultura Popular, 5, l974.
I. Estudantes do Liceu de Bissau participando do trabalho
   produtivo. (Foto do Centro udio-Visual, Guin-Bissau)
indiscutivelmente formadora. Alm do mais,  um direito deles,
enquanto militantes, o de ter voz na delimitao do que 1hes cabe
conhecer para melhor servir  coletividade.
    Assim, ao colocar-nos a questo da delimitao do que
conhecer, na Guin-Bissau, ao nvel bsico da alfabetizao de
adultos e da ps-alfabetizao, colocamos tambm o problema de
ambas numa linha de massas. Isto , numa linha em que estas,
mobilizadas, assumem, desde o comeo mesmo do processo
permanente de sua formao, o papel de sujeitos deste processo.
    Neste sentido, a alfabetizao em que a ps-alfabetizao se vai
gerando , desde o principio, um trabalho com as massas e no
sobre elas.
    Assim como na escola como "Centro Democrtico" a participao
do educando militante, e no privilegiado, na organizao do
programa de estudo, em nada deve sacrificar os objetivos
fundamentais do projeto da Sociedade, na alfabetizao e na ps-
alfabetizao de adultos o mesmo se deve verificar. E a
concretizao destes objetivos demanda a clareza em torno das
relaes, j citadas nesta carta, entre a educao, de que a
alfabetizao de adultos  uma dimenso, e a produo.
    Estas relaes se fazem mais transparentes na medida em que
se define o projeto global da sociedade, que envolve o para que
produzir, o que produzir, o como produzir, que, por sua vez, implica
na maneira
como se do as relaes sociais de produo e o papel que nela
joga o trabalhador, e o para quem produzir.
   Numa perspectiva capitalista, os fatores de produo  meios de
produo de um lado, trabalhadores de outro  se combinam em
funo do capital. Parte da acumulao, que resulta da "mais-valia"
 o que deixa de ser pago ao trabalhador que vende sua fora de
trabalho ao capitalista   usada no bem-estar deste e outra parte
na compra de mais fora de trabalho e de mais meios de produo
que, combinados, produzem mais mercadorias necessariamente
vendveis.  que, do ponto de vista capitalista, o que interessa no
 a produo de um valor de uso, mas a de um valor de uso que
tenha um valor de troca, isto , que seja uma mercadoria vendvel.
Mais ainda, a produo de "uma mercadoria cujo valor cubra e
supere a soma dos valores das mercadorias invertidas em sua
produo, quer dizer, dos meios de produo e da fora de
trabalho".*
   O que o trabalhador recebe como salrio pelo esforo despendido
no ato produtivo e que corresponde a um mnimo apenas deste
esforo se destina a seus "meios de vida" e  sua reproduo como
classe assalariada.
   Expropriado do produto de sua fora de trabalho, o trabalhador
no tem nada que ver, por outro lado e por isso mesmo, com a
determinao do que deve ser produzido. E na medida em que uma
quantidade significativa do que se produz no corresponde s reais
necessidades dos indivduos,  preciso invent-las. Por isso  que se
equivoca, totalmente, a sociedade que, refazendo-se em busca do
socialismo, se deixa fascinar pelo mito do consumismo. Se caminha
*
    Karl Marx  El Capital, Fondo de Cultura Econmica, Mxico, vol. I, pg. 138;
nesta direo, no importa que j no haja uma classe capitalista,
seu objetivo ser produzir valores de troca, isto , mercadorias
vendveis. Acontece que o socialismo  algo bem distinto de um
"capitalismo sem capitalistas".**
    "Compre o que voc j tem" seria uma forma caricatural de
perfilar a sociedade capitalista, chamada de consumo. O papel que
a propaganda joga nesta sociedade, em que a alienao da
conscincia  cada vez maior, teria de ser fundamental. No
necessitamos de propaganda para convencer-nos de comprar feijo,
po, arroz, mas precisamos de propaganda para comprar este ou
aquele tipo de perfume e at mesmo para comparar este ou aquele
tipo de arroz, apenas com embalagem diferente.
    Se a produo se orienta no sentido do bem-estar coletivo e no
do lucro do capitalista, privado ou estatal, a acumulao,
indispensvel ao desenvolvimento, tem uma significao e um fim
totalmente distintos. Agora, numa perspectiva socialista, o que se
deixa de pagar ao trabalhador j no  uma usurpao, mas a
quota que ele d ao desenvolvimento da coletividade, e o que se
deve produzir com esta quota no  uma mercadoria que se define
por ser vendvel, mas o socialmente necessrio. Para isto,  preciso
que a sociedade que se reconstri revolucionariamente, ao superar
a dicotomia trabalho manual trabalho intelectual, se v
constituindo, toda ela, como uma sociedade de trabalhadores, cuja
liderana, ao recusar, de um lado, qualquer forma de
espontanesmo, recusa, de outro, enrijecer-se burocraticamente.
    Numa sociedade capitalista, to menos conscincia poltica,
enquanto conscincia de classe, tenham os trabalhadores, melhor,
do ponto de vista da classe dominante. Numa sociedade
revolucionria, que visa ao socialismo, pelo contrrio, quanto mais
conscincia poltica tenham os indivduos enquanto recriadores de
uma sociedade que se vai tornando uma sociedade de
trabalhadores, tanto mais criticamente se engajam no esforo
produtivo. Neste sentido, sua conscincia poltica  fator tambm de
produo. Dai que, no primeiro caso, se fale tanto da neutralidade
da educao e a capacitao do trabalhador seja feita em torno
apenas de um saber como fazer, considerado igualmente neutro.
Numa sociedade capitalista, a educao do trabalhador visa  sua
reproduo enquanto classe assalariada, que  obrigada a vender
sua fora de trabalho  classe capitalista. A educao que o
reproduz como classe deve capacit-lo para ser mais e mais
eficiente no processo de trabalho*. Processo, como salienta Marx,

**
     Samir Amim  k'logie du Socialisme, Editions Anthropos, Paris.
*
  Com isto, porm, no quero dizer que a educao do trabalhador, nas sociedades
capitalistas, se oriente no sentido de tornar possvel uma compreenso global do
processo produtivo, na medida mesma em que tal compreenso no  indispensvel 
eficincia do trabalhador no sistema capitalista. Pelo contrrio, "quanto mais a cincia
 incorporada ao processo de trabalho, tanto menos o trabalhador entende o processo;
quanto mais a mquina se torna um produto intelectual sofisticado, tanto menos
controle sobre ela e compreenso dela tem o trabalhador. Em outras palavras,
quanto mais o trabalhador necessita de conhecer no sentido de permanecer um
ser humano no trabalho, tanto menos conhece". Harry Brauerman, Labor and
Monopoly Capital  The degradation of work in the twentieth century, Monthly
Review Press, Nova York e Londres, l974, pg. 425
"entre objetos comprados pelo capitalista, entre objetos que lhe
pertencem".** A fora de trabalho, de um lado; os meios de
produo, de outro.
    Quanto mais rentavelmente se combinem aquela e estes, na
produo de valor de troca, isto , da mercadoria vendvel, melhor.
A educao a servio desta' combinao rentvel no pode ter,
obvia-mente, como objetivo desvelar o seu carter alienador. O que
ela tem de fazer, por isto mesmo,  ocult-lo, reduzindo o processo
formador  transferncia daquele saber como fazer, tomado como
neutro.
    Este , apenas, um dos importantes aspectos das relaes entre
educao e produo na sociedade capitalista.
     Na sociedade que se reconstri na linha do socialismo, pelo
contrrio, fundando-se na nova realidade material que vai tomando
forma, a educao deve ser eminentemente desveladora e
criticizante.
     Neste sentido,  to contraditrio que uma tal sociedade se
oriente no sentido do consumismo a que antes me referi, ou da
rigidez burocrtica, como contraditrio  que se estabelea um
sistema educacional autoritrio e prescritivo, filho, neste caso, da
prpria rigidez burocrtica. Sistema educacional em que no h o
clima necessrio para a encarnao do educador e do educando
militantes, no sentido antntico em que os define Samora Machel.
     Nesta altura, numa aparente digresso, gostaria de fazer alguns
comentrios em torno da experincia brasileira de alfabetizao de
adultos de antes do golpe de estado de 1964 e da experincia
chilena, nos governos da Democracia Crist e da Unidade Popular.
Talvez estes poucos comentrios nos ajudem a clarificar melhor
alguns pontos centrais sobre que estamos e estaremos conversando
nesta carta.
     A experincia brasileira se deu no quadro de um regime
populista em que se aproveitavam, de um lado, os espaos livres
que ele oferecia; de outro, a forte motivao das massas populares
urbanas e, em certas reas, rurais, pela alfabetizao. Entre estas
reas, principalmente aquelas em que os camponeses se
experimentavam conflitivamente, empenhados na reivindicao da
terra ou mesmo da melhora salarial. As Ligas Camponesas so um
exemplo, sobretudo no Nordeste brasileiro, da inquietude dos
camponeses e de seu nimo de organizar-se.  preciso que se diga,
porm, que no foi nenhuma campanha de alfabetizao de adultos
que fez nascer as Ligas Camponesas, nem estas surgiram com as
caractersticas de luta com que as conheci, mais ou menos de perto,
no tempo em que coordenei, a nvel nacional, a campanha de
alfabetizao de adultos. Foi a experincia dos campo-neses,
inicialmente associando-se para a soluo de problemas vitais,
entre eles o do prprio sepultamento de seus mortos, que os levou
a uma prtica mais e mais poltica. Foi esta prtica, sem dvida,
que se foi fazendo mais e mais poltica e que os engajou, mais
tarde, na luta pela reivindicao da terra e da melhoria salarial, que

**
     Karl Marx  Obra citada, Vol. I, pg. l37.
terminou por dar sentido  alfabetizao. Esta aparece, assim,
como algo necessrio  sua luta, mesmo que no se tivesse
verificado qualquer alterao nas relaes sociais de produo e
precisamente por causa disto. Para muitos, a alfabetizao era
vista, nestas circunstncias, como um instrumento a mais na
efetivao da transformao daquelas relaes.
     As duas grandes greves de trabalhadores rurais de Pernambuco,
em 1963, a primeira com 83.000 e a segunda com 230.000
grevistas, so um exemplo indiscutvel deste fenmeno.
     Desta forma, a tnica da campanha de alfabetizao no Brasil
era eminentemente poltica. Interessava-nos, nas condies
histricas    em     que   estvamos,     estabelecer    um    vnculo
absolutamente estreito entre a alfabetizao e a conscincia poltica
das massas populares. Da que, no contexto da experincia
brasileira, as relaes entre a alfabetizao de adultos e a produo
se tenham expressado na critica ao modo de produo capitalista,
que, caracterizando o pais como um todo,  preponderante nos
centros urbanos, e na anlise critica das relaes sociais de
produo, nas reas rurais.
     No poderia estar em nossa cogitao relacionar a alfabetizao
de adultos  produo no sentido de uma capacitao tcnica dos
alfabetizandos, por motivos bvios.
    Foi por isto tambm que a campanha brasileira, sem deixar de
ser nacional, estabelecia, porm, prioridades. Entre atuar numa
rea em que a conscincia popular se encontrasse "imersa" e
noutra cuja rebelio popular fosse visvel, no havia como hesitar. A
segunda seria a escolhida.
    No caso do Chile, a campanha de alfabetizao se d em dois
momentos distintos. No primeiro, nos marcos do governo reformista
burgus da Democracia Crist. No segundo, no governo da Unidade
Popular, que pretendia a criao de uma Sociedade Socialista.
    Em ambos os casos, na experincia chilena a alfabetizao
esteve associada  produo, do ponto de vista da capacitao
tcnica dos alfabetizandos, com vises polticas necessariamente
opostas.
    Talvez, de maneira um pouco ligeira, pudesse dizer que, no caso
brasileiro, em grande parte, a motivao pela alfabetizao entre as
massas populares estava ligada ao desejo de mudana, mesmo que
a viso desta fosse vaga e imprecisa.
    No caso do Chile, na primeira etapa, a do governo democrata
cristo, a motivao pela alfabetizao se associava ao
aprofundamento das reformas realizadas  como a reforma agrria
 que, por sua vez, davam  alfabetizao de adultos um carter de
necessidade funcional. Necessidade que, mudando de qualidade, se
estende e se intensifica no perodo da Unidade Popular.
    No foram raros os camponeses chilenos que, em conversa
comigo ou nas discusses nos Crculos de Cultura, falavam das
razes bem concretas que os tinham levado a alfabetizar-se.
Insistiam sempre em que antes da reforma agrria no tinham por
que aprender a ler e a escrever, mesmo que um "patro mais
compreensivo" o proporcionasse, pois que nada teriam que "fazer
com as letras".
    O caso da Guin-Bissau  diferente, mas problemtico tambm.
Indiscutivelmente, a guerra de libertao, como "um fato cultural e
um fator de cultura" (Amlcar Cabral), foi a grande parteira da
conscincia popular. No foi por acaso que os camaradas do Crculo
de Cultura que visitamos, Elza e eu, ao discutirem sobre a luta,
diziam que "a luta de hoje  a mesma de ontem com algumas
diferenas. Ontem, diziam eles, com armas nas mos, buscvamos
expulsar o invasor. Hoje, com armas nas mos, vigilantes, a nossa
luta  a luta pela produo para a reconstruo de nosso Pas".
    Lembro-me tambm de que, na mesma reunio, um outro
camarada dizia que a luta pela produo, que deve ser feita atravs
do trabalho de todos, insistia ele, exige um total desprendimento,
em funo do interesse coletivo, que deve estar acima dos
interesses individuais.
     Mas, mesmo admitindo-se que a conscincia poltica da grande
maioria da populao do pas corresponda ao nvel da clareza
revelada nas citaes que acabo de fazer, devido  luta pela
libertao, resta um problema sobre que teremos de pensar, no
setor das relaes entre a educao e a produo. Um problema
fundamental que tem que ver no s com a organizao do
contedo programtico da alfabetizao e da ps-alfabetizao,
para ficar s neste campo, mas tambm com a prpria validade do
esforo alfabetizador.
     Refiro-me ao fato de se j houve ou de se est havendo, e at
que ponto, alteraes nas relaes sociais de produo no pas.
Alteraes que, necessariamente, daro uma nova dimenso ao
aprendizado da leitura e da escrita e  continuidade deste
aprendizado, que se vai ampliando e aprofundando.
     No caso brasileiro, como disse antes, a alfabetizao, em reas
rurais, sem que tais alteraes tivessem ocorrido, s tinha sentido
para aquelas populaes camponesas que, envolvidas em situaes
conflitivas, viam nela um instrumento a mais para a sua Juta. Esta
no  a circunstncia da Guin-Bissau, cujo povo teve, na guerra de
libertao, o que nenhuma campanha de alfabetizao lhe teria
oferecido.
     Na Guin-Bissau, hoje, a alfabetizao e a ps-alfabetizao de
adultos, eminentemente polticas,  claro, necessitam de um ponto
de referncia material, em transformao, capaz de perfil-las junto
s grandes maiorias nacionais como algo importante e significativo.
Em outras palavras,  preciso que estas grandes maiorias tenham
realmente necessidade de ler e de escrever, o que no  de se
esperar,     se   o    contexto   concreto   continua    funcionando
tradicionalmente. Mesmo nas antigas "regies libertadas", em que
as populaes camponesas estiveram diretamente empenhadas na
luta de libertao, participando do esforo produtivo, com que
asseguravam a alimentao das tropas, e dos trabalhos educativos
realizados pelo PAIGC, problema idntico, me parece, se pe.
     Uma coisa, pois,  ligar a alfabetizao de adultos e a ps-
alfabetizao  produo numa rea em que as relaes sociais de
produo comeam a transformar-se, com vistas a um modo de
produo socialista, em que se implantam, de baixo para cima,
cooperativas com este esprito, e outra  tentar a mesma ligao
sem que estas condies materiais existam.
     No primeiro caso, a alfabetizao e a ps-alfabetizao atendem
a uma necessidade real. Modificado o contexto, sua tendncia 
dinamizar-se cada vez mais, do que resulta, de um lado, uma
mudana, ainda que no automtica, na maneira de os indivduos
perceberem sua realidade; de outro, a ampliao dos horizontes de
sua curiosidade.
     Desta forma, muita coisa que, no contexto tradicional, no tinha
sentido, por falta de funcionalidade, passa a impor-se, no contexto
em
transformao.  assim que as margens para o analfabetismo
regressivo se limitam ao mnimo normal.
    No segundo caso, pelo contrrio, as possibilidades de insucesso
acompanham o esforo alfabetizador desde o comeo e as margens
para o analfabetismo regressivo so enormes.
    Isto no  pura opinio, mas a constatao de um fato que se
vem verificando nas mais diferentes experincias de alfabetizao
de adultos, onde quer que esta se realize.
    E em razo deste fato que nos parece que a campanha de
alfabetizao de adultos na Guin-Bissau, mesmo que seja nacional,
deveria, porm, comear* nas reas em processo de transformao
e, possivelmente, naquelas que, segundo os planos do Governo e a
poltica do Partido, em breve espao de tempo passariam a sofrer,
igualmente, certos cmbios. Nesta hiptese, a alfabetizao poderia
inclusive estimular a mudana.
    Percebe-se assim, mais uma vez, a importncia da Comisso
Intercomissarial que o Camarada Mrio Cabral pretende criar e que,
em estreita relao com o Governo e o Partido, deveria traar as
linhas gerais da poltica a ser seguida pela campanha de
alfabetizao.
    Comear a campanha por estas reas, cujas condies materiais
esto dando-se, alm de no afetar em nada o seu carter nacional,
assegura o seu xito.
    Sem se perder de vista o projeto global da sociedade, as
condies locais das reas por onde se comece o trabalho devem
estar bem presentes, quando da delimitao do que conhecer, isto
, da organizao do contedo programtico da alfabetizao, que
se alonga na ps-alfabetizao.  a partir das condies locais que
se vai alcanando o mais geral.
    Assim, a temtica implcita em cada palavra geradora deve
proporcionar a possibilidade de uma anlise que, partindo do local,
se v estendendo ao regional, ao nacional, ao continental e,
finalmente, ao universal.
    Princpio metodolgico a ser igualmente aplicado na ps-
alfabetizao.
    Sem outra inteno seno a de exemplificar, poderamos tomar a
palavra geradora arroz, cuja significao para a Guin-Bissau 

*
 Quando digo comear me refiro ao trabalho a ser desenvolvido pelas FARP, aps
o esforo realizado entre elas e a que se junta o que se vem fazendo em certos
setores urbanos de Bissau.
indiscutvel, e ver como, a partir da riqueza temtica a ela referida,
se poderia organizar grande parte do contedo programtico, no
somente da alfabetizao de adultos, mas da ps-alfabetizao, da
escola primria e mesmo da secundria.
    Num tal esforo, naturalmente, a equipe que a ele se entregasse
estaria atenta quanto aos princpios gerais da poltica do Partido e
do Governo  o projeto da sociedade, que ilumina, como sublinhei
antes, o que conhecer, o como, o para que, o em favor de que e
quem conhecer, bem como o que produzir, o como, o para que e o
para quem produzir.
    Sem me preocupar com a indicao de todas as reas temticas
associadas  palavra arroz, nem tampouco preocupar-me com a sua
sequncia rigorosamente ordenada, indicarei algumas delas que,
necessariamente, se referem a outras tantas, no sugeridas aqui.
    A temtica de cada uma das unidades de aprendizagem ou de
conhecimento que apresentarei, repito, em carter puramente
exemplificador, seria ordenada, certamente de maneira diferente e
muitssimo mais completa, se tratada por uma equipe
interdisciplinar, preponderantemente nacional. E seria, por outro
lado, enriquecida de matizes que nos passam despercebidos quando
submetida ao debate dos educandos que dariam assim sua
contribuio  organizao do contedo programtico de sua
prpria educao.
    Como introduo ao estudo das diferentes unidades
programticas, relacionadas entre si, em torno do arroz, se poderia
analisar as relaes entre os seres humanos e a natureza, tomando-
se sempre, como ponto de referncia, a realidade concreta dos
educandos e sua prtica nesta realidade.
    Tal anlise envolve a clarificao de uma srie de pontos
importantes, a alguns dos quais, apenas, farei referncia. O
trabalho  um deles. A anlise do trabalho, a partir da compreenso
do trabalho concreto que realizam os indivduos e no a partir da
idia de trabalho.
    A discusso em torno do trabalho, que ", em primeiro lugar,
um processo entre a natureza e o homem, processo em que este
realiza, regula e controla, por meio de sua prpria ao, seu
intercmbio de matria com a natureza"*, abre, por sua vez, a
possibilidade ao debate em torno da cultura, que, em si, constitui
uma unidade de estudo das mais importantes.
    A cultura e a identidade nacional. As positividades e as
negatividades desta cultura. A necessidade de superao das
ltimas, que Cabral costumava chamar de "fraquezas" da cultura. A
cultura e a produo do arroz. A cultura e a sade. A cultura e a
comida. A cermica, a escultura em madeira, a dana. A invaso
cultural. A alienao cultural.
    Por outro lado, a anlise, ainda, do trabalho, viabiliza o estudo
de seu processo, de sua organizao social. O estudo dos diferentes
modos de produo: o pr-capitalista, o capitalista, o socialista.
    Tudo isto, obviamente, de uma forma simples. Nem simplista,
nem sofisticada.


*
    Karl Marx  Obra citada, Vol. I, pg. 130
    Gostaria, nesta altura, de sublinhar alguns pontos. Primeiro, que
o fato de ser esta uma temtica introdutria, no significa, de
maneira alguma, que no esteja presente tambm, na discusso
das unidades que se seguem. Segundo, que na sua discusso, que
implica na elaborao de materiais udio-visuais os mais variados,
no se deve fazer nenhuma concesso s arrancadas oratrias e
verbalistas.
    Finalmente, me parece importante salientar que a posio, nem
sempre explcita, segundo a qual uma tal temtica, por "ser
demasiado terica, no interessa aos trabalhadores camponeses e
urbanos nem por eles pode ser percebida", implicitando uma falsa
viso da teoria,  eminentemente elitista.
    Amlcar Cabral, em verdadeiros seminrios de capacitao para
militantes, analisou temas de alta relevncia prtico-terica, de
maneira realmente concreta e objetiva. Jamais minimizou a
capacidade de conhecer de seus camaradas camponeses. E que a
afirmao de Amlcar de que o intelectual pequeno-burgus precisa
ter a coragem de suicidar-se como tal para, renascendo como
trabalhador revolucionrio, poder dar uma contribuio real  luta
de libertao, no era nele uma frase feita, um jogo retrico de
palavras.
    Amlcar Cabral falou do que fazia. Da que jamais se tivesse
admitido como possuidor exclusivo da verdade e do conhecimento
revolucionrio que ele devesse, no mximo, num gesto
momentneo de desprendimento, oferecer, como presente, a seus
camaradas camponeses. Pelo contrrio, como todo verdadeiro
revolucionrio, Cabral foi sempre um educador-educando de seu
povo, de quem era, ao mesmo tempo, por isso mesmo, um
aprendiz constante.
    Suas anlises sobre "o papel social do campesinato", sobre a
"unidade e a luta", sobre a "realidade", para citar somente estas,
so um exemplo do que acabo de afirmar.
    Por outro lado, minha prtica h bastante tempo no Recife
comeou, no propriamente no domnio da alfabetizao, mas no da
ps-alfabetizao, no importando, num aparente paradoxo, se os
participantes dos Crculos de Cultura eram alfabetizados ou no.
Prtica em que alguns dos temas aqui referidos foram discutidos
por sugesto dos prprios participantes.
    No decorrer de minha prtica  que percebi a origem da surpresa
que me assaltava, nos comeos dela, diante das posies crticas
que operrios desescolarizados assumiam na anlise de temas, at
ento     para    mim    considerados    como    exclusividades    de
universitrios. Minha surpresa tinha sua origem na minha posio
de classe, agravada por minha formao universitria, talvez
dissesse melhor, por meu treina-mento universitrio elitista.
    Foi a partir dos resultados daqueles primeiros trabalhos que me
dediquei  alfabetizao de adultos, no hesitando em propor, como
introduo ao aprendizado da leitura e da escrita, uma unidade
sobre a compreenso critica da cultura.
     Vejamos agora algumas das possveis unidades temticas,
ligadas entre si, em torno da palavra arroz e alguns de seus temas.
                              PRODUO DO ARROZ
                                Geografia do arroz
                                 Poltica do arroz
                                 Histria do arroz
                                 Sade e arroz

    Produo do arroz: A produo do arroz na Guin-Bissau,
partindo-se da anlise desta, na rea em que se esteja trabalhando
na etapa da alfabetizao ou da ps-alfabetizao. As relaes
sociais de produo. Tcnicas agrcolas para a semeadura e a
colheita do arroz  em reas molhadas ou secas. Preparao das
reas a serem cultivadas. Tcnicas tradicionais; tcnicas modernas.
Problemas fitopatolgicos.
    A viso cultural dos diferentes grupos tnicos, seus
instrumentos de trabalho, suas tcnicas.
    Anlise comparativa entre a cultura do arroz e outras culturas
necessrias  reconstruo do pas: o amendoim, o milho, a batata
doce, a mandioca, o caju.
    Agricultura e indstria.
    Produo e distribuio dos produtos agrcolas.
    Hectares plantados e produo por hectare.
    Medidas necessrias para aumentar as reas cultivadas e para
intensificar a produtividade por hectare.
    O papel do arroz na economia geral do pas. A distribuio
interna do arroz e sua comercializao externa.
    Os mecanismos do comrcio externo. As divisas e a
reconstruo do pas. Defesa dos interesses nacionais.
    As cooperativas de produo etc.
    Geografia: A geografia do arroz na Guin-Bissau, partindo-se,
como sempre, da rea em que se trabalha na alfabetizao ou na
ps-alfabetizao.
    A geografia internacional do arroz.
    Poltica: A poltica do Partido e do Governo com relao ao arroz
e  produo geral do pas. Defesa dos interesses nacionais etc.
    Histria, O arroz na Guine-Bissau. O arroz nas outras regies do
mundo.
    Sade: Arroz, nutrio e sade. Sade e trabalho. Sade e
educao. Sade, trabalho, educao e o esforo de reconstruo
do pas.
    Antes de finalizar, gostaria de fazer alguns comentrios adicio-
nais sobre certos aspectos do dinamismo de um esquema como
este, ou semelhante a ele, cuja realizao, bem sei, coloca uma
srie de problemas e dificuldades.
    O primeiro aspecto que sublinharei  a possibilidade que se tem,
por exemplo, de, ao estudar-se a geografia do arroz, estudar-se a
geografia do pas; ao estudar-se a histria do arroz, discutir-se a
histria do pas, a histria das primeiras resistncias ao invasor; a
histria da luta pela libertao; a histria que se faz hoje, a da
reconstruo do pas para a criao de uma nova sociedade.
   Ao estudar-se, finalmente, a Guin-Bissau, nos mais variados e
interligados ngulos, situ-la no contexto africano e este no
mundial.
    Outro aspecto importante  o papel ativo que devem ter os
participantes dos Crculos de Cultura, desde o momento mesmo das
primeiras discusses, quando da apresentao do pr-programa,
como projeto de trabalho. O papel ativo que indivduos e grupos de
indivduos devem ter, se aceito o projeto, na coleta de certos dados
locais, referentes a certos pontos do programa. Dados locais sobre
a cultura do arroz (na rea), sobre o modo como se faz esta
cultura, sobre o nmero de hectares cultivveis e em cultivo, sobre
as dificuldades com que se defrontam os camponeses no seu
trabalho dirio, sobre o nmero de habitantes da Tabanca, sobre a
distribuio, sobre as vias de comunicao, sobre os instrumentos
de trabalho, sobre a sade, a educao etc. Atividade investigadora
altamente formadora, cujos resultados aumentam o conhecimento
dos educadores ou lhes fornecem estes conhecimentos. Mais ainda,
cujos resultados se constituem num apor-te de inestimvel valor
para o Partido e o Governo, que deles devem ser inteirados.
    No Chile foram realizados projetos assim, em que os camponeses
faziam o diagnstico scio-cultural de suas comunidades,
responsabilizando-se, inclusive, pelo tabelamento dos dados
obtidos.
    O esquema apresentado, a ttulo de exemplo, gira em torno da
palavra arroz, como poderia estar referido  palavra milho, 
palavra amendoim etc.
    Durante a etapa da alfabetizao, a anlise desta temtica como
da temtica referida s demais palavras geradoras, ligadas sempre
a     problemas    concretos,   locais,  regionais,   nacionais,  ,
necessariamente, uma anlise introdutria. Seu aprofundamento vai
se dar, exatamente, na ps-alfabetizao. Neste sentido  que esta
, como ficou dito no comeo desta carta, a continuidade
aprofundada e diversificada do mesmo ato de conhecimento que se
inicia naquela.
    Insista-se em que a posta em prtica de um projeto como este
ou de algo semelhante, no campo da alfabetizao e da ps-
alfabetizao, coloca problemas realmente srios no setor de sua
organizao, tanto quanto possvel descentralizada, no da
capacitao dos educadores, no da preparao do material didtico
necessrio.
Na verdade, porm, na medida em que pretendemos um mnimo de
eficincia no estabelecimento das relaes entre a alfabetizao, a
ps-alfabetizao e a produo, devemos estar advertidos de que
os desafios, nem sempre fceis de serem respondidos, que teremos
de enfrentar so mltiplos e variados. O da capacitao dos
educadores militantes  um deles. Educadores que se encontraro
em dilogo com os educandos militantes, mediatizados pela
realidade que juntos devem transformar e conhecer.
     Como um todo, as relaes entre a educao (alfabetizao-ps-
alfabetizao) e a produo envolvem dois nveis presos entre si. O
da compreenso do processo mesmo da produo  o que produzir,
como produzir, para que e para quem produzir  e o da introduo
de novas tcnicas de trabalho, que implicam em novos
instrumentos e no seu uso.
    Se considerarmos apenas estes dois pontos que, em si,
obviamente no esgotam o universo da capacitao dos educadores
militantes, percebemos quo srio e complexo  o desafio que
temos todos. O importante, na resposta a ele,  que, conscientes de
sua seriedade e de sua complexidade, evitemos, porm, cair na
tentao do perfeccionismo.
    Faamos hoje o melhor com o mnimo de que dispomos. S
assim nos ser possvel fazer amanh o que hoje no pode ser
feito.
    Com o abrao fraternal de

                                                       Paulo Freire
J. Amlcar Cabral com uma criana nos braos. (Publicao
   Autorizada pelo Comissariado de Informao e Turismo da
   Repblica da Guin-Bissau)
                                   Genebra, 3 de fevereiro de 1976

Engenheiro Mrio Cabral
Comissariado do Estado para
Educao e Cultura Bissau

Camarada Mrio,

     A esta altura, voc j deve ter recebido a carta que Miguel lhe
enviou,  propsito de nossa prxima visita.
     Tenho a satisfao de remeter-lhe cpia de mais uma carta
dirigida  equipe, atravs da camarada Mnica e em resposta  que
ela me fez, pondo-nos a par de uma srie de atividades realmente
significativas no setor da alfabetizao e da ps-alfabetizao, no
seio das FARP.
     Atravs de Mnica soubemos da criao da Comisso Nacional,
com a qual me parece importante que nos encontremos quando de
nossa estada ai.
     Creio indispensvel debater com ela alguns aspectos, pelo
menos, da problemtica geral da alfabetizao, da ps-alfabetizao
e de suas
 necessrias conexes com o sistema educacional do pas, bem
como as relaes deste sistema com o projeto global da sociedade
que se busca criar. Aspectos a que me referi na ltima carta 
equipe, de que tambm lhe mandei cpia.
     Ansioso por estar a com todos vocs, vai aqui o abrao
fraternal
 do

                                                        Paulo Freire
                                   Genebra, 3 de fevereiro de 1976
                                                (Carta n 4)

Camarada Teresa Mnica.

   Acabo de receber sua carta e me apresso em escrever-lhe algo,
mesmo que estejamos s vsperas de nossa prxima visita  Guin,
quando, espero, poderemos discutir, em equipe, os pontos a que
voc se refere, de maneira, talvez, mais aprofundada.
   Hoje farei apenas uns poucos comentrios  primeiras reaes 
aos aspectos centrais de sua carta.
   O primeiro deles diz respeito  ps-alfabetizao, sobre que me
estendi um tanto na ltima carta e em que pretendi enfatizar,
sobretudo, que a ps-alfabetizao  a continuidade aprofundada e
diversificada do mesmo ato de conhecimento que se inicia na
alfabetizao.
   Tanto quanto pude perceber, atravs de sua carta, vocs esto
realizando algo interessante no domnio da ps-alfabetizao,
mesmo que 1he parea, numa posio crtica elogivel, que nem
tudo o que esto fazendo os convena de todo.
   A idia do livro bsico, a ser usado pelos "coordenadores", em
seminrios de capacitao para a ps-alfabetizao e a cujos
diferentes textos vocs pensam juntar consideraes ou anlises no
campo da linguagem e da iniciao cientfica, "a um nvel
perfeitamente vivel  maioria dos alfabetizandos" que dominarem
a primeira etapa do processo de sua aprendizagem, me parece
realmente boa.
   A este propsito gostaria, contudo, de fazer dois comentrios.
Devo insistir, porm, que o primeiro destes comentrios de modo
nenhum encerra uma crtica ao projeto de vocs. Ao faz-lo,  como
se estivesse simplesmente pensando alto. E o segundo  uma
indagao que se alonga em sugesto.
   Quando, referindo-se ao livro para os coordenadores voc diz:
"Para cada texto (do livro) explorar um contedo gramatical e
cientfico a um nvel de 4 classe", temo que a equipe se deixe
marcar pela concepo mesma da escola primria tradicional,
tomada como acesso necessrio  secundria, que, por sua vez, 
vista como introduo  superior, no momento inexistente na
Guin-Bissau.
     possvel que o meu comentrio no tenha nada que ver com a
inteno da equipe mas me parece importante debater este ponto.
Mais uma vez vemos como no  possvel pensar a alfabetizao e a
ps-alfabetizao desgarradas do sistema educacional global e
como, atravs de medidas concretas, realistas,  to indispensvel
quanto urgente que ele seja reformulado. Noutro momento de sua
carta voc se refere a esta relao entre a alfabetizao, a ps-
alfabetizao e o sistema educacional, quando fala da questo do
ensino do portugus e do creoulo.
    Tentando clarificar melhor o meu receio, o que me leva a um
certo retorno  carta anterior, diria que devemos evitar, desde j,
qualquer tipo de equivalncia formal e, pior ainda, legal, entre o
contedo programtico da alfabetizao e da ps-alfabetizao e os
diferentes graus da escola tradicional que, quanto mais cedo seja
substituda por um novo modelo, condizente com o projeto global
da nova sociedade, melhor.*
     O importante, na verdade,  que o alfabetizando se engaje num
ato de conhecimento que se vai aprofundando e diversificando em
funo de sua atividade produtiva, sem ter diante de si o mito de
uma escola secundria em que se "promova" e que alcanar se
satisfizer as exigncias curriculares da primria, durante a
experincia da alfabetizao e da ps-alfabetizao. Neste sentido,
o fundamental  que o novo sistema educacional, a emergir da
prtica social que se d no pas, no seja algo piramidal - uma
totalidade que se componha de parcialidades cuja "vocao" ou
razo de ser seja selecionar os educandos para encaminh-los 
etapa posterior.
     Desta forma, a educao chamada primria, enquanto
"provncia" do sistema total, mesmo que mantenha relaes com as
demais, no , porm, concebida como uma "estrada" que conduz a
um ponto superior. Discutindo o sistema educacional que deve estar
a servio do projeto socialista tanzaniano, diz o Presidente Nyerere
em seu excelente trabalho "Education for Self-Reliance": ..."a
educao dada em nossas escolas primrias deve ser uma educao
completa em si mesma. No deve continuar a ser uma simples
preparao para a escola secundria. Em lugar, continua Nyerere,
de as atividades da escola primria estarem voltadas ao exame
competitivo que seleciona os poucos que vo  escola secundria,
devem ser a preparao para a vida que a maioria das crianas
viver".*
    Cieio ser interessante aclarar, mesmo num rpido comentrio
que, no pensamento de Nyerere, "preparation for the life" no tem
a mesma significao ingnua segundo a qual a escola, fora da
vida, seria um centro de preparao para ela. Uma espcie de
parntese, feito na vida, em que nos capacitssemos para, em
seguida, ingressar nela. Concepo que mereceu lcida crtica de
Dewey, para quem a escola haveria de ser vida mesma, e no
preparao para ela.
    Em Nyerere, a preparao para a vida se d na compreenso
critica da vida que se vive, somente como  possvel criar novas
formas de vida. Da que seu pensamento pedaggico-politico esteja
empapado do real, do concreto, na prtica de cuja transformao
ele centra a atividade educativa.
    No sei se terei sido suficientemente consistente neste
comentrio que, repito, no implica em nenhuma critica negativa ao
projeto do livro a que voc faz referncia.
    O segundo comentrio me leva a outro tpico de sua carta  o
em que voc fala da "quantidade enorme de escritos, verdadeiras

*
 Isto no significa, de modo algum, que, mais tarde, na medida em que o novo
sistema educacional v tomando forma, no se faam equivalncias entre a ps-
alfabetizao e os nveis do Ensino Bsico.


*
 Julius Nyerere  Essays on Socialism. Oxford University Press 1968. Reprinted,
l970, p. 61.
obras histricas, feitos pelos alfabetizandos" e que vocs "no
sabem qual a melhor forma de os utilizar".
    Insistindo num dos ngulos j discutidos por ns, indagaria se o
projeto do livro para os coordenadores no poderia constituir-se
numa excelente oportunidade de aproveitamento de, pelo menos,
alguns dos textos escritos pelos alfabetizandos. Inserindo alguns
destes textos no livro, caberia  equipe, em linguagem simples, e
em seguida a cada texto, fazer consideraes sobre este ou aquele
aspecto a que o mesmo se referisse.
    Mas, deixando de lado agora o projeto do livro para os
coordenadores e fixando-nos nos trabalhos escritos pelos
alfabetizandos, por que, por exemplo, aproveitando o dinamismo
que se vem logrando (referido noutro tpico de sua carta) no
apenas na intimidade de cada Circulo, mas nas relaes entre
alfabetizandos de Crculos diferentes, atravs de cartas, no
comear a intercambiar tambm os textos? Textos que, lidos e
discutidos, poderiam provocar a redao de outros como respostas
aos desafios neles contidos.
    Por outro lado, antes mesmo que se possa editar um livro
completo, com esses trabalhos, para diferentes usos, se poderia
pensar tambm,  raiz do que discutimos a, na sua publicao
peridica por N Pintcha, bem como no seu aproveitamento num
programa de rdio a ser estruturado para esse fim.
    Em qualquer das diferentes e no exclusivas formas de
aproveitamento desse material, me parece que se deveria enfatizar
a fora criadora do povo, indispensvel ao empenho de
reconstruo do pas.
     Creio que em torno do que se poderia considerar como ensaios
da ps-alfabetizao  sobre que insisti na ltima correspondncia 
voc d exemplos bastante interessantes na sua carta.
     A leitura e a discusso de temas propostos pelo jornal de
Bissau*, trabalhos escritos e orais em torno de datas importantes do
pas ou sobre acontecimentos da luta relacionados com cada
participante dos Crculos, na sua experincia de combatente, so
alguns desses exemplos. A eles acrescentaria ainda a discusso em
torno do tema Fbrica,  maneira do que propus em volta do tema
Arroz, a propsito da qual voc diz que "h muito de profundo no
que toca s constataes feitas pelos alfabetizados".
      a reflexo crtica sobre a prtica diria de vocs com os
alfabetizandos e com os coordenadores que mais que outra coisa
lhes ir abrindo caminhos para preencher "certas lacunas" que voc
constata no trabalho ao nvel em que se encontra hoje. Esta
reflexo crtica sobre a prtica dando-se  absolutamente
indispensvel e no deve jamais ser confundida com um blablabl
alienado e alienante. Enquanto fonte de conhecimento, a prtica
no , porm, a teoria de si mesma.  entregando-se
constantemente  reflexo crtica sobre ela que a prtica possibilita
a sua teoria que, por sua vez, ilumina a nova prtica.
     Por isso  que sempre insisto em que minhas cartas no tm
nada de prescritivas. So antes desafios que lhes fao e me fao
para que nos engajemos na prtica da reflexo sobre a prtica num
*
    N Pintcha
projeto em processo, que no repete, necessariamente, em todos
os seus aspectos, as experincias de que antes participei.
     O problema que se lhe apresenta como fundamental  uma das
lacunas que voc menciona  na ps-alfabetizao  o de como nela
integrar, sobretudo, os vrios aspectos referentes  reconstruo do
pais. A questo central que este problema coloca est em que a
reconstruo do pas no pode ser reduzida a um puro objeto de
conhecimento que se desse  nossa curiosidade. Como, por
exemplo, se tentssemos compreender um arado em suas
diferentes peas, em seu mecanismo, em seu funcionamento. A
reconstruo      nacional   necessita   de   uma     variedade   de
conhecimentos em diferentes nveis e reas, ligadas entre si e em
relao direta com o projeto global da sociedade. No pode ser algo
de que se fala como algo que foi, mas algo que se conhece na
prtica de faz-lo. Da a necessidade de relacionar a educao em
geral  atividade produtiva, fonte daquela variedade de
conhecimentos necessrios ao dinamismo que deve caracterizar o
esforo de reconstruo.
     Na carta que Miguel acaba de enviar ao Camarada Mrio Cabral
sobre nossa prxima visita prevemos uma conversa tanto quanto
possvel ampla sobre este ponto.
    Outro aspecto sobre que voc se estende em sua carta e que
urge ser retomado, como voc sugere, em nossa prxima visita,  o
problema da lngua em que alfabetizar.
    Na verdade, o processo de libertao de um povo no se d, em
termos profundos e autnticos, se esse povo no reconquista a sua
palavra, o direito de diz-la, de "pronunciar" e de "nomear" o
mundo.
    Dizer a palavra enquanto ter voz na transformao e recriao
de sua sociedade: dizer a palavra enquanto libertar consigo sua
lngua da supremacia da lngua dominante do colonizador.
    A imposio da lngua do colonizador ao colonizado  uma
condio fundamental para a dominao colonial, que se estende na
dominao no colonial. No  por acaso que os colonizadores falam
de sua lngua como lngua e da lngua dos colonizados como dialeto;
da superioridade e riqueza da primeira a que contrapem a
"pobreza" e a "inferioridade" da segunda.
    S os colonizadores "tm" histria, pois que a dos colonizados
"comea" com a chegada ou com a presena "civilizatria"
daqueles. S os colonizadores "tm" cultura, arte, lngua e so
civilizados cidados nacionais do mundo "salvador". Aos colonizados
lhes falta histria, antes do esforo "benemrito" dos colonizadores.
So incultos e brbaros "nativos".
    Sem o direito de autodefinio, so "perfilados"* pelos
colonizadores. No podem, por isso mesmo, "nomear-se" nem
"nomear" ao mundo que lhes  roubado.
    Em um dos textos em que discute o papel da cultura na luta de
libertao, Amlcar Cabral faz anlises que se aplicam,

*
 Ver, a este propsito, Albert Memmi  Retrato do Colonizado Precedido pelo
Retrato do Colonizador, Editora Paz e Terra, Rio, 1977, 2 edio.
necessariamente, ao problema da lngua. Precisamente quando fala
da assimilao  desafricanizao  das minorias urbanas que,
vivendo sob e em volta do poder colonial, se entregam  cultura e 
lngua dominante, em oposio s grandes maiorias camponesas
que, escapando ao poder mais destruidor do colonizador,
sobrevivem na preservao dos traos marcantes de sua cultura.
    Em certo sentido, essas minorias urbanas, "desafricanizando-se",
so assumidas por um estranho "biculturalismo"**, expresso, na
verdade, de sua alienao cultural e a que nem sempre corresponde
um bilingusmo. Tanto mais alienadas essas minorias urbanas
quanto mais se esforam por negar suas razes, para esquecer ou
jamais aprender a lngua de seu povo, definida pelo colonizador
como dialeto, como algo pobre e inferior. Desta maneira,
"nostalgicamente" atradas pela cultura dominante, que as perfila
como inferiores, se negam na negao de sua cultura. Dai, a
insistncia com que Amlcar Cabral falava na necessidade de
"reafricanizao"    daqueles     intelectuais   que    se    dessem
verdadeiramente  causa da libertao.
    A este "biculturalismo" estranho, as populaes rurais
conseguem ficar imunes e, acasteladas em sua riqueza cultural, de
que at mesmo o que Amlcar Cabral costumava chamar de
"debilidades" da cultura fazia parte, preservaram sua lngua. Lngua
com que no apenas se comunicavam mas tambm se defendiam
da alienante agresso colonial.
    A sociedade que, superando o seu estado de dependncia
colonial, procura refazer-se revolucionariamente, como  o caso da
Guin-Bissau, no pode escapar, realmente, ao equacionamento de
seu problema lingustico. Problema que j estava posto na etapa
mesma da luta por sua libertao.
    Da a urgncia, caso o creoulo, que deve estar para o portugus
como este para o latim, se afirme como lngua nacional, de um srio
esforo a ser feito no sentido de sua "regulamentao", como lngua
escrita, pois que, enquanto lngua que se fala, j tem sua estrutura.
    O papel que o creoulo vem jogando  e que voc sublinha em
sua carta  na unidade nacional, desde os tempos duros da luta,
parece indiscutvel. No temeria, por isso mesmo, colocar o
trabalho de sua "regulamentao", como lngua escrita, que
demanda, obviamente, a orientao de lingustas competentes,
entre as prioridades da luta pela reconstruo do pas.
    Compartilho, pois, de suas inquietaes que, sobretudo,
resultam de sua prtica.
    Com o abrao fraterno do

                                                              Paulo Freire




**
   Nota recente: Ver Louis-Jean Calvet, Linguistique et Colonialisme, Petit
Traitrle Glottophagie, Payot, Paris, l974.
                                             Genebra, abril de 1976

Camarada Mrio Cabral,

    Estou remetendo-lhe algumas cpias  uma para voc  da carta
que acabo de escrever  Comisso de alfabetizao  outras para, a
seu juzo, serem entregues a camaradas a quem o contedo da
mesma possa interessar.
    Uma inteno fundamental me move toda vez que escrevo aos
camaradas, ora cartas menos longas, ora mais extensas  a de
provoca em mim, enquanto as escrevo, nos camaradas, enquanto
as leiam, uma reflexo critica em torno de problemas concretos que
estamos todos enfrentando na fascinante experincia que  o
esforo de reconstruo do pas.
    Ao falar, em parte, de projetos educativos vividos por Elza e por
mim, anteriormente, com a mesma intensidade.com que agora nos
entregamos  problemtica de nossa Guin; ao narrar retalhos de
experincias de que tenho conhecimento indireto, por leituras, ou
ao descrever outras que vi de perto, a inteno continua a mesma 
a de convidar os camaradas a quem escrevo a assumir uma posio
crtica, de que resulte a possibilidade de recriar as sugestes que
vou fazendo ao correr da pena.
    Longe de mim, portanto, pensar que cada carta minha deva ser
tomada como uma espcie de ABC, de frmula acabada, o que
seria, de resto, no apenas a expresso de um desrespeito pelos
camaradas, mas tambm a demonstrao de que no teria
percebido que uma das melhores caractersticas de vocs est na
harmonia que vocs conseguem entre a humildade verdadeira que
os permite aceitar a contribuio estrangeira adequada aos
interesses do pas e o sentido profundo da autonomia que no pode
ser ferida. Estas virtudes  que expressam a maturidade poltica de
vocs  no se aprendem em seminrios nem so fabricadas em
laboratrios. O PAIGC, por sua vez, no as inventou. Constituiu-se
nelas que se forjaram na prxis da libertao em que o povo
oprimido da Guin foi o grande educador-educando de seus lideres.
Amlcar Cabral  o smbolo perfeito dessas virtudes.
     Foi exatamente esse esprito de auto-respeito, de vigilncia, de
cuidado com a Histria que ao ser feita por vocs os est refazendo
que provocou em todos ns do IDAC este quase irrefrevel desejo
de oferecer o melhor de ns  luta de vocs pela reconstruo da
Guin-Bissau e Cabo Verde. O melhor de ns, que reconhecemos
ser apenas um mnimo, consideradas as limitaes de cada um.
     Talvez pudesse dizer, perdendo agora um pouco a humildade,
que uma das melhores maneiras de se lerem minhas cartas seria a
de, aps tentar a compreenso de sua globalidade, procurar retirar
delas possveis linhas de trabalho que me passaram despercebidas,
mas que se encontram ocultas numa ou noutra afirmao no corpo
das mesmas. No fundo, ler profundamente uma carta  reescrev-
la.
     Tenho andado um pouco abalado de sade, o que me fez cortar
certos compromissos. No h dvida porm de que em breve
estaremos ai novamente, quando espero fazer um solene
reencontro com as mangas e os cajus  saudades grandes que
tenho!
    Pretendemos Elza e eu ficar uns dias alm da semana
oficialmente programada para alguma atividade extra  uma delas
junto  comisso de alfabetizao, no a Nacional  com Mnica,
Edna, Alvarenga, Paulo e Jos. Outras atividades para esse tempo
extra podem ser organizadas a com nossa presena.
    Um abrao para voc, para a camarada Beatriz e carinhos ao
querido neto Pansau (desta vez, creio, est correta a grafia).

                                                              Paulo

P.S. impertinente  Querido camarada Mrio,

Mesmo que esteja sem notcias da, espero que a Comisso recente-
mente recriada por voc na ltima reunio de sntese, em fevereiro,
e a quem escrevi a carta cuja cpia lhe envio, j esteja
funcionando, com Edna, Mnica, Alvarenga, Paulo e Jos  no sei
se haver outras pessoas. O papel desta comisso  realmente
importante. A dinmica do trabalho na rea civil depender muito
do que se possa fazer no seio da comisso que, por sua vez, deve
ainda fornecer materiais  Comisso Nacional  qual cabe pensar as
linhas mais gerais da poltica da campanha. Fiz um apelo idntico ao
camarada Julinho, do ponto de vista das FARP.
    Perdoe a insistncia  ela , porm, insistncia de camarada.



                                                              Paulo




                                       Genebra, abril de 1976
                                                       (Carta n 5)


Camaradas Mnica, Edna, Alvarenga, Paulo e Jos,
   Esta  a primeira vez que, de maneira explicita, quase
"oficial", lhes escrevo, dirigindo-me  Comisso, no apenas
criada mas, espero, em plena funo, e que se compe de
representantes de diferentes setores no campo da alfabetizao
que atuam, porm, dentro dos mesmos marcos que orientam a
poltica do PAIGC e do Governo.
   Em setembro do ano passado, quando de nossa primeira visita
ao pas, na parte final de nosso trabalho, a que se chamou
"reunio de sntese", sob a coordenao do Camarada Mrio
Cabral e com a presena de representantes dos vrios
Departamentos do Comissariado de Educao e da equipe do
IDAC, entre um bom nmero de pontos concretos e viveis que
constituem hoje ncleos centrais do nosso programa de
colaborao, se encontrava a criao de duas comisses que, por
sua vez, no fechava as portas a outras comisses ou sub-
comisses ou comits, que a prtica viesse a exigir.
   A primeira das comisses a ser criada se comporia, pelo
menos num inicio, de representantes que atuassem nas bases
como responsveis pelo andamento de Crculos de Cultura na
alfabetizao e na ps-alfabetizao, num setor especifico, o das
FARP, por exemplo, e representantes de setores da rea civil,
com projetos em andamento  projetos junto a comits polticos
de bairro; de juventude, de mulheres, etc.
   O papel fundamental desta comisso, na verdade indispensvel,
era o de, inicialmente, assegurar uma certa regularidade na ao
entre os diferentes setores de trabalho, proporcionando ainda a
seus membros uma excelente oportunidade de, discutindo sobre
suas especificas experincias, aprenderem mutuamente dos acertos
e dos equvocos praticados.
   No fundo, as reunies desta comisso devem ser sobretudo
reunies de avaliao*, no sentido em que numa de minhas cartas
falei da avaliao. Quer dizer, de uma ao em que A e B avaliam
juntos uma prtica dada ou dando-se, em funo de certos
objetivos, sobretudo polticos, que iluminam a prtica avaliando-se
para que, assim, possam na prxima prtica ser mais eficientes.
    Por isso mesmo  que, em reunies como estas, de camaradas
militantes, nada pode ser ocultado: nem o acerto, nem o equivoco.
Ocult-los  que constitui o verdadeiro erro.
    No esforo fantstico em que estamos todos engajados na
Guin-
Bissau e Cabo Verde, o problema que se nos coloca no  o de
sermos
individualmente excelentes especialistas, mas o de aprender a
realizar,
em equipe, o vivel, cada vez mais corretamente.
        importante que no nos deixemos enlevar por nossas
positividades, fazendo delas uma cobertura, discreta ou no, para
algumas debilidades, ou que tentemos transferir a causa de nossas
debilidades a fatores inexistentes. Como camaradas militantes
comprometidos na mesma luta, com os mesmos objetivos, devemos
*
    De programao tambm
aprender esta coisa bvia: ningum sabe tudo; ningum ignora
tudo. O caminho, pois, para superar nossas fraquezas est em no
escond-las, mas em discuti-las em funo do concreto onde elas se
expressam, como o caminho de confirmar as nossas positividades
jamais poder ser o de guard-las avidamente conosco.
    Ambos esses casos a que me referi so casos-limite, expresses
de
uma certa ideologia individualista contra que, mais uma vez com
Amlcar Cabral, devemos estar vigilantes.
    Finalmente, os esforos desta Comisso, de que o Camarada
Mrio Cabral e o Camarada Julio Carvalho estaro sempre a par e,
quando possvel, deles participando diretamente, melhoraro,
corrigiro, desenvolvero a prtica realizando-se nas bases e se
constituem como
subsdios indispensveis  tarefa da Comisso Nacional, j em ao
e
que, partindo do conhecimento do que se vem fazendo a nvel local
e
regional, pensa as linhas polticas gerais do programa.
     portanto a esta comisso que ora escrevo, convencido de sua
existncia, dada a maneira enftica com a qual sua criao foi uma
vez
mais proclamada pelo Camarada Mrio Cabral quando da reunio de
sntese de nossa ltima visita em fevereiro.  possvel, porm, que
haja omitido algum nome, pelo que me desculpo.
    Gostaria de, centralmente, retomar nesta carta, em que estarei
tocando num ou noutro ponto j referidos nas anteriores, uma
proposta de trabalho que fiz, h seis anos, a um grupo de
educadores latino-americanos no Mxico.
    Talvez seja interessante, porm, chamar a ateno,
imediatamente, para o fato de que no  minha inteno tomar a
proposta    apresentada      como     um    projeto   (mesmo     que,
constantemente, fale em projeto no corpo da carta) e, de acordo
com os princpios normais de apresentao de um projeto, analis-
lo detidamente em suas diferentes etapas, incluindo o capitulo
necessrio s previses oramentrias. Este ser um trabalho
posterior a ser feito se, primeiro, as idias aqui apresentadas como
sugestes tm alguma coisa realmente que ver com a realidade do
pas; segundo, se as sugestes coincidem com os objetivos
imediatos do Partido e do Governo, quanto s relaes entre
educao e produo, apresentando, assim, uma certa viabilidade
em face das condies do pas.
   Antes mesmo de desenvolver a proposta, direi, rapidamente,
algo sobre dois fatos que me levaram, pelo menos indiretamente, a
pensar em express-la. O primeiro, bem mais remoto, foi a minha
prpria experincia, criana ainda, sendo alfabetizado por meus
pais,  sombra de mangueiras frondosas, no quintal da velha casa
em que nasci, no Recife.
   As palavras com que me alfabetizei eram palavras de meu
universo vocabular infantil, que eu ia escrevendo no cho, meu
"primeiro quadro negro", com gravetos, meu "primeiro giz".
    O segundo fato, o mais recente, se deu no Chile, onde e quando
tive a oportunidade de ver, gravadas no cho dos caminhos que
levavam s reas de cultivo, palavras escritas pelos camponeses
recm-alfabetizados, com seus instrumentos de trabalho.
    Estes dois fatos, to distantes entre si, ao mesmo tempo to
prximos em certos aspectos um do outro, me fizeram pensar nas
sugestes h tanto tempo feitas e agora renovando-se nesta carta e
porque renovando-se ganhando matizes novos que no tinham
quando de sua primeira apresentao.
    A idia bsica da proposta  a de tomar uma rea de produo
agrcola, que esteja sofrendo ou prestes a sofrer, de acordo com a
anlise feita na carta n 3, alguma transformao infra-estrutural,
como um Crculo de Cultura em si mesma. Desta forma, a
experincia existencial da populao, como um todo de que a
atividade produtiva  uma dimenso central, se constitui como a
matriz de todo o quefazer educativo, no s no plano da
alfabetizao e da ps-alfabetizao de adultos, mas tambm no da
educao de crianas e de adolescentes. Neste sentido, enquanto
contexto concreto em que se d a prtica produtiva, ela  tambm
contexto terico, no qual se pensa sobre aquela prtica. Tanto
quanto possvel, portanto, se tenta a compreenso do movimento
dinmico entre prtica e teoria no contexto mesmo da prtica.
    Isto significa, de um lado, que a atividade educativa, no setor da
alfabetizao e da ps-alfabetizao de adultos, como no das
crianas e adolescentes, se pode dar no campo mesmo (embora
no exclusivamente)  sombra de uma rvore, nos meses de sol, e
sob o abrigo de palhoas (palhotas) funcionalmente construdas
pela prpria comunidade, no perodo das chuvas, at que melhores
condies de abrigo aparecessem. De outro, que a educao como
ato de conhecimento e atividade eminentemente poltica,
centrando-se numa temtica que emerge da realidade concreta dos
educandos e associada  produo, deve ser vista como um fator
importante no processo de transformao do pensamento do povo,
algo sobre que Amlcar Cabral sempre insistiu. Desta forma, o
tempo a ela dedicado, sobretudo no caso da alfabetizao de
adultos, dentro mesmo da jornada de trabalho, se e quando
necessrio, deve ser considerado como tempo igualmente dedicado
 produo.
   A primeira grande "codificao", cuja descodificao vai
desvelando uma srie de aspectos componentes do processo de
trabalho,  o contorno natural da rea, j alongado em contorno
cultural, pela presena transformadora dos seres humanos nele.
   Num tal projeto, na medida em que a vila  tomada, toda ela,
como um grande Crculo de Cultura, todos nela se vo engajando,
num processo educativo em que todos se vo tornando, ao mesmo
tempo, educandos e educadores uns dos outros. O trabalho
baseado na ajuda mtua, no tratamento da terra, na semeadura, na
colheita, na construo de "palhotas", nos servios mnimos
necessrios  higiene local, deve ser estimulado ao mximo,
discutindo-se as vantagens do mesmo sobre as atividades de
carter individualista.
    Em ltima anlise, um tal projeto visa a sistematizar, sem jamais
burocratizar, a experincia educativa assistemtica, em tempo
algum estranha a nenhuma comunidade humana.
    O papel de uma pequena equipe de educadores, devidamente
capacitados e que devem incorporar-se totalmente  vida
comunitria, participando de sua atividade produtiva da mesma
forma que os camponeses, seria, entre outros, o de tentar aquele
esforo de sistematizao a que me referi. Esforo a ser realizado
com a populao e nunca simplesmente para ela.
    O marco geral em que se configurar o contedo programtico
da educao  o que conhecer*  em qualquer de seus nveis ,
como disse antes, a experincia existencial da populao, tomada
como um todo, de que a atividade produtiva  uma dimenso
determinante.
    No fundo, numa educao como esta, o que se pretende  o
exerccio de uma reflexo crtica, aprofundando-se cada vez mais
sobre a maneira espontnea como os seres humanos "se movem"
no seu mundo.  tomar a quotidianeidade mesma em que se
encontram, como objeto de sua anlise, no sentido de desopaciz-
la, alcanando assim, a pouco e pouco e na continuidade da prtica,
a razo de ser da prpria maneira como esto sendo no mundo. Em
outras palavras,  superar o conhecimento que permanece
preponderantemente ao nvel da sensibilidade dos fatos pelo
conhecimento que alcana a razo de ser dos mesmos.
    Foi isto o que Amlcar Cabral procurou sempre fazer quando,
transformando os acampamentos de luta em verdadeiros contextos
tericos, considerava to importante discutir com os camaradas
militantes o andamento da luta, as tticas a serem usadas, os
objetivos a alcanar quanto debater a explicao cientfica dos
troves e dos relmpagos e a crena nos amuletos*. Amlcar Cabral
sabia muito bem que uma coisa tinha que ver com a outra.
    Na medida em que a populao v tomando a sua prpria
experincia quotidiana  a sua maneira espontnea de "mover-se"
no mundo  como objeto de uma reflexo crtica, o contedo
programtico da educao vai emergindo em alguns de seus

*
  A propsito da delimitao do que conhecer, do como, do para que etc., ver
carta n 3.
*
 "A nossa cultura nova, dentro ou fora da escola, temos que p-la ao servio de
nossa resistncia, ao servio do cumprimento do programa do Partido. Tem que
ser assim, camaradas. A nossa cultura deve desenvolver-se ao nvel nacional, da
nossa Terra. Mas sem desprezar, nem considerar menos, a cultura dos outros, e
com inteligncia, aproveitando da cultura dos outros tudo quanto  bom para ns,
tudo quanto pode ser adaptado s nossas condies de vida. A nossa cultura se
deve desenvolver numa base de cincia, deve ser cientifica, quer dizer, no
acreditar em coisas imaginrias. A nossa cultura deve evitar amanh qualquer um
de ns pensar que o relmpago  mostra de que Deus se enraiveceu, a trovoada
 a voz do cu que fala, ou "IRAN" furioso. Na nossa cultura, toda gente tem que
saber amanh que trovoada so duas nuvens que se chocam, uma carregada de
eletricidade positiva e outra carregada de eletricidade negativa e quando se
chocam provocam uma fasca, que  o relmpago, e am barulho, que  a
trovoada". Amlcar Cabral, Resistncia cultural  PAIGC  Unidade e Luta,
Publicaes Nova Aurora, Portugal, l974, pgs. 198-9.
elementos bsicos. Contedo programtico que se estrutura em
torno de diferentes mas inter-relacionados aspectos que compem
aquela maneira espontnea de "mover-se" no mundo.
   Este "mover-se" ou orientar-se espontaneamente no mundo, que
implica em estar no mundo e com o mundo, algo mais que viver 
envolvendo, indiscutivelmente a conscincia de si dos sujeitos que
se movem e a conscincia do mundo em que se movem no
significa, porm, que o mundo  realidade  seja tomado como um
objeto de real conhecimento. Da a nfase de Cabral em que "a
nossa cultura deve se desenvolver numa base de cincia, deve ser
cientfica, quer dizer, no acreditar em coisas imaginrias".
   Na experincia da quotidianeidade, ao orientar-se na realidade,
os sujeitos a tomam como o "campo em que se exerce sua
atividade prtico-sensvel e sobre cuja base surge a intuio prtica
imediata da realidade".**
   O fundamental, porm,  que, no processo educativo, a realidade
seja tomada pelos sujeitos que nela se "movem" no apenas como
o "campo em que se exerce sua atividade prtico-sensvel", mas
tambm e sobretudo como objeto de um conhecimento cada vez
mais rigoroso. Conhecimento que esclarece e ilumina a prpria
atividade prtico-sensvel que tem na realidade o campo em que se
d. "A prtica utilitria imediata, para citar mais uma vez a Kosik, e
o sentido comum cor-respondente pem aos homens em condies
de orientar-se no mundo, de familiarizar-se com as coisas e
manej-las, mas no lhes proporcionam uma compreenso das
coisas e da realidade".*Uma compreenso crtica das coisas e da
realidade, acrescentaria eu a Kosik.
    Importa-nos, pois, a educadores e educandos militantes,
enquanto sujeitos que nos "movemos" no mundo, assumir o papel
de sujeitos conhecedores do mundo que transformamos e em que
nos movemos. Importa-nos, fundados na anlise crtica de nossa
prtica, ir alcanando um conhecimento cada vez mais rigoroso da
realidade em transformao. Conhecimento atravs do qual se vo
superando, pela desopacizao da quotidianeidade, certas formas
ingnuas de confrontao com o concreto, que se consubstanciam
nas "debilidades da cultura" a que Cabral se referia.
    Neste sentido  que insisti, na carta n 3, em que a educao
envolve sempre uma certa teoria do conhecimento posta em
prtica. E que esta teoria posta em prtica demanda, na perspectiva
do PAIGC,




**
  Karel Kosik  Dialectica de lo Concreto, Editoral Grjalbo,
Mxico, 1967, pg.
*
    Karel Kosik  Obra citada, pg. 26.
L. Juramento dos dirigentes do PAIGC no momento da declarao
   da independncia da Repblica da Guin-Bissau. Melina do Bo,
   setembro de 1973. Ao centro, o Presidente Luiz Cabral.
   (Publicao autorizada pelo Comissariado de Informao e
   Turismo da Repblica da Guin-Bissau)
um papel importante do educando. Um papel crtico de quem
conhece tambm e no a atitude passiva de quem apenas recebe o
"conhecimento" que se transfere.
    Num tal projeto, os educadores militantes, que devem  insista-
se  participar da atividade produtiva tanto quanto os habitantes da
rea, o que vale dizer que devem tornar-se habitantes da rea
tambm, procurariam constituir grupos de estudo, com 15 a 20
participantes. Grupos de estudo que, discutindo sobre sua
experincia diria, estariam debatendo a sua prtica produtiva que,
por sua vez, possibilitaria a anlise de um sem-nmero de temas a
ela ligados.
    A mobilizao da populao da rea, que inclui a interpretao
do projeto em suas linhas gerais,  o ponto de partida do mesmo. A
mobilizao da populao, por sua vez, implica na sua organizao,
indispensvel ao desenvolvimento eficaz do projeto e se constitui,
para os educadores militantes, num primeiro momento em que
devem comear a captar as aspiraes bsicas dos indivduos e a
viso que tm de si mesmos e da realidade em sua experincia
quotidiana.
    Na verdade,  preciso que o projeto seja assumido, desde o
principio, pela populao local como um quefazer seu, que, sendo
significativo para ela, lhe possibilite, por outro lado, contribuir para
o esforo geral de reconstruo do pas.
    Estes requisitos so bsicos na medida mesma em que
coincidem tambm com os princpios polticos do Partido e do
Governo, que estimulam a participao criticamente consciente do
povo no empenho da reconstruo nacional e no da criao de uma
nova sociedade. Participao sem a qual dificilmente se reconstruir
o pas e mais dificilmente ainda se criar a nova sociedade.
    Estes dois aspectos  a significao que o projeto deve ter para
a populao da rea e a sua repercusso na luta pela reconstruo
do pais  devem ser, de um lado, concreta, clara e objetivamente
discutidos na fase primeira do mesmo, a de sua interpretao 
populao local; de outro, constantemente retomados durante todo
o processo.
    Sem a percepo ntida de ambos e, em muitos casos,
sobretudo inicialmente, do primeiro de tais aspectos, sem pretender
com isto dicotomiz-los, o projeto pode fenecer antes mesmo de
nascer. que, se para aquelas populaes que estiveram desde os
comeos comprometidas, desta ou daquela forma, com a luta de
libertao, a expresso "re-construo nacional" tem uma
significao concreta, para outras, a mesma expresso pode ser
demasiado vaga e abstrata. Da a necessidade de, conforme as
circunstncias, orientar-se a mobilizao no sentido da reconstruo
da realidade mais prxima da populao  sua tabanca e at
mesmo as ruas de um bairro. A partir do engajamento numa prtica
concreta, ao nvel local,  possvel dar-se o salto ao regional e ao
nacional. Por outro lado,  importante, voltando mais uma vez 
carta n 3, que projetos como este se fundem nas transformaes
estruturais realizando-se ou prestes a realizar-se. Transformaes
que, movendo o contexto tradicional, criam novas expectativas na
populao e do  alfabetizao e  ps-alfabetizao um carter de
necessidade. Neste sentido se estabelece um dinamismo no
processo de conhecimento, no importa o nvel em que se esteja
dando, em relao direta com o dinamismo que se vai operando no
contexto em transformao.
    No sei se vocs j leram algo a propsito da transformao de
Tachai, pequena vila montanhosa da China setentrional, que o prof.
Lee considera "o mais exitoso exemplo de aplicao da
alfabetizao e da educao ideolgica de massas ao
desenvolvimento rural".*
    A experincia de Tachai, que a foi tornando um caso exemplar
para a China toda e uma atrao para educadores de todo o mundo,
revela, claramente, o dinamismo a que me referi.
    Em 1945, depois da expulso dos japoneses pelas tropas
comunistas chinesas, se deu inicio a "um plano de alfabetizao que
incorporava um esquema para o comeo de um programa de
reforma agrria, como pr-condio ao desenvolvimento da vila". A
reforma agrria, pr-condio para o desenvolvimento da vila, se
associava, como projeto ainda, ao clima geral de motivao, que a
caracterizava, com a expulso do invasor.
    O primeiro momento da campanha de alfabetizao, toda ela
eminentemente poltica, em qualquer de suas fases, se centrou na
discusso em torno da urgncia da reforma agrria.
    Desta forma, o mpeto de renovao da realidade local por parte
da populao camponesa a fez sentir a necessidade da alfabetizao
atravs da qual lhe foi possvel a compreenso critica de uma
necessidade, sem cuja satisfao aquele mpeto se perderia e, com
ele, o prprio esforo de alfabetizao. Mas, realizada a reforma
agrria, os camponeses percebem que, apesar de tudo, no podiam
aumentar a produo (sem a qual a transformao de Tachai se
frustraria) por "falta de animais e de instrumentos" de trabalho.
    Foi a experincia da nova necessidade que, surgindo no
dinamismo mesmo da transformao da realidade, provocou uma
nova fase do programa de alfabetizao, centrada ento na
discusso em torno das vantagens da organizao para o trabalho
em cooperao.
    Deste modo, a necessidade sentida passa a ser criticamente
percebida e uma primeira resposta a ela  dada atravs da
organizao de uma equipe de ajuda mtua, coordenada por Chen
Yung-Kuei, que vai assumindo, a pouco e pouco, uma liderana
indiscutvel no desenvolvimento de Tachai.
    Os resultados positivos da experincia de Chen Yung-Kuei e
seus companheiros motivaram outros tantos camponeses que a eles
vieram se associar. Assim, a equipe inicial de trabalho  base da
ajuda mtua se transformou em 1952 numa cooperativa a nvel
primrio; em 1956 se alonga em cooperativa socialista e,
finalmente, em 1958 a vila de Tachai se torna uma "brigada de
produo".

*
  H. P. Lee  "Education and Rural Development in China today", World Yea book
of Education, University of London. Institute of Education, Teachers College,
Columbia University, N.Y. Reproduzido em: Literacy Work, I.I.A.L.M., Vol. 4, N 2
Outubro-Dezembro, l974, pg. 55.
    O processo de educao popular acompanha todas estas
modificaes, estimulando-as e por elas sendo estimulado.
    Muito tempo depois de haver participado, como analfabeto, da
campanha de alfabetizao de sua vila e de ter liderado o primeiro
grupo de trabalho cooperativo, em conversa com professores norte-
americanos que visitavam Tachai, Chen sumaria numa frase as
razes por que sua vila se transformou to radicalmente: "O poder
criador do povo  esta  a fora de Tachai e da China".*
    Talvez no fosse demasiado recapitular, rapidamente, os passos
fundamentais da experincia de Tachai, acompanhando, quase
didaticamente, o movimento dinmico entre a educao, includa a
alfabetizao de adultos, a que se segue toda uma srie de
atividades, atravs de grupos de estudo, no referidas nesta carta,
e as transformaes estruturais.
    Durante a invaso japonesa, explorao, dominao, falta de
iniciativa.
    A expulso do invasor em 1945 pelos comunistas chineses
desperta a populao completamente e a envolve num sentimento
oposto  o da esperana, o da autoconfiana, que a leva
necessariamente a comprometer-se num esforo srio de
reconstruo de sua vila.
    O novo clima criado com a libertao  suficiente para fazer a
populao aderir lucidamente  campanha de alfabetizao que o
Partido Comunista lhe prope. A campanha de alfabetizao, por
sua vez, previa um esquema de reforma agrria sem cuja realizao
seria invivel a reconstruo de Tachai. Desta forma, a campanha
associa ao aprendizado da leitura e da escrita, a "leitura" da
realidade scio-econmica, de que a necessidade da reforma
agrria era um dado fcil de ser "lido".
    Percebida a urgncia da reforma, que no se faz sem a remoo
de certos obstculos, cuja confrontao se constituiu tambm como
fator de formao de conscincia poltica da populao, se efetiva,
finalmente, a reforma.
    Realizada esta, os camponeses se defrontam com uma nova
necessidade, que emerge agora de maneira clara, destacada, no
dinamismo da prpria transformao  a necessidade do trabalho
baseado na ajuda mtua, somente como poderiam, juntando suas
foras, superar suas limitaes individuais na atividade produtiva.
Somente como, indo mais alm de interesses individualistas,
poderiam aumentar a produo e consolidar as vitrias at ento
alcanadas. Acompanhando o novo momento, a educao se orienta
na mesma direo  a do estimulo ao trabalho solidrio, de ajuda
mtua, que termina, de grau em grau, por levar Tachai a constituir-
se numa "Brigada de Produo".
    Talvez fosse interessante, num puro parntese, aproveitar a
oportunidade em que estamos discutindo e analisando a hiptese de
trabalho que apresento nesta carta, a fim de chamar a ateno
mais uma vez para as relaes entre a educao e o projeto global
da sociedade.

*
 China! Inside the People's Republie, Committee of Concerned Asian Scholars,
Bantam Books, Nova York, 1972, pkg. l58.
     Um plano como o que estamos discutindo, por exemplo, no
pode ser posto em prtica, a no ser em escala demasiado
reduzida, se, no projeto global da sociedade, a poltica estabelecida
para o desenvolvimento econmico se orienta no sentido de uma
rpida industrializao a ser feita atravs do "tributo" a ser pago a
ela pela produo agrcola. Pelo contrrio, um plano educacional
como este pressupe uma poltica industrial que, necessria e
indispensvel, enfatize-se, tenha na economia agrcola a sua base,
jamais a sua serva dependente. No primeiro caso, as relaes entre
agricultura e indstria so em ltima anlise as relaes entre
camponeses e trabalhadores urbanos industriais, produzindo todos
para o bem-estar social e coletivo*, no segundo, necessariamente
se cria um fosso entre os padres de vida de uns e de outros. E
tudo isso tem que ver, por sua vez,com a concepo mesma da
produo.
     Se o lucro continua a ter nela um papel, seno idntico,
semelhante ao que tem na economia capitalista, a produo se
orientar, como disse na carta n 3, na direo dos valores de troca
e no na dos valores de uso. Assim, no ser de estranhar que os
estmulos  produo sejam sempre de ordem material, ao contrrio
do que centralmente pretende um programa educativo como o que
aqui discutimos. Programa que, estreitamente ligado  produo,
busca incentivar a responsabilidade social e o trabalho cooperativo,
com vistas ao interesse comum e que, em ltima anlise, se
fundamenta numa profunda crena nos seres humanos. Crena
critica e no ingnua na sua possibilidade de re-fazer-se na prtica
da reconstruo de sua sociedade.
     Uma das vantagens de um projeto como este, ao propor a
reflexo crtica sobre a realidade contextual em "convivncia" com
ela,  a de estimular o surgimento de um novo tipo de escola  a
que, em sintonia com o projeto de nova sociedade que se procura
criar na Guin-Bissau e Cabo Verde, no dicotomiza teoria da
prtica, reflexo de ao, trabalho intelectual de trabalho manual.
     Correndo o risco de ser exageradamente reiterante, diria que,
to cedo quanto realisticamente possvel, deve ser abolida a escola
dicotomizante, onde quer que exista, e jamais permitida a sua
presena em reas ainda virgens ao contacto de sua fora
alienante.
     H pouco mais de um ano tive a oportunidade de conhecer uma
experincia realmente rica numa zona rural do Caribe, de que
alguns aspectos, entre os quais o de como os camponeses
organizavam sua prpria educao, nos podem aportar valiosas
sugestes ao projeto sobre que conversamos nesta carta.




*
  A este propsito, ver Paul T. K. Lin  "Development guided by values:
Comments on China's road and its implications", em On the Creation of a just
world order, organizado por Saul H. Mendlowitz, The Free Press  A Division of
Macmillan Publishing Co., Nova York, l975, pgs. 259-297.
    Organizados em torno de uma cooperativa"** de produo, os
camponeses dividiram a rea do cultivo em unidades de trabalho,
participando de cada uma um mnimo de 15 trabalhadores.
    Em cada uma dessas reas construram uma palhoa que
funciona como restaurante e centro de estudos e em que duas ou
trs companheiras (no tinham conseguido superar ainda o
preconceito de que aos homens no lhes cabe cozinhar) preparam o
almoo. Ao chegarem, cedo, ao campo, se dirigem  "sede" da rea
 a palhoa  deixando l a contribuio que trazem  uma galinha,
um peixe, pescado na baa prxima, um pedao de carne, uma
fruta-po, legumes, frutas  no tendo nenhum o direito de, na
hora do almoo, reivindicar a contribuio pessoal trazida.
Mescladas as quotas pessoais na grande panela de todos, j nada
pertencia a ningum. O trabalho em comum, solidrio, tem que ver
com a comida em comum.
    Cada grupo elege um lder que, trabalhando da mesma forma
que os demais na produo, tem responsabilidades de organizao,
de coordenao e, s vezes, de representao do grupo junto 
administrao, tambm camponesa, da cooperativa.
    Dedicam duas horas ao almoo em que, invariavelmente,
discutem problemas os mais variados  tcnico-agrcolas,
sanitrios, financeiros, comerciais e a dimenso poltica desses
problemas. Pensam sobre sua prtica. Assisti a uma dessas
reunies,  sombra da palhoa rstica, e pude constatar, mais uma
vez, o bvio: que  pensando a prtica que aprendemos a pensar
certo.
    Uma vez por semana os lideres dos grupos se encontram com o
engenheiro agrnomo (que vai ao campo diariamente) e fazem
juntos a avaliao do que ocorreu entre uma reunio e a outra. No
encontro seguinte com seus grupos, os lideres fazem uma anlise
de sua reunio com o agrnomo que, enquanto funcionrio da
cooperativa,  assessor tcnico dos camponeses.
    Alm destas reunies entre os grupos de trabalho e seus lderes
e daquelas entre estes e o agrnomo, h outras de carter
administrativo com o corpo dirigente da cooperativa e outras
especiais, em que o presidente campons discute com seus
companheiros sobre as linhas gerais de ao, sobre os problemas
mais urgentes a serem enfrentados, etc.
    Depois de algum tempo de realizarem esta experincia, os
camponeses resolveram ampli-la. Passaram ento a motivar a
populao do pequeno centro urbano a que sua rea rural se liga,
oferecendo quatro seminrios anuais sobre a realidade local,
partindo, naturalmente, da anlise de sua prpria experincia. Os

  **
      Esta cooperativa nasceu  raiz de um conflito entre os camponeses e a
empresa estrangeira que explorava a terra e a fora de trabalho dos camponeses.
O conflito, por sua vez, resultou da demisso de um agrnomo nacional, havia
pouco contratado, com quem os camponeses se solidarizaram totalmente, devido
 maneira democrtica e aberta que caracterizava suas relaes com eles. O
conflito se aprofundou a tal ponto, gerando uma extensa e prolongada greve  a
primeira da regio  que terminou por impor a "nacionalizao" das terras
exploradas pela empresa estrangeira, de que uma parte, apenas, foi "cedida" aos
camponeses, em regime de arrendamento, para o cultivo.
temas destes seminrios so escolhidos pelos camponeses que
tambm indicam entre si os companheiros que devem apresent-
los, em comunicaes curtas, a que se segue um debate.
    Quando de minha visita de quatro dias, em que fui hospedado
pelo Presidente da Cooperativa, participei de um desses seminrios
abertos  populao urbana. No me surpreendeu em nada a
maneira lcida como os camponeses trataram os temas do
seminrio, como criticavam o individualismo, o oportunismo, o
vedetismo; como enfatizavam a necessidade do trabalho
cooperativo, como repudiavam as solues verticais, como
defendiam o direito de ter voz; como sua prtica poltica os
radicalizava, fazendo-os ver que a causa dos problemas mais
fundamentais com que se defrontavam nem sempre se encontrava
na "intimidade" de seus poucos hectares. Alcanavam, a pouco a
pouco, a viso da totalidade, superando assim a percepo focalista
dos problemas.
    Ao escrever esta carta, no sei se esta experincia foi abortada
ou se continua e, se continua, se ter sido distorcida. Nenhuma
dessas hipteses me surpreenderia.
     interessante contudo observar como esta experincia
sucintamente referida nos remete a alguns pontos sobre que temos
insistido em cartas anteriores e nesta mesma.
    Um deles, por exemplo,  o papel do conflito da clarificao da
conscincia poltica das massas populares nele engajadas. Os
mesmos camponeses que vi ativos, organizando-se na defesa de
seus interesses, se encontrariam, poucos anos antes, apticos.
    A experincia da luta de libertao na Guin-Bissau, para falar
s nela, e suas consequncias na clareza poltica de seu povo, 
demasiado rica a esse propsito.
    O outro ponto  o das relaes entre a educao, includa a
alfabetizao de adultos, e as transformaes infra-estruturais.
Antes do conflito de que resultou a criao da cooperativa, que
alterou as relaes sociais de produo, a mesma populao
camponesa que conheci envolvida num interessante esforo
educativo no tinha condies objetivas nem subjetivas para tal.
Dadas estas condies, foi possvel iniciar um trabalho em que se
tentava, mesmo ainda a nvel introdutrio, a unidade da prtica e
da teoria, da ao e da reflexo, do trabalho manual e do trabalho
intelectual.
    Finalmente, a experincia relatada demonstra a possibilidade de
tomar-se uma rea de produo como um grande crculo de cultura,
em que todos educam e se educam mutuamente, tendo na sua
prtica o ponto de partida para a compreenso crtica de sua
quotidianeidade.
    Faamos, agora, uma tentativa de esquematizao, de modo
nenhum, porm, rgida, dos pontos centrais referidos at agora.
I  Tomar uma rea de cultivo como um Circulo de Cultura em
        si mesma.
II  Como ponto de partida do projeto, a mobilizao da populao,
o que implica na sua organizao, no sentido de, atravs de um
comit local, participar diretamente de sua administrao. A
populao deve sentir o projeto como seu. Dai a necessidade, no
processo da mobilizao, de uma interpretao dos objetivos do
mesmo, de certos aspectos metodolgicos em que o projeto
implica, bem como da importncia da presena permanente, se e
quando possvel, de jovens que tenham terminado seu curso de
Liceu e que se incorporaro  populao como trabalhadores
tambm. A incorporao destes jovens  populao local  repito se
e quando possvel  coloca a eles o problema de sua "morte" como
intelectuais formados  distncia da prtica produtiva e  populao
a aceitao deles como verdadeiros camaradas.
Mesmo que um programa como este seja mais facilmente realizvel
por militantes das FARP, que juntem  sua conscincia poltica sua
condio tambm de camponeses e sua experincia no campo da
alfabetizao e da ps-alfabetizao, me parece da mais alta
importncia tentar a adeso de alguns jovens recm saindo do Liceu
e que se encontrem militando no Partido.
Se no lhes foi possvel a esses jovens, por vrias razes, entre elas
a da prpria idade, dar sua contribuio  luta pela libertao
nacional, esta seria, agora, uma forma de dar sua participao 
luta pela reconstruo nacional. Dois anos que dediquem  prtica
produtiva e politico-pedaggica, lado a lado com seus camaradas
camponeses, lhes daro o que o Liceu no 1hes pde dar,
independentemente da boa inteno de seus professores.
Esses jovens poderiam, de vez em quando, vir a Bissau, toda vez
que possvel acompanhados de camaradas camponeses, para
participar de seminrios com estudantes e professores do Liceu.
Seminrios em que discutiriam a experincia em marcha,
preparando, assim, o terreno para que outros jovens, motivados, se
engajassem em prtica idntica.
Seria este ainda um modo a mais de acelerar a reformulao to
necessria quanto urgente do sistema educacional do pas.
III  O contedo programtico da educao emerge da reflexo
crtica permanente sobre a prtica social de que a produtiva  uma
dimenso determinante. A anlise da prtica produtiva abre a
possibilidade ao estudo srio, que deve ir gradativamente
aprofundando-se, de uma temtica rica e plural. Estudo atravs do
qual se vai superando a pura opinio em torno dos fatos pela
compreenso de sua razo de ser.
Esta temtica plural e rica abarca desde as tcnicas agrcolas  a
semeadura, a colheita, o tratamento da terra, o combate s pragas,
 eroso, at a compreenso mesma do ato de produzir. A poltica
econmica do pas  o que produzir, como produzir, para que
produzir. Problemas sanitrios, cuja discusso pode viabilizar a
criao de um sub comit de medicina preventiva, com o
aperfeioamento dos "curandeiros" e das "comadres"  doutores
populares  que, devidamente treinados pelo pessoal especializado
do Comissariado de Sade, poderiam prestar um inestimvel
servio  populao.
       Seria exaustivo aqui e desnecessrio agora referir o sem-
nmero de temas que a reflexo sobre a prtica produtiva nos
possibilita e que vo compondo, em unidades de conhecimento
interligadas, o contedo programtico da educao. O importante 
que um programa que assim se constitui, de maneira dinmica,
jamais seja reduzido a frmulas acabadas, estticas e burocrticas.
Na carta n 3, a titulo de exemplo, vimos a riqueza temtica que a
palavra arroz nos poderia proporcionar.
IV A posta em prtica de um projeto como este exige a
colaborao estreita de diversos Comissariados  o da Educao, o
da Agricultura, o da Sade, o de Comunicaes, o de Finanas, o de
Comrcio, devendo o Partido, no plano local, regional e nacional,
estar no apenas a par da existncia do mesmo, mas
constantemente informado de seu andamento.
Em certas circunstncias seria o prprio Partido o iniciador do
processo, em colaborao com os Comissariados nele envolvidos.
Esta colaborao comea no momento mesmo em que se discute, a
nvel dos Comissariados e com a participao do Comissrio poltico
das FARP, a possibilidade de tal experincia, continua na etapa da
capacitao dos educadores e acompanha o projeto em todas as
suas fases.
V Impe-se uma relao constante entre o comit local da rea
em que se d a experincia e os diferentes setores dos diversos
Comissariados, diretamente ligados ao projeto. A maneira como
estabelecer essas relaes, o menos possvel burocrtica, ser
encontrada na prtica mesma do projeto. O fundamental  que elas
se realizem objetiva e eficientemente.
VI  Na medida em que seja possvel realizar uma experincia em
certa rea do pas e em que a populao nela envolvida desenvolva
a prtica de pensar sua prtica produtiva e de ir mais alm da mera
opinio dos fatos, a rea pode ir transformando-se no apenas num
exemplo para outras reas, mas tambm e por isso mesmo num
centro de capacitao de novos quadros.
A prtica ensinar a todos nela engajados a ver uma variedade de
aspectos, de problemas, que no esto sequer mencionados nesta
carta, e possivelmente retificar algumas das sugestes aqui dadas.
Finalmente, sem querer voltar a falar da importncia da gravao
do discurso campons e do variado uso que dele se pode fazer,
insistirei em que tanto quanto possvel os debates nos diferentes
grupos de estudo devem ser gravados.
                                                    Fraternalmente,
                                                         Paulo Freire




                                        Genebra, 7 de maio de l976

Camarada Mrio Cabral,

   Mais uma vez lamentamos Elza e eu no nos ter sido possvel
estar com vocs quando da ltima visita do IDAC.
    Segue a cpia da carta que escrevi a Paulo e, atravs dele, 
equipe toda. Como voc ver pela leitura da mesma, minha
inteno  a de pr problemas sobre a mesa, a de examin-los  luz
da prtica em que nos achamos envolvidos e no a de dar solues.
    Caso haja na carta algo que no corresponda  realidade do pas
e com que, por isso mesmo, voc no concorde, chame a minha
ateno para que, corrigindo-me, possa trabalhar melhor.
    Continuamos aguardando suas instrues sobre a remessa do
dinheiro de que lhe falei na carta que lhe mandei por Miguel.
Esperando encontr-lo em Dar Es Salaam, no prximo ms, vai aqui
o abrao do camarada e amigo



                                                             Paulo
                                          Genebra, primavera, 1976
                                                   (Carta n 6)

Meu caro Paulo,

    Recebi, h dias passados, sua carta em que me fala das
reunies mais sistematizadas entre vocs, que atuam em diferentes
setores no campo da alfabetizao de adultos.
    Sem querer re-insistir na necessidade do trabalho em comum,
sem o qual pouco poder ser feito; sem pretender re-enfatizar o
que j sabemos, o quanto a troca de experincias nos enriquece a
todos, estou convencido de que as dificuldades com que porventura
vocs se defrontem na busca de tal esforo podem ser facilmente
superadas.  que h um denominador comum que tende a
identific-los  o sentido da militncia. Na verdade, quanto mais nos
assumimos como militantes, clarificando-nos em nossa prtica
poltica, lcidos com relao ao em favor de quem e de que nos
encontramos comprometidos, tanto mais somos capazes de ir
vencendo as tentaes individualistas que obstaculizam o trabalho
em equipe.  enquanto militantes que nos fazemos muito mais do
que simples especialistas.  a militncia a que nos disciplina e nos
move a procurar conhecer melhor a realidade em cujo processo de
transformao e recriao nos achamos lado a lado com outros
militantes, vigilantemente despertos quanto a possveis ameaas.
    Neste sentido, um encontro de militantes que avaliam juntos
sua prpria prtica  prtica no para o povo, mas com ele  no
pode tornar-se um encontro de especialistas em atitude de defesa
um em face do outro. O encontro de militantes h de ser sempre,
por isso mesmo, um encontro dialgico, jamais polmico, o que no
significa a inexistncia de divergncias e de pontos de vista
diferentes, que devem ser superados pela discusso sria e
profunda dos mesmos.
    Por tudo isto  que sempre insisto, em minhas conversas com
educadores, no propriamente nas tcnicas e nos mtodos, mas na
clareza poltica do educador-militante, com relao ao interesse de
quem se encontra a servio.
    A militncia nos ensina que os problemas pedaggicos so
sobretudo ideolgicos e polticos, por mais que esta constatao
possa assustar a educadores que falam em fins abstratos da
educao e sonham com um modelo de ser humano desgarrado das
condies concretas em que o ser humano se acha.
    O novo homem e a nova mulher no se constituem na cabea
dos educadores, mas na nova prtica social que substitui a velha,
incapaz de cri-los.
     tambm a militncia correta, que demanda a unidade dialtica
entre a prtica e a teoria, a ao e a reflexo, a que nos estimula a
criatividade, contra os perigos da burocratizao e da rotina.
    A "convivncia", por exemplo, que venho tendo com temas
desde muito objetos de minha preocupao, jamais foi capaz de
"burocratizar" minha curiosidade em face deles. Aproximo-me
deles, enquanto deles "tomo distncia", apreendendo-os como
problemas, por isso mesmo como desafios a serem desvelados.
    No ato de rev-los, de re-examin-los, re-vejo e re-examino,
tambm, a percepo que deles tive na minha passada reflexo
sobre eles. Mais ainda, e sobretudo, re-vejo e re-examino a prtica
que tive, a prtica que estou tendo e a prtica dos outros, que tomo
como objeto de minha anlise critica  a prtica na qual os temas
se configuram como problemas.
    A minha curiosidade no se burocratiza na medida mesma em
que no me burocratizo em minha prtica, ponto de referncia
fundamental de minha reflexo. Assim, o permanente exerccio de
reflexo a que me obrigo se encontra sempre orientado ao concreto
em que me acho problematizado. Ao procurar "retirar" do concreto
os problemas em forma de temas para, pensando sobre eles,
compreender sua "raison d'tre", jamais aceito a tentao de
transform-los em vaguidades abstratas. No momento em que
aceitasse esta tentao,  que estaria desvinculando-me de minha
prtica, negando assim o seu papel de matriz de minha prpria
reflexo. Esta se converteria, ento, num jogo puramente
intelectualista, que se expressaria num palavreado, sonoro ou no,
mas palavreado sempre.
    A unidade dialtica entre ao e reflexo, prtica e teoria, se
impe a mim, qualquer que seja o contexto em que me encontre 
seja o contexto concreto em que atuo; seja o contexto terico em
que, "tomando distncia" daquele, examino o que nele se d.
    Da a insistncia com que digo e re-digo que a prtica de pensar
a prtica  a melhor maneira de pensar certo.
    Sem pretender dar conselhos, receitas ou aula,  exatamente
esta reflexo critica sobre a prtica de vocs, por vocs, que a
militncia correta lhes exige, que deve ser uma das preocupaes
centrais do trabalho da Comisso que os congrega e de cujos
primeiros encontros sistemticos voc nos d noticias em sua carta.
    Aproveitando, porm, a oportunidade em que lhe escrevo,
respondendo  sua carta e, atravs de voc, aos demais camaradas
da Comisso, gostaria de tocar num ponto que constantemente
emergiu nas reunies que a tivemos em fevereiro passado. Refiro-
me ao nvel ainda incipiente do trabalho de alfabetizao de adultos
nas reas populares de Bissau. Em todos os depoimentos em torno
do andamento deste trabalho notava-se quo distantes se achavam
os seus resultados, dos alcanados no mesmo esforo, no interior
das FARP.
    Mesmo que conheamos algumas das principais razes que
podem explicar os descompassos entre tais resultados, creio
interessante refletir um pouco sobre o fato, no sentido de repensar
 o que, segundo sua carta, vocs j esto fazendo  o at agora
feito, para encontrar diferentes maneiras de tornar mais eficiente o
trabalho nas reas populares, chamadas civis.
    Parece evidente que uma das razes fundamentais que
esclarecem o avano que se verifica nas atividades de alfabetizao
e ps-alfabetizao no seio das FARP  o alto nvel de conscincia
poltica de seus militantes. Conscincia poltica forjada na longa luta
de libertao.
    No  de estranhar, por isso mesmo, que esses militantes,
percebendo a luta pela reconstruo nacional como uma
continuao necessria daquela, percebam, tambm, em termos
crticos, a necessidade de aprenderem a ler e a escrever como uma
forma de melhor servirem  reconstruo do pas e no como um
meio de instrumentar-se no sentido de satisfazer a interesses
individuais.
     De estranhar seria que entre os militantes das FARP (mesmo
uma minoria) se associasse o aprendizado da leitura e da escrita 
obteno de bons empregos ou de uma posio de privilgio. Entre
eles, a expresso "reconstruo nacional" tem, indiscutivelmente,
um significado concreto. Significado que 1hes veio sendo desvelado
pela luta mesma. Nesta  que devem ter percebido bem a
advertncia de Amlcar Cabral de que "o povo no luta por idias,
por coisas que esto na cabea dos homens. O povo luta e aceita os
sacrifcios exigidos pela luta, mas para obter vantagens materiais,
para poder viver em paz e melhor, para ver sua vida progredir e
para garantir o futuro de seus filhos. Libertao nacional, luta
contra o colonialismo, construo da paz e do progresso 
independncia  tudo isso so coisas vazias e sem significado se
no se traduzem por uma real melhoria das condies de vida".*
      precisamente a clara compreenso desta advertncia que se
veio constituindo na luta pela libertao, que os faz ver na
reconstruo nacional a continuao necessria daquela luta.
     Em um dos Crculos de Cultura a cujos debates assistimos Elza e
eu, em que falavam da luta pela libertao, referindo-se a certos
episdios desta luta, estabeleciam sempre a relao estreita entre
ela e a re-construo nacional. "Se na reconstruo, que exige a
luta pela produo  disse mais ou menos um deles  s pudermos
comer uma vez por dia, comeremos uma vez por dia. Os interesses
do povo esto acima dos interesses individuais".
     Na verdade, o analfabetismo no seio das FARP, como entre
aquelas populaes que se encontram diretamente envolvidas na
luta pela libertao,  lingustico e no poltico. Do ponto de vista
poltico, esses militantes so altamente "letrados", ao contrrio de
muitos letrados, que so politicamente "analfabetos".
     Por outro lado, um dos traos marcantes do PAIGC, sob a lcida
liderana de Amlcar Cabral e de seus camaradas, foi sempre o de,
entendendo a luta de libertao nacional "como um fato cultural e
um fator de cultura", em tempo algum haver dicotomizado nela o
poltico do militar.
     No uma vez nem duas, em seus textos, Amlcar Cabral sublinha
"que a nossa resistncia armada  um ato poltico" e que a "nossa
resistncia armada  tambm uma expresso da nossa resistncia
cultural".*
     Foi esta viso dinmica da luta, constituindo-se na luta mesma,
que levou Amlcar Cabral e seus camaradas de Partido a jamais
desprezar a formao rigorosa dos militantes. Dai que nunca tivesse
sido esta reduzida a um treinamento puramente tcnico-militar para

*
  Amlcar Cabral  PAIGC  Unidade e Luta, Publicaes Nova Aurora  Lisboa,
l974, pg. 46.


*
    Amlcar Cabral  Obra citada, pgs. 219-220.
o manuseio das armas. O militante aprendia no apenas o que era
um fuzil e como us-lo, mas tambm para que us-lo, porque us-
lo, contra quem e contra que us-lo e a favor de quem e de que
us-lo.
    "Somos militantes armados e no militares", disse Amlcar,
insistindo na necessidade de "um trabalho poltico eficaz no seio das
foras armadas", cuja falta provocava "uma certa mania militarista.
Tendncia, enfatizava ele, que deve ser combatida e liquidada com
urgncia no seio das FARP".
    Em todos os seus momentos e aspectos, a luta se dava sempre
 reflexo dos militantes, qualquer que fosse o nvel de sua
responsabilidade nela.
    As FARP se constituram numa experincia que sendo militar foi
sobretudo militante e em que, por isso mesmo, os seus
participantes eram constantemente desafiados a pensar, a
conhecer, a criticar e a criticar-se; a aprender de seus erros e de
seus acertos. Este foi sempre o clima da luta.
    "Desenvolver o princpio da crtica em todas as reunies do
Partido, diz Cabral em um de seus textos, dirigindo-se aos
camaradas, em todos os Comits e no seio das foras armadas. Na
guerrilha ou no exrcito, depois de cada operao contra o inimigo,
devemos apreciar os resultados dessa ao e o comportamento de
cada combatente".**
Noutro texto, diz ele ainda: "Temos de ter cada vez mais
conscincia dos erros e das faltas que fizemos, para podermos
corrigir o nosso trabalho e agir cada dia melhor ao servio de nosso
Partido. Os erros que cometemos no devem desanimar-nos, assim
como as vitrias alcanadas no devem fazer-nos esquecer os
erros". E mais adiante: "Devemos, portanto, diante das
perspectivas favorveis de nossa luta, estudar cada problema em
profundidade e encontrar para ele a melhor soluo. Pensar para
agir e agir para pensar melhor".*
    Este sentido de militncia, de compromisso, que inclui a
curiosidade crtica, a necessidade de conhecer cada vez mais a
realidade que se busca transformar, continua a caracterizar as FARP
 e no poderia deixar de ser assim  no momento atual da vida
nacional. Este sentido de militncia, com tudo o que ele implica, se
faz, afinal, um aspecto fundamental na compreenso dos resultados
altamente positivos que se vm obtendo no trabalho de
alfabetizao e de ps-alfabetizao no seio das PARP.
    No  esta, porm, a situao com que nos defrontamos nas
reas populares civis de Bissau, cuja populao, intensamente
exposta, durante a fase colonial,  presena do colonizador, a seu
poder,  sua violncia e a seu engodo e intocada ou quase intocada
pela luta, no teve nesta a parteira de sua conscincia poltica.**

**
     Amlcar Cabral  obra citada, pg. 59.
*
     Amlcar Cabral  obra citada, pgs. 14-15.
**
  Isto no significa, de modo algum, negar, de um lado, o esforo desenvolvido
em Bissau pelo PAIGC, nos primeiros anos de suas atividades, a partir de 1956,
ano em que foi fundado, nem o massacre de Pidjiguiti, em 1959, brbara
represso do poder colonial s primeiras expresses de rebeldia popular
Da que, enquanto para os militantes das FARP a alfabetizao e a
ps-alfabetizao sejam percebidas, facilmente, como um ato
poltico e um meio de melhor servirem aos interesses coletivos,
grande parte dos que tm procurado os Crculos de Cultura nas
reas civis, segundo os depoimentos que ai tivemos, v a
alfabetizao como um instrumento para a soluo de interesses
individuais.
    Embora convencido de que esta atitude tenda a ser superada,
na medida em que o Partido, fiel a seu passado de compromisso
com o povo e o Governo, fiel a esse Partido, portanto ao povo, vem
dando testemunho desta fidelidade atravs de obras materiais, no
podemos desconhecer esse dado concreto.
    Parece importante recordar, mais uma vez, a advertncia de
Amlcar, j citada nesta carta: "Lembrar sempre que o povo no
luta por idias, por coisas que esto na cabea dos homens". Se
Cabral fazia esta advertncia com relao  luta pela libertao, ela
 vlida quanto  luta pela reconstruo nacional, a que a
alfabetizao de adultos, para falar s nela, se deve ligar.
    Desta forma, o trabalho de alfabetizao de adultos nestas reas
civis nos coloca uma srie de problemas, entre eles o de como nos
aproximar de tais reas. O de como encontrar caminhos atravs dos
quais problematizemos aos indivduos sua explicvel percepo
individualista da alfabetizao. O de como, desde o momento
mesmo dos primeiros contactos com os habitantes da rea, j
comecemos a vincular a alfabetizao a uma tarefa concreta, a ser
feita  base da ajuda mtua, em lugar de enfatizar a percepo que
dela tm  a de uma atividade intelectual capaz de promov-los
individualmente.
    Ao comear a repensar as atividades nestas reas, creio que
uma das primeiras preocupaes da Comisso, que submeto a
vocs, deve-ria ser a de selecionar, com o mximo do rigor,
algumas delas como experimentais, para um diferente incio dos
trabalhos de alfabetizao. A seleo dever ser to mais rigorosa
quanto estejamos advertidos de que os resultados obtidos nas reas
escolhidas jogaro um indiscutvel papel no aprofundamento da
campanha e na sua expanso a outras reas. Nelas aprenderemos
dos acertos e dos erros cometidos, a serem sempre analisados e
discutidos em sua razo de ser.
    Isto significa aplicar ao trabalho de alfabetizao,  sua
organizao, a seu funcionamento, os mesmos princpios de crtica,
de disciplina criadora e militante que Cabral sempre apresentou
como fundamentais para a vitria na luta pela libertao.
    A seleo implica, naturalmente, em certos critrios, entre os
quais salientaria pelo menos dois: o de se a populao da rea ou
parte dela est envolvida em alguma atividade produtiva
sistemtica, ou prestes a envolver-se; o dos nveis de participao
poltica da populao, em outras palavras, como a populao vem
respondendo ao esforo de mobilizao poltica feito pelos comits
de bairro do Partido. Dai que a Comisso deva estar em dilogo

canalizada pelo Partido, nem, de outro, o empenho constante do PAIGC, durante
toda a luta, no sentido de atuar em Bissau.
constante com a liderana desses comits, no apenas no momento
da seleo das reas onde atuar, mas durante todo o processo de
sua ao nos bairros. O Partido deve ter um papel importante, no
s na escolha das reas mas na implantao e no desenvolvimento
do programa.
    Escolhidas as reas  duas, trs, no importa  o ponto de
partida do trabalho seria uma visita s mesmas, em que os
membros da comisso se fariam acompanhar de um dos
representantes do comit poltico local.
    A esta altura talvez se pudesse dizer por que visitar este ou
aquele bairro, como ponto de partida do trabalho de alfabetizao,
se vivo em Bissau, se tenho estado nesses bairros por vrias vezes?
O fato, porm, de haver estado vrias vezes num bairro ou de
caminhar diariamente numa rua nem sempre  suficiente para que
tenhamos da rua ou do bairro uma viso realmente crtica. Viso
que comeamos a ter na medida em que, mais do que
simplesmente visitar o bairro ou andar quase automaticamente pela
rua, olhando e escutando apenas, tomamos o bairro ou a rua como
"preocupao", procurando v-los e neles ouvir sua populao 
comunicar-nos com ela. Processo em que, mais do que especialistas
"frios e distantes", que fazem da rea e de seus habitantes objetos
de sua anlise, somos militantes em busca de conhecer a realidade
da rea com os que nela habitam.
    Nestas visitas, os mais mnimos pormenores em torno da
realidade devem ir sendo anotados  o estado em que se
encontram as ruas do bairro e que tinha que ver, por exemplo, com
a sade coletiva; a existncia ou no de pontos de encontro, em
que as pessoas conversam; a maneira como as crianas brincam ou
no nas ruas; um sem-nmero, afinal, de dados que se revelam a
ns quando no apenas andamos pelas ruas, mas nos pomos
curiosos diante delas.
    De alguns desses aspectos poderiam ser feitas fotografias 
verdadeiras codificaes da rea  que seriam discutidas,
posteriormente, nos Crculos de Cultura, por seus participantes.
    Constituindo-se como uma primeira aproximao crtica aos
bairros, estas visitas nos introduzem ao conhecimento deles,
conhecimento que se ir selando na proporo em que
aprofundemos nossa intimidade com seus habitantes, no s nos
Crculos de Cultura mas sobretudo atravs de algum programa de
ao concreta a ser desenhado com a participao dos habitantes.
    Desta forma, em alguns casos, que a prtica nos indicar, a ps-
alfabetizao pode "preceder"  alfabetizao. Assim, em lugar de
comearmos com Crculos de Cultura para a alfabetizao,
comearamos discutindo com grupos de pessoas do bairro aspectos
concretos de suas ruas e a possibilidade de, em uma forma de
trabalho baseado na ajuda mtua, resolver pequenos problemas
locais. Ao discutir-se, por exemplo, a viabilidade de se juntarem
esforos no sentido de aterrar depresses do terreno em que as
guas da chuva se acumulam e se estagnam, possibilitando a
proliferao de mosquitos, se pode debater uma srie de
ngulo@no campo da sade. E no s isto, mas discutir tambm a
significao do trabalho cooperativo, da colaborao, da unidade, da
reconstruo nacional. A compreenso desta, neste caso, passa pela
prtica concreta da reconstruo da casa em que se mora, das ruas
de um bairro e do bairro mesmo.
   Em certo momento do engajamento da populao em tarefas
concretas  possvel que a necessidade da alfabetizao se
imponha. Ela ser, ento, nesta hiptese, a continuidade
aparentemente paradoxal da ps-alfabetizao que a precedeu.
   Em qualquer situao, porm, se faz indispensvel associar a
alfabetizao como a ps-alfabetizao a uma atividade prtica, de
interesse coletivo, sempre realizada cooperativamente.
   Para qual seja esta atividade no h receitas prvias nem pr-
fabricadas.  convivendo com os indivduos em seu bairro que
iremos descobrindo com eles o que fazer e  dando-nos ao que
fazer e sobre ele pensando que iremos conhecendo mais e melhor.
   O contedo programtico da alfabetizao  as palavras
geradoras e os temas a elas referidos  como o da ps-
alfabetizao, emerge da compreenso crtica do bairro e das
diferentes prticas que nele se possam desenvolver.
   Como tenho sempre sublinhado, ao escrever-lhes no tenho
outra inteno seno a de propor questes, jamais a de oferecer
solues, mesmo quando sugiro certo tipo de ao.
   E com este propsito que lhes escrevo mais uma vez, quando,
desafiados, vocs buscam novos caminhos para dinamizar as
atividades da alfabetizao de adultos nas reas populares de
Bissau.
   Com o abrao fraternal de

                                                      Paulo Freire
                           ltima pgina

    At hoje, sem exceo, nenhum dos poucos livros que escrevi
deixou de ser uma espcie de relatrio, no burocrtico,  certo, de
experincias realizadas ou realizando-se em momentos distintos da
atividade politico-pedaggica em que me acho engajado desde o
comeo de minha juventude. Cartas  Guin-Bissau, Registros de
uma Experincia em Processo, talvez seja, entre todos, o que mais
explicita, a partir de ) seu prprio titulo, este carter de livro-
relatrio. Sua Introduo e o P.S. a ela so o relato que situa as
cartas no contexto para o qual e com relao ao qual foram
escritas.
    Na medida em que o processo de que trata o livro prossegue, me
sinto obrigado a continuar fazendo outros relatrios, que ora
aprofundaro afirmaes e anlises feitas, ora as retificaro, ou a
algumas delas s vezes diro o que ainda no foi dito.
    A maneira como publicar os relatrios que se seguiro  se
simplesmente anexando-os a este volume, na hiptese de novas
edies do mesmo; se constituindo com eles um outro pequeno
livro  no me preocupa no momento.
    Um dos pontos a que terei de voltar, de maneira mais ampla,
possivelmente no primeiro destes futuros relatrios,  o da lngua.
Na verdade, quanto mais me insiro na experincia guineense, tanto
mais a importncia deste problema se evidencia, demandando
respostas adequadas em situaes diferentes. De fato, o problema
da lngua no pode deixar de ser uma das preocupaes centrais de
uma sociedade que, libertando-se do colonialismo e recusando o
neo-colonialismo, se d ao esforo de sua re-criao. E neste
esforo de re-criao da sociedade a reconquista pelo Povo de sua
Palavra  um dado fundamental.
    Impresso e Acabamento

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